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10.03.2006

A chegada ao Alentejo (Canada&EUA)

Dia 64
km 4369


Essa manha tinha acordado, indeciso, sinal de que o dia me iria correr mal. Não conseguia decidir se devia continuar , ou esperar mais um dia, a ver se o tempo melhorava. Olho pela janela do quarto com 44 camas (sim, 44!) do Whistlers Hostel,
situado na encosta de uma das montanhas que rodeia Jasper, a uns tortuosos 7 km "uphill" da cidade. O dia estava escuro e chuvoso, com nuvens baixas e espessas, criando uma humidade incomfortável. O tempo não deixava ver montanhas nenhumas, mas já estava em Jasper há 4 dias e alem disso a Danina tinha arranjado uma boleia nesse dia com 2 turistas canadenses, até Banff. Local onde tinha-mos combinado nos encontrar de novo, dai a 3 dias. Pus o equipamento de chuva e parti meio contrariado, pela Icefield Parkway Road (highway 93), que as brochuras turísticas reclamam ser a estrada mais bonita de toda a América do norte. Os 44 dólares que me cobraram de portagem a entrada da estrada, ( 8 dólares por dia, incluindo os 4 que passei em Jasper, mais a famosa taxa canadense), deixaram-me ainda mais desanimado. Com aquele tempo a estrada era igual a qualquer estrada canadense num dia de chuva. A tarde a chuva intensificou-se e decidi acampar fazendo apenas uma etapa de 70 km.

Na manha seguinte acordei com um sol radiante que iria durar o resto dos dias que iria passar no Canada. A diferença da paisagem com o Céu limpo, era abismal. Gigantescas montanhas de ambos os lados, cobertas de neve e glaciares, lagos alpinos, cujos tons de verde iam variando ao longo do dia. A paisagem era demasiado bonita para descrever. Cada curva mostrava uma paisagem mais bonita do que a anterior. Foram 300 km de um gigantesco desfile de beleza natural. A Icefields Parkway Road atravessa o coração das Rocky Mountains, onde quase se sente o seu pulsar, levando-me o mais próximo possível dos seus cúmes sem sair do conforto da estrada. São 300 km consecutivos de património mundial declarado pela UNESCO. Fiz 3 passes consideráveis neste percurso. Um a 1890m, outro 2049m, e outro a 2092m. O ataque ao primeiro passe foi bastante progressivo, começando em Jasper a 1000 metros de altitude e subindo lentamente 500 metros em 70 km. Fiz a subida ao passe no dia
seguinte com um ataque final de 10 km a 8%. O Downhill e muito mais acentuado e espetacular, permitindo ver a estrada entrelaçada pelo enorme vale. Mais um passe no mesmo dia, o Sunwapta passe,acumulando 1290 metros de desnivel, e fazendo 110 km em 6.11h a uma media de 17.8 km/h, montando acampamento a 1608 metros, junto ao rio Mistaya com uma das melhores vistas da viagem ate ao momento.

O terceiro dia foi o mais duro desta etapa, apesar de ter feito apenas 897 metros de desnivel acumulado, fiz 134 km em 6.44h e com o ataque ao ultimo passe (Bow), o mais alto ate ao momento a 2092 metros. Os últimos 63 km desde Lake Louise a Banff foram feitos em apenas 2.15h a uma media superior a 30 km/h, com a ajuda de um fantástico vento forte e uma excelente estrada com um Downhill bastante ligeiro. Cheguei a Banff, sábado a noite, como combinado com a Danina, a tempo de ir celebrar a vida nocturna da cidade, que e conhecida em todas as Rocky Mountains. Começando o jantar com um aceitável vinho canadense e terminado pela noite dentro com shots de bebidas
'desconhecidas' no "Hoo Doo's", uma das discos locais. 4 dias depois, completamente curado da ressaca ( foi a primeira noite que exagerei no consumo de álcool, desde que sai de Portugal), parti de novo pela estrada nacional 93, despedindo-me da Danina com a promessa de nos voltar-mos a ver algures nos Estados Unidos. A estrada 93 segue para sul atravessando o parque nacional de Kootney, parte dele destruído por um fogo recente. Fiz uma etapa pequena nesse dia, apenas 57.6 km, acampando de borla num parque de campismo já fechado ( uma das vantagens de viajar fora de estação), pouco depois do passe de Vermillion (1651 metros), um das dezenas de passes que atravessa o "Continental Divide", a linha de separação das águas do continente americano.

As águas originando a oeste desta cadeia de montanhas vão desaguar ao pacifico, e as originadas a este vão desaguar ao Atlântico. Irei atravessar essa "linha" inúmeras vezes ao longo da minha viagem. A primeira passagem foi logo no inicio, no árctico, nas 'Richardson Mountains', na 'Dempster highway'. Parte do canada e nos Estados Unidos, o continental divide e feito através das Rocky Mountains. E para os mais aventureiros e aficcionados a BTT, e possível seguir o "continental divide", quase sempre "Off Road", desde Banff, no Canada, ate El Paso, na fronteira Mexicana. Um bom programa para a A2Z !
No dia seguinte a EN93 tinha uma surpresa para mim. O Downhill do Sinclar pass (1486) revelou uma paisagem bastante diferente, pequenas colinas com floresta mista, exibindo as bonitas corres do outono, desci cerca de 600 metros e as temperaturas subiram para uns agradáveis 20/25 graus ao sol do meio dia. Tinha entrado nos vales populosos junto as Rocky Mountains com um micro clima onde os outonos amenos são mais prolongados. Neste vasto pais, o segundo maior do mundo, a seguir a Rússia, mas com pouco mais habitantes do que a cidade do México, 90% da população vive num "cinturão" de cerca de 300 km a norte do paralelo 49, isto e , a fronteira dos estados unidos. Desde Vancouver no pacifico ate as províncias francofonas do Atlântico. Era este 'cinturão' humano que eu iria atravessar nos próximo 4 dias ate a fronteira Americana. Estava cerca de 180 km da fronteira, quando a corrente rebentou, e obrigou-me a deslocar-me a pouco agradável cidade de Cranbrooks. Aproveitei para das uma revisão a bicicleta, mudando os calços dos travões de traz,
alinhando as rodas, e mudando a corrente e a cassete.
2 dias depois estava na estrada 93 com Direcção fronteira...

Com a aproximação da fronteira, aumentaram os pensamentos negativos; e se não me deixassem entrar? teria que ir ate Vancouver em bicicleta, e apanhar um avião para o México, arruinado todos os planos de viagem. Tinha começado por decidir no dia anterior, qual seria o melhor visual a usar. Desde o 11 de Setembro o governo americano tinha-se empenhado na construção de um pais fortaleza, imune a qualquer tipo de penetração suspeita, incluindo extra-terrentres e ciclistas. E tinha ouvido as mais variadas historias de situações com os guardas fronteiriços, os quais ,
independentemente do tipo de visto no passaporte, tinham a autoridade absoluta de fazer o que lhes der na gana.. Eu tinha escolhido uma fronteira junto as Rocky Mountains pouco movimentada, mas o pouco trafico por vezes, faz com que os oficiais tenham mais tempo para implicar com casa individuo.A minha preocupação era a barba.
tinha 3 opções: ou deixava a barba como estava, mas poderia ser suspeito de pertencer a algum grupo terrorista árabe. Outra opção seria cortar a barba, mas deixar o bigode, possibilidade que pus logo de parte por dar indícios de relatividade ao Sr Bashar. A ultima opção, seria fazer a barba, mas isso expunha a minha cara alongada e magra, que eu toda a vida me confrontei com a existência, das minhas fortes descendências mouras. Provavelmente seria confundido com algum terrorista marroquino a viajar com passaporte português falso.
Optei pela ultima, pois pelo menos tinha a garantia de que o passaporte não era falso. Tinha-o tirado dias antes de partir no governo civil de Leiria, exclusivamente para a minha passagem pelos estados unidos. O anterior ainda era valido ate 2009, mas como foi escrito a mão por uma funcionaria do cônsul português em Atenas, na Grécia, numa situação de urgência, anos atrás, e não seria valido ao abrigo do novo "waiver program" americano. O "waiver program" oferece vistos gratuitos por 90 dias aos membros de um "clube de elite" de países amigos e 'bonzinhos', ao qual Portugal ingressou recentemente. Todos os outros cidadãos deste planeta, tem que fazer bicha num dos locais de maior risco a atentados terroristas: as embaixadasamericanas.
O trafico nesta parte da EN 93 era muito semelhante a Klondike highway, apenas com algum trafico local e os ocasionais grupos de motards em "road trips", nas suas barulhentas Harleys. O edifício da duana era novinho em folha, havia 3 carros a minha frente que atravessaram com relativa facilidade.

Chegou a minha vez:
-Hi
-Hi, respondi.
-How are you today?
-I'm fine.And how are you?
"how are you" e "have a nice day" são duas expressões no inglês americano que me irritam um pouco pela falta de genuinidade das pessoas quando as prenunciam. Ouso-as a todo o momento em qualquer situação, dezenas de vezes por dia. Imagino o numero de vezes que cada americano as pronunciam por dia, multiplicando por 300 milhões e em uni soro, seria o suficiente para criar uma avalanche numa montanha.
-So, where are you going today?
Apeteceu-me responder que "today", de bicicleta, não ia mais longe do que a próxima floresta e montar a tenda. Mas o oficial, que ate era bastante cordial, informou-me que por já ter estado nos estados unidos (Seattle, no inicio da viagem), e de ter saído sem levar carimbo, estava a reentrar com o mesmo visto que expirava daqui a 25 dias, o que não seria o suficiente para atravessar os estados unidos em bicicleta.
-por favor, encoste a bicicleta, e dirija-se aquele escritório.
-Eu sabia!!!
nunca devia ter feito a barba...
Vão começar os interrogatório e as revisões das malas, sem comer, beber, ou poder telefonar ao consulado português, a explicar que são apenas um cidadão português, a fazer 25000 quilómetros em bicicleta pelo continente americano.
E a garrafa de gasolina do fogão? e o spay anti-ursos? e os painéis solares que o meu primo pedro me ofereceu? e a bandeira portuguesa que a minha irmã pôs nas malas?
sei la! qualquer coisa pode ser suspeito....
Ainda tenho recordações frescas da minha travessia para Israel em bicicleta no ano 2000, pela "King Hussein Bridge" aonde me deixaram apenas em cuecas e t-shirt durante tempos num compartimento fechado ate que as autoridades se convencessem que a única razão porque andava no médio oriente de bicicleta era por puro turismo de lazer. Mas isto não era o médio oriente, Tao pouco guantanamo bay.
Dentro do moderno edifício com decorações um pouco bizarras ( alem da foto de George Bush, tinham também uma membrana de baleia embalsamada e a pele de um animal que não consegui identificar),onde o numero de computadores era de longe superior ao do numero de funcionarios. Um deles, o que não estava a ler o jornal, bombardeou-me com as habituais perguntas de alfandega, e mais algumas que eu achei um pouco fora de contexto, como: há montanhas em Portugal? e como intencionáva atravessar o canal do Panamá? Explicou-me que o "waiver program" não permitia extenções de vistos, mas que
devido a minha situação, iria fazer uma excepção, mais uma vez provando a sua autoridade.
Pede-me 7 dólares, que eu fiquei sem saber se eram para o papel que eu preenchi ou para a tinta do carimbo, e disse:- have a nice day A partir daquele momento fiquei a pensar que a razão pela qual os americanos repetem desnecessariamente e de uma forma quase religiosa, "have a nice day", e por acreditarem que a repetição da frase a transforma em realidade; para mim, nesse dia, funcionou.
Peguei na "burra" e zarpei para sul, pedalando ate ao anoitecer. Tinha entrado nos estados unidos da América. Mas o engraçado foi que pareceu-me que entrei no Alentejo....

A estrada deslisava por entre colinas de feno amareladas, calor e ar seco, e bastava trocar os pinheiros por chaparros e estava a entrar no Alentejo... observo o mapa e reparo que tinha feito mal os cálculos. Ainda faltavam 30 km ate Whitefish. Claro, a partir de hoje as distancias são em milhas. Montana tem nomes engraçados, a começar pela cidade fronteiriça de 'Eureka', 'Yaak', 'Paradise', Pleasant Valley', 'Pompey's Pillar',etc... mas o meu favorito e: 'going to the sun road' que de facto não vai para o sol, mas sim, para o 'International peace park'. Amanha vou dar um passeio por la, a ver se sinto alguma "paz" do trafico da cidade...

Nuno Brilhante Pedrosa
em Whitefish, Montana, EUA.

9.26.2006

Festa pelas criancas especiais (Canada)

Ola amigos lusos,

Acabei de fazer a "icefield parkway road". A etapa mais espetacular ate ao momento, como podem ver nas fotos do ultimo album, se e que fazem alguma justica a lindissima paizagem das "rocky mountains".

Foram mais 280 kms pedalados pelas criancas da APPC.

Um dos patrocionadores desta viagem, a discoteca Alibi, em colaboracao com a APPC, vai realizar uma festa de apoio as criancas especiais do centro da APPC de leiria, ja nesta proxima sexta feira, dia 29 de setembro.
Uma boa opoturnidade para voces poderem colaborar para esta nobre causa e ao mesmo tempo divertirem-se.Parte da receita da noite vai directamente para a associacao.
A discoteca encontra-se no centro comercial maringa, no centro da cidade.

Bebam um copo por mim.....

Hi guys,
just finnished the icefields parkway road. The most spetacular road until now, as you can see in the new album in the photo gallery,if the photos make it any justice....

another 280 km ride for the special chldren of the "APPC"

Just in case you are in Portugal this week, and around Leiria, my home town, one of this trip sponsors, the Alibi club, is putting up a night dedicated to them. Its already this friday the 29th of september and part of the evening revenue goes straight to the association.
The club is located inside the "maringa" shopping center,in downtown Leiria.
A good oputurnity to help the "special children" and have fun at the same time.

Have a drink on me....
Nuno Brilhante Pdrosa
algures na pan-americana

9.19.2006

A chegada as Rocky Mountains (Canada)

Dia 50
Km 3486


Ao viajar de bicicleta tudo e imprevisível, nunca se sabe o que esta para acontecer ao virar uma curva. Uma paisagem lindissima, um furo, um encontro inesperado..
O que me aconteceu no dia em que sai de Smithers, foi de facto, inesperado. Tinha saído tarde, eram cerca de 11 horas da manha. O dia estava lindo, com nuvens altas, sol e uma pequena brisa de noroeste. Tinha acabado de falar com os meus pais, e isso, encheu-me o dia de uma energia radiante.
A Yellowhead Highway que liga a costa do pacifico as província do interior do Canada, atravessava vastas zonas florestadas. Junto a estrada haviam alguns ranchos com pastagens vacas e cavalos, os primeiros que via desde que a viagem começou. Passei por 2 ou 3 aldeias de Mennonites, onde rapazes e raparigas da escola brincavam em lugares separados, e vestidos com as suas roupas tradicionais. Foi uma visão bonita, como, se por momentos ,tivesse entrado num passado longinquo. Existem apenas cerca de 1 milhão e meio de Mennonites espalhados pelo mundo. Uma religião adepta a não-violência, não-resistência e pacifismo.

A paizagem mudou desde que deixei a Cassiar, a presença humana e mais evidente.
Tinha feito cerca de 40 kms quando uma carrinha me ultrapassa e para a minha frente. Dela saiu um homem alto e forte, em calções e camisa estampada, e com um largo sorriso. Por momentos pensei que fosse o empregado do parque de campismo municipal de Smithers, que ao descobrir que sai sem pagar a ultima noite veio a minha procura. Já tinha uma desculpa formulada, que, de facto, era a verdade: Tinha-o procurado no dia anterior e essa manha também, com a intenção de lhe pagar, como nao o encontrei deixei-lhe uma mensagem na porta da sua casa:" I've looked for you everywhere. I'm on the Yellowhead'n east. The portuguese cyclist."

Afinal o homem alto e forte era o Paul, um dentista de huston, a próxima aldeia a cerca de 30 kms dali. Depois de um pouco de conversa, convidou-me para passar a noite em sua casa, deu-me o seu cartão, com um numero para o chamar quando chega-se a Huston. 3 horas depois estava no armazém da sua casa, que mais parecia uma oficina de bicicletas, a lavar a minha fiel companheira de viagem: a Kona fire mountain.).
O Paul soltou uma enorme gargalhada enquanto me limpava a corrente, quando lhe disse que andava a usar azeite. Expliquei-lhe que o azeite, um pouco a semelhança do arroz na Índia, ou o coco nas Caraíbas, e um ingrediente multi-funções bastante usado no Meriterrâneo. Essa noite a mesa de jantar com a Gheri, a sua esposa, a Alli, a Dani e a Jo, as suas 3 filhas, falamos com entusiasmo acerca de zonas que eu deveria visitar, e em viagens em bicicleta em geral, um tipo de ferias que toda a família era accionada. Pela altura da sobremesa, o Paul divergiu a conversa para a historia do escaravelho...
Outro dos efeitos do aquecimento global, que e tema de conversa, desde jantares de família, ate debates parlamentares. Os escaravelhos atacam apenas os pinheiros alpinos, cortando o fluxo de agua e nutrientes , tornando as folhas vermelhas, e posteriormente causando a sua morte. São necessarias temperaturas de inverno com cerca de -20 graus para matar a lava dos escaravelhos.

Os invernos amenos dos últimos 4/5 anos permitiram taxas de mortalidade de 10% em vez dos normais 80%. Resultado: uma explosão massiva da população de escaravelhos. Nos dias que se seguiram, observei com mais atenção as florestas, realizando que as suas enormes manchas vermelhas, não são parte das cores do outono, como pensava, mas sim, resultado desta epidemia, que afecta principalmente as províncias do Yukon e British Colúmbia, e que ameaça expandir-se a Este das rocky mountains. Algumas das formas de combate do governo, e o corte de florestas, o fogo posto controlado, e a replantação de floresta mista.
O resto da noite passamos a ver mapas da América do norte e a ver qual seria o melhor itinerário que deveria tomar nos Estados Unidos. Todos foram unânimes, incluindo a Jo, a filha mais nova, que com cerca de 10 anos, já viaja com a sua própria bicicleta, que deveria seguir a rota do pacifico por já estar demasiado frio nas rocky mountains americanas, na altura em que la chegar.
Na manha seguinte, a Gheri preparou-me um lanche para levar, e o Paul um pequeno frasco com óleo para a corrente da bicicleta, que garantiu ser mais adequado ao frio das montanhas Canadenses do que azeite.
Despedi-me da família Comparelii, e desta inesperada situação, com a foto da praxe,e segui viagem....
Tinha feito apenas cerca de 10 kms quando conheci a Kathy e o David, os únicos ciclistas que vi nesta etapa de 807 kms, entre Smithers e Jasper. Sempre pela Hellowhead Highway, atravessando a British Colúmbia de Oeste para Este. A Kathy e o David são de Seattle, deixaram os filhos com alguém e decidiram tirar um mês de ferias a andar de bicicleta pela British Colúmbia, e como andavam a um speed maior do que o meu (cerca de 150 kms dia!)passamos apenas esse dia juntos. Mal eles sabiam que o destino ia mudar os seus planos de viagem.

Os 2 dias que se seguiram ate a cidade de Prince George, tive um vento forte a favor, aproveitei para somar kms. 127 kms e 146 kms, montando acampamento,as 5h e 5.30h, respectivamente.
Prince George e uma grande cidade, moderna e um pouco industrial, a planta nuclear a saída da cidade, espalhava os seus vapores um pouco por todo o lado. Decidi não ficar e seguir viagem. Mas antes fui comprar um saco-cama, deixando o velho com um casal de nativos bêbados que estavam sentados num banco do jardim da biblioteca municipal. O alcoolismo e um problema grave das comunidades nativas. Tenho-o observado desde Inuvik. Presos entre duas sociedades, nas quais não se identificam por completo. Vivem com a nostalgia do passado, e não são aceites por completo na sociedade moderna Canadense, resultando em problemas sociais como o alcoolismo, drogas e desemprego.
O meu novo saco cama e bem mais volumoso do que o outro e não cabe nas malas. Tenho que o transportar junto a tenda em cima do suporte. Mas apenas com pouco mais de um kilo e temperatura conforto de -7 graus, e exactamente o que necessito para as Rocky mountains. Valeu cada um dos 79 dólares que me custou, logo no segundo dia quando as temperaturas no acampamento junto ao rio Holmes baixaram aos -2.
Nessa tarde antes de começar a procurar um local para acampar, um outro carro ultrapassa-me e para um pouco mais adiante. Teria sido uma grande supresa, quando vi que eram a Cathy e o David, se não tivesse dado uma olhadela no meu site na pequena aldeia de Mc Bride no dia anterior, e tivesse visto a mensagem que me deixaram no meu livro de visitas.
A Cathy teve um acidente sozinha, num 'downhill', um problema inexplicavel com a corrente fez com que voasse pelo ar aterrando com o capacete que se partiu em 3 lados e impediu fracturas graves. Depois de uma visita ao hospital de Prince George, dicidiram alugar um carro e arrumar as biclas no porta bagagens.
O David fez questão em me oferecer o seu capacete.
O chapéu 'a fidel passou, de momento, para as malas, e de facto ate me sinto melhor a viajar com capacete.
Nesta ultima etapa de 807 kms pelaYellowhead highway, atravessei toda a British Colúmbia de Oeste para Este, subindo parte das rocky mountains pelo seu passe mais baixo, o Hellowhead passe (1159 metros), e cheguei ontem a esta pequena cidade de montanha ja na província de Alberta.
Estou no Parque nacional de Jasper e Bannf, e por qualquer lado que me vire, tenho montanhas com cúmes de 3000 metros, e acima.
A jóia na coroa das montanhas canadense, as rocky mountains, essa cadeia de montanhas gigantesca que se estende desde do norte do canada quase ate ao sul dos estados unidos..

Estou a espera da Danina,uma amiga australiana que vive perto de vancouver e que chega a Jasper amanha pela manha. Uma amiga de longa data, cujas nossas vidas se tem cruzado ao longo dos anos. Primeiro em Portugal, numas ferias de Verão quando a conheci. Anos depois em Londres, quando a reencontrei na brixton academy numa festa de hard house music awards que ela gostava de frequentar. O ano passado em Whistler, aqui no canada, quando tive as minhas primeiras lições de snowboarding numas curtas ferias de inverno. E de novo amanha, aqui no coração das rocky mountains.
Daqui vou seguir para sul sempre em cima das 'rockies' ate onde o clima o permitir....
Primeiro percorrendo a " Icefields Parkway road" ate Bannf, e depois por estradas ainda não definidas ate Yellowstone, já nos Estados Unidos.
Ai, abandonarei as montanhas (altas!), e seguirei para a costa do pacifico, em busca de temperaturas mais amenas, mas onde provavelmente irei encontrar muita chuva...
'E a forca dos elementos, sempre presente, na construção do itinerário desta aventura rumo a terra do fogo....

Nuno Brilhante Pedrosa
em Jasper, Alberta, Canada.

9.09.2006

Stewart & Cassiar Highway (Canada)


Dia 41 de viagem Kms 2679
Atravessar o paralelo 60 que passa por "cima" de Watson Lake, por alguma razao, fez-me sentir que ja estou "mais a sul", apesar de ainda estar na zona remota do norte da provincia da British columbia.
Desarma-mos as tendas montadas junto a casa da senhora que trabalhava no posto de imformacao turistica de Watson Lake, que muito cordialmente, nos tinha oferecido o seu jardin, quando no posto de imformacao, lhe pedi-mos a recomendacao de um sitio para pernoitar, e parti-mos pela Cassiar Highway.


A Cassiar Highway e uma estrada remota que liga o centro litoral da provincia da british Columbia com o Yukon. Atravessa vales lindissimos com cadeias de montanhas com cumes cobertos de neve. A primeira parte da viagem foi um pouco...humida!
Comecou a chover logo no segundo dia pela tarde.Estava quase a alcancar o km 2000. Para-mos para por o material impermiavel; casaco gore-tex com o capucho sobre o chapeu e oculos de sol para dar visibilidade, poncho por cima e calcas impremiaveis e um par de protectores de chuva descartaveis para as sapatilhas; 2 sacos do pao de forma.
"country harvest", e uma marca que eu gosto de comprar.Pao de aveia com passas de uva e sabor a canela, que alem de nao ser mau no paladar, tem 70 calorias cada fatia e vem num saco tamanha 43 (c.e.) que encaixa prefeitamente na minha sapatilha. Enfiados pela abertura, dobrados por entre a meia,e a calca impermiavel por cima. Sao leves, descartaveis e de borla.
Outro dia duro e molhado. A meio do dia tive um furo, alias um estouro. O primeiro da viagem depois de 2208 kms pedalados. troquei a camera d'ar e pus 2 remendos no pneu que se tinha descozido lateralmente, e segui viagem.

Choveu todo o dia e o vento forte vindo de sul nao parava de soprar. A humidade entranhava-se nos ossos.. O nosso objectivo nesse dia era alcancar a casa do john no acampamento de trabalhandores de manutencao da estrada , em Bob Quinn. Seria uma etapa de 100 kms.Nao tinha-mos alternativa, pois acampar com aquele tempo era sinonimo de uma noite miseravel.
O vento soprava de frente, com rajadas e a chuva fria impedia-me de observar a linda paizagem da Cassiar highway, os meus olhos estavam focados apenas num triangulo de 5 metros de alcatrao. A minha mente viajava um pouco mais a sul, nas praias quentes de areia fina de um mexico com sol radiante. A casa do john estava apenas a poucos kms de distancia, quando de repente um outro estouro tras o meu pensamento de volta a estrada fria humida e ventosa da British Columbia.
BANG!
Numa fracao de segundo o aro da roda traseira roca no chao. Nem precisei de travar, a velocidade que ia estagnei na berma da estrada. Gritei ao bruno mas o vento devolveu-me o grito.
Que dia! Nao um furo, nem dois, mas sim 2 estouros, vento chuva e frio tudo a mistura como se fosse a reacao de um mau karma duma das minhas vidas anteriores. A primeira coisa que me veio a mente foi acender um cigarro. Tirei as malas virei a bicicleta ao contrario e saquei a roda fora. O pneu tinha descozido num sitio diferente. Ao longe vinha um carro. Fiz-lhe sinal para parar. Alem de nao parar, jorou um jacto de agua lamacenta nas minhas calcas. Pela primeira vez na viagem senti-me sem forcas.
Algum tempo depois apareceu o bruno, passou outro carro, este, parando voluntariamente, ofereceu-nos ajuda. Puse-mos as biclas no jeep e alcanca-mos o acampamento em menos de 5 minutos. A casa do john era uma das 6 ou 7 casas pre fabricadas oferecidas pelo governo canadiano aos trabalhadores da estrada. Alem do alojamento tinham servicos de saude gratuitos ( em caso de emergencia,transporte de helicoptero para a proxima aldeia) e 27 dolares por hora. Nao estava ninguem em casa. O John estava a gozar as suas ferias anuais a trabalhar no seu negocio. Um motel em Iskut, onde a chuva nos obrigou a parar por dois dias. Tinha-o comprado por 150 mil dolares, barato, mas com o pouco trafico mal lhe dava para os gastos, contou-nos. Depois do excelente banho e jantar, observei o pneu com mais atencao.

Estava a descozer-se por todo o lado. Nao havia nada a fazer. Arrependido por ter deixado o meu pneu suplente com a Susie, uma canadiana, em Boya Lake dias atraz, dicidi que iria a boleia ate a proxima aldeia Smithers ou terrace a mais de 300 kms dali, comprar outro pneu e regressar. Com sorte levaria 2 dias. Na manha seguinte dei um passeio pelo acampamento numa ultima tentativa de encontrar uma solucao.
Numa das casas estava uma senhora com cerca de 50 anos e com a pela da cara envelhecida dos muitos cigarros e cafes solitarios tomados em frente a televisao. Expliquei o meu problema. Disse-me para tentar a minha sorte no quintal das traseiras da casa. No meio da lixeira de pneus de camiao, pecas de imobiliario e eletrodomesticos ferrugentos encontro um pneu roda 26 !
2 cafes depois e um pouco de conversa, deixei-lhe 15 dolares de agradecimento e segui viagem.
Nada como um dia miseravel para dar valor a luz e calor de um sol radiante.

A minha sorte estava a mudar e a paizagem tambem. Desce-mos de altitude, as temperaturas eram mais amenas e as montanhas com os cumes cobertos com as pimeiras neves da estacao, acompanharam-nos o dia todo. Antes de comecar a descida para os vales ajusto o meu altimetro com um sinal de um cole da estrada. Tinha 120 metros de diferenca. Boas noticias, aproximava-se uma alta pressao atmosferica.
No dia seguinte fui acordado pelo Bruno a chamar-me:
Nuno, vem aqui!, gritou. Quero que conhecas alguem.
Alguem?. Pensei que tinha-mos acampado no meio do nada!
E tinha-mos. So que junto a estrada.
As lindissimas paizagens da Cassiar Highway, o trafico quase inexistente e a isolacao da estrada sao ingredientes com sabor a aventura para ciclistas, nao e de estranhar que seja bastante popular com eles, e nao passou um dia que nao tenha-mos conhecido um. Mas este era especial. Tao especial que ja tinha ouvido falar dele dias atras em jade city ( 10 habitantes) atravez da dona da loja de jade que nos tinha oferecido um cafe e nos contou como por aquelas bandas se extraiam blocos de jade de alta qualidade, que eram exportados para paises como a China Tailandia ou India, onde a mao d'obra barata dos excelentes artesoes locais os transformavam em pequenas obras de arte. Parte para o mercado local, mas a maioria importado de novo para o canada ou para os mercados mundiais.
Quem diria que , secalhar, aquele souvenir de ferias comprado em Phuket veio das montanhas do canada e nao das zonas tribais de Chang Mai?
O Bruno estava a falar com outro ciclista. Randolph e um alemao que ja vai na sua quarta volta ao mundo em bicicleta, creio que me disse serem 14 anos na estrada. Anos atras teve um acidente na Argentina. Foi atropelado por um camiao que o abandonou no meio da valeta inconsciente. Passou 4 anos no hospital, perdeu parte da sua memoria. A policia encontrou o camionista, o processo criminal ja decorre ha mais de 10 anos, e disse-me ja ter gasto mais de 60 mil dolares no processo.
Mas a sua historia nao termina aqui.
Rudolph, recuperado de um cancro e tambem detentor de um titulo no guiness book of records, como o ciclista que pedalou mais dias consecutivos em temperaturas abaixo de 0. Disse-me ter pedalado a -30 graus! Nos iamos rumo a sul para fuguir ao inverno e este maluco ia para norte ao encontro dele. Queria quebrar o seu proprio record, e desta vez tinha o auxilio de 4 skies construidos por ele proprio, e montados lateralmente na bicicleta.Trazia nas malas pneus Schwalbe com bicos, para pedalar no gelo e caso nao tenha forca suficiente transportava consigo um atrelado com 3 caes husky para o puxar.
Tencionava pedalar pelos rios Mckenzie e Yukon quando estes congelarem.
A volta ao mundo dentro do seu proprio e em busca da sua memoria.....
Chegamos a Meziadin junction onde acampamos junto ao lindissimo lago.

A floresta inteira observava a sua propria belesa no reflexo das aguas turquesas.
Em meziadin entrei num postal de paizagem paradisiaca, para so sair 65 kms depois na aldeia de stewart, junto a fronteira com o Alaska.
Deus devia estar muito bem disposto quando criou esta parte do planeta. Montanhas verdejantes com glaciares que quase chegavam a estrada, rios furiosos a descer montanhas. Cascatas descendo penhascos, e e claro:ursos. Ja vou em 11 na minha contagem desde Inuvik. Chegamos a Stewart onde acampamos no parque municipal.
As comunidades fronteiricas de Stewart ( 600 habitantes ), e Hyder ( Alaska, 90 habitantes), estao localizadas no final do canal maritimo de 'Portland', um das dezanas de canais maritimos que fazem parte das "misty fjords" do Alaska. As comuniaddes estao tambem rodeadas de magesticas montanhas costeiras e de glaciares, que fazem parte dos " Cambria ice fields". A principal razao por que vim aqui foi para observar de perto a desova do salmao. Uma das muitas maravilhas da natureza. O culminar de um ciclo de vida de 4 a 5 anos, que termina com a morte dos peixes no lugar certo na altura certa.Depois de divagarem pela vastidao dos oceanos durante a sua vida adulta, iniciam a ardua viagem rios acima ate encontrarem o lugar exacto onde nasceram, libertando milhoes de ovos e morrendo de exautão. O salmao rico em gorduras e a base da dieta dos ursos, que nesta altura do ano estao na fase da engorda, entes de entrarem no periodo de ibernacao.
Com certeza que ficara na memoria por uns tempos o cheiro intenso a peixe podre, os milhares de salmoes mortos na agua, aguias e gaivotas a alimentarem-se deles, e os ursos a alimentarem-se dos que ainda vivem. Com tanta abundancia tornao-se selectivos e comem apenas as femeas e os seus ovos.

No dia seguinte seguimos viagem, percorrendo de novo os lindissimos 65 kms ate 'Meziadin junction', onde cortamos para sul pela Cassiar.
Mais um dia de viagem, e o pneu que encontrei na lixeira em Bob Qinn, comeca a dar ares de cansaco; mais um furo e uns remendos no pneu. Desta vez uma luva de plastico cortada e enrrolada na camera d'ar. Passo os livros e outras cenas pesadas para as malas da frente e o Bruno carrega-me a tenda ( em cima da sua, ja enorme carga!), mas a meio do dia o pneu envelhecido decide nao suportar mais o meu peso. Este era o ultimo dia que viajava-mos juntos. No final da cassiar o Bruno iria para oeste, para a costa onde um ferry o levaria a Vancouver numa viagem de 2 dias. Eu seguiria para este, para o interior da British Columbia e em direccao as Rocky mountains. Com a proxima casa a 70 kms de distancia, no acampamento nativo de Kitwanga, nao tinha alternativa senao fazer "batota" e pedir boleia ate a loja de bicicletas mais proxima. Despedimos-se ali no meio da estrada trocando direccoes, o Bruno deu-me algumas pecas de equipamento, uma navalha suica, um impremiavel para a chuva comprimidos de purificacao d'agua entre outras coisas, e prometeu 60 dolares para as criancas da APPC Leiria. O guarda florestal que me deu boleia, deixou-me mesmo em frente a loja de bicicletas em Smithers, onde comprei um pneu Schwalbe marathon plus.O melhor pneu que havia na loja.
Foram duas semanas de excelente camaradagem e amizade.O Bruno foi grande companheiro de viagem e fonte inspiradora para a minha odisseia rumo ao sul....
Nuno Pedrosa em Smithers, B. C. , Canada

8.27.2006

Na Alaska Highway ate Watson Lake (Canada)

Watson Lake
Km 1834



O parque de campismo municipal de Whitehorse e um excelente local para conviver com outros viajantes. Fundamental para construir o itinerario de viagem atravez da troca de impressoes e experiencias de viagem. Este parque estava cheio deles.!
Edward,um australiano de Wagga wagga.-De donde?, perguntei de novo.-Waga wagga, esclareceu, com uma voz de quem esta habituado a repeticao da pergunta. Aagghh wagga e uma pequena aldeia no "outback" australiano, e o Edward veio para o canada para trabalhar na exploracao petrolifica em Alberta, contou-me, bebendo a sua cerveja em redor da fogueira onde nos encontrava-mos. No parque estava tambem o Tim, um Americano de Missouri, que veio para o Yukon para fazer canoagem. Planeava descer 350 Kms pelo rio Yukon de Carmacks ate Dawson City numa semana. Contou-me, com o seu chapeu de basebol sempre na cabeca. Porque sera que os americanos tem o habito de andar sempre de chapeu, mesmo quando quando nao e preciso.Eram 10.30 da noite!
Ia ser a aventura da sua vida, e estava desejoso para voltar a casa e contar aos amigos as aventuras da viagem que ainda nao comecou.Trouxe consigo uma pistola no caso de encontrar um urso cara a cara... Nao ma mostou, mas contou-me em detalhe como faria se encontra-se um urso, articulando os bracos como se a tivesse nas maos. Nem de ferias viajam sem armas! Sera que sem elas se sentem vuneraveis? Em facto, acho que trazer uma arma para a natureza, tem o efeito contrario, ficas mais vuneravel, pois deixas-te aproximar mais das situacoes de perigo por pensares que estas seguro com a arma.

No dia seguinte chegaram ao acampamento um casal de ciclistas suicos, o Tony e a Valerie, notava-se que as bicicletas ja traziam bastante rodagem. Experientes viajantes que pareciam seguros de cada movimento que faziam.Andam a viajar pela America do norte http://www.alaskatandem.ch/ .Convidaram-me para um cafe na sua tenda. Ao lado dela estava um outro ciclista. Um Japones que nao me recordo o nome, que estava a iniciar a sua viagem ali, e queria ir ate Vancouver. Falava muito pouco ingles, o que dificultava a comunicacao. Remexia o seu equipamento novinho em folha que obviamente ainda nao tinha sido estriado, e ao mesmo tempo articulava palavras soltas em ingles que ninguem entendia. Partiu ao nascer do sol tao rapidamente como tinha chegado. Com aquele speed, ja deve estar em vancouver. A tomar conta de nos todos estava a jovial Stephanie, com a sua t-shirt apertada em decote que lia "I love Yukon", uma Canadiana de Quebec a passar a epoca de verao a trabalhar no parque como recepcionista. O jovem Bruno era um outro ciclista residente no acampamento. Um reformado suico com 64 anos, que passava o tempo a queixar-se das dores no rabo e dos ligamentos de ambas as pernas. Tinha pedalado cerca de 1000 Kms, desde Anchorage no Alaska, e parecia estar um pouco em baixo de forma.Ia para sul como eu. Tinha ido ao hospital essa manha e estava disposto a continuar ate vancouver.

Perguntou-me se eu nao o queria acompanhar e fazer a Cassiar Highway juntos. Disse que sim. Partiria-mos dentro de 2 dias.
No dia seguinte pensei em descortar-me do convite. Porque razao queria eu pedalar com um ciclista de 64 anos, com dores no rabo e a queixar-se dos ligamentos? E ainda por cima suico?(sem ofenca Nela!).
No outro dia, a hora conbinada apareceu junto a minha tenda com a sua bicicleta ibrida, com tamanha carga que ate dava pena. Mas o jovem Bruno estava determinado. Vestia uma camisola estampada com todas as cores possiveis e imaginarias, grandes oculos de sol pretos e capacete na cabeca.O cota radical! No lado direito do guiador trazia duas campainhas suicas penduradas, que me iriam irritar varias vezes durante a viagem. As suas malas dianteiras estavam tao levantadas, por causa da bicicleta ter suspencao dianteira( construiu um suporte especial para elas), que eu questionava como e que ele conseguia manter bom equilibrio. Seguimos viagem pela Alaska Highway.
A Alaska Highway foi uma das grandes obras de engenheria americana do seculo passado.Depois do ataque dos Japoneses em Pearl harbor, o governo americano viu que uma rota terrestre para o Alaska era vital para a seguranca daquele estado e da nacao. A ideia era de construir uma estrada no mais curto espaco de tempo e apenas viavel para uso militar.Em conjunto com o governo canadiano, 10.000 soldados, 4.000 dos quais eram negros dos estados do sul dos EUA, construiram a estrada de 240 0 Kms em extencao em 8 meses, trabalhando 24 horas por dia com o rigor do inverno onde as temperaturas baixavam aos -30 e -40 graus.

Centenas nao sobreviveram para ver a estrada de saibro completada.Tinhamos o vento de frente, por vezes forte. Alteravamos a lideranca com as bicicletas quase coladas para poupar energias. Pelo menos a paizagem era mais bonita do que na Klondike Highway e apesar de ser a estrada principal do Yukon nao tem muito trafico. Grande parte dele sao R.V. (recreational vehicles) autenticas casas moveis, com variantes desde caixotes encaixados nas traseiras de carrinhas com caixa aberta a autenticos semi-reboques com canoas, bicicletas, motos, barcos de pesca e ate jeeps agarrados de alguma forma ao camiao.Com geradores barulhentos e ar condicionado.Quando parqueadas ocupam o estancionamento de 3 carros, e os seus ocupantes, na maioria reformados Americanos, passam o tempo a ver telenovelas Americanas via satelite, e a comer pipocas feitas no micro ondas ou "muffins" com coca-cola light.Comodidades de uma sociedade de consumo. Foi um dia duro, mas mesmo com o vento contra passamos dos 80 Kms.No final do dia procuramos um local para acampar, cozinhamos o jantar, e relaxamos os musculos ao som de uma sessao musical.
Que espirito este homem. Eu chamo-o o cota radical ( porque as vezes faz-me lembrar o Fael de leiria, companheiro de aventura nos Himalaias e Patagonia, que tambem ja com o seu meio seculo vivido e problemas com ligamentos acabou a caminhada no parque de terra del fuego em lideranca) O Bruno e um verdadeiro soldado de viagem, com uma forca de vontade e de espirito que nem as dores de ligamentos e rabo abrassado o impedem de terminar a sua pedalada ate Vancouver.

Observo-o a tocar a sua armonica e vejo-o como uma fonte de inspiracao para a minha viagem.
Viajar de bicicleta nao escolhe idade ou condicoes fisicas, a forca de vontade leva-te a qualquer lado. Quando regressar a Portugal vou tentar convencer o meu pai a viajar comigo! No dia seguinte conhecemos um outro casal de ciclistas, estes holandeses. Ate ao momento, os primeiros numa grande viagem, que vinham, imagine-se, de Ushuaia, o meu destino final no sul da Argentina. Para mim foi a opturnidade para bombardea-los com perguntas acerca do itenerario, clima, locais a visitar, etc, ect. Perguntei-lhes acerca do "gap de Darien", a unica parte da Pan Americana que esta interrompida por cerca de 200 Kms de selva entre a fronteira do Panama e a Colombia. E a reposta foi que cerca de 70 pessoas foram raptadas ha pouco tempo pelos guerilhas colombianos. Quando chegar a essa zona terei que procurar opcoes de itenerario.
Depois de falar com eles , fiquei indeciso no percurso a tomar nos estados unidos, seguindo a costa ate a california, ou pelas rocky mountains, Utah e nevada.
Acabamos de fazer a etapa de whitehorse a Watson Lake, 447 Kms em 5 dias, o que e uma exelente media, e com boa camaradagem.
Chegamos hoje a Watson Lake, que passaria despercebida no mapa se nao fosse a sua "floresta de sinais".Mais de 50.000 sinais de trafico e outros, segundo a ultima contagem em 2005, estao expostos num labirinto, que caso te percas, seguramente encontraras um sinal a dizer:"exit". Os sinais veem de toda a parte do mundo. Apostei com o Bruno 20 dolares se encontar-se um sinal de Portugal. Estes sinais sao trazidos por pessoas em viagem que ao passarem por aqui as pregam em postes de madeira. Suponho que muitas pessoas ja tem conhecimento desta "floresta" e imagino-os a despregar e desmontar enormes sinais pela calada da noite, nas suas cidades ou aldeias, roubando 20 kilos de metal (alguns sao emormes!) colocando-os nas suas R.V. e despeja-los aqui nesta pequena cidade perdida na imensidao da natureza selvagem da Yukon. Tem que lhes dar algum gozo!

Tinha acabado de ler o sinal que dizia:" George Paterson quality meats, just up ahead", quando ouvi o Bruno a dizer:- desisto, nao encontro nenhum sinal portugues, vamos jantar!
Amanha vamos partir para a Cassiar Highway.Vao ser cerca de 1000 Kms por uma parte isolada da provincia da British Columbia, apenas com algumas aldeias assinaladas no mapa, que se for como ja e costume, nao passam de umas bombas de gasolina, um motel, e um restaurante. Mas nao vou partir sem deixar uma placa na floresta de sinais a dizer: APPC LEIRIA.

Nuno Pedrosa, em Watson Lake, Yukon, Canada

8.20.2006

No trilho da febre do ouro. Klondike Highway (Canada)

Km 1387

A Klondike highway segue mais ou menos o “gold rush trail”, a rota que cerca de 40.000 caçadores de fortunas fizeram em busca do metal percioso.Foi uma viagem epica,tendo em conta o rigor dos invernos e dos trilhos da altura. O alcatrão há muito que apagou as pegadas dos mineiros, e para além das placas alusivas aos feitos desses grandes aventureiros, que se encontram ao longo do caminho, e aos montes atras de montes de pedra quebrada pela maquinaria mais moderna das poucas minas de ouro que ainda hoje alteram a paisagem em redor de Dawson city, pouco mais ha que faca lembrar esse passado glorioso.
O percurso de 562Kms foi um “passeio” comparado com a Dempster highway.

A Estrada apesar de ter trocos em saibro, esta em boas condicoes.Desliza suavemente as Colinas do Yukon Plateau. Aproveitei para subir as medias para 93.5 Kms/dia, nao so pelas boas condições da Estrada e da monotoma paisagem, que não convidava a muitas paragens, mas tambem por a janela climática se estar a fechar. Apesar das temperaturas estarem idiais para ciclismo com maximas de 20 graus durante o dia, as noites ja sao frescas com os tremometros a baixarem aos 5 graus.
O verao esta a terminar.
E eu nao estou,de forma nenhuma preparado para enfrentar o rigor do inverno canadiano. Beaver creek, quer nao fica muito longe daqui, registou num mes de fevereiro dos anos 70 a temperatura mais baixa da America do norte: -63 graus!
Apesar da monotomia das densas florestas de cedros e outras arvores alpinas , basta acampar junto a um lago ou rio para poder sentir que nao viajo so por esta Estrada.

Acampei junto ao “gravel lake”, as nuvens reflectiam nas aguas placidas do lago, castores(autenticos engenheiros de construcao na vida animal) estao atarefados na construcao das suas casas. Um verdadeiro labirinto de trocos de Madeira que alteram paizagens. Um castor corta uma media de 200 arvores por ano o que justifica a exprecao canadiana: “busy as a beaver” ou seja; atarefado que nem um castor.
Patos e galinholas pousam na agua para pernoitar.Ligo o meu radio de ondas curtas e ouco a previsao do tempo para amanha. Monto o meu fogao a gasolina e preparo o jantar, observando o lago cheio de vida ao entardecer. E ali estou eu...sozinho.Eu e a natureza.
Estou a comecar a sentir-me mais confidente a acampar no meio dela. Ja comeco a identificar alguns sons nocturno s e durmo bem. Sem aqueles sobresaltos do inicio da viagem, em que qualqer ruido, para mim era a presenca de um urso.De facto nesta zona, e mais perigoso ser urso do que ser humano.
Na manha seguinte abri o fecho da tenda e vejo 2 cisnes brancos de bico preto a nadar nao muito longe da tenda. Transporto-me no tempo e vejo-me a acordar no meu quarto em londres, meio resacado dos muitos cigarros e copos de vinho da noite anterior e ja atrasado para o trabalho.
Qual e a realidade?
Preparo um tacho de cereais, varias sandes de crème de nozes (altamente energetico) e um café.Arrumo as malas e desmonto a tenda.Um processo que me leva cerca de hora e meia cada manha, e sigo viagem.
Cada dia que passa pedalo com mais forca que o anterior. Sinto os músculos das pernas a desenvolver. A motivação e tão forte, que nada parece me inpedir de continuar.
Cheguei a Whitehorse, capital da provincia do Yukon. Esta provincia montanhosa que e cerca de 5 vezes maior que Portugal tem apenas 32.000 habitantes. 23.000 vivem na capital.
Com 6 caribu por pessoa e um urso grizzly por cada família de 5, a natureza e rainha por estas bandas. Whitehorse nao e apenas a capital da provincia, mas também a cidade fronteirica entre a natureza selvagem do norte e a paisagem semi controlada do sul.
Aqui termina a rede de transportes da “greyhound”, os serviços nacionais de emergência 911 e as boas recepções de radio e telemovel. As grandes “corporations” como a Mc Donalds e pizza hut, também nao se aventuram mais para norte.
Ficarei por Whitehorse por 3/4 dias.

Tenho pela frente mais uma etapa de cerca de 500 Kms , pela famosa Alaska highway, ate dawson lake. Aldeia junto a fronteira com a provincia da british Columbia.
Seguindo-se outra etapa de 1000Kms pela Stuart Cassiar highway que se aproxima da costa do pacifico antes de entrar para o centro da provincia ate a grande cidade de Prince Rupert. Pelo caminho, com um pouco de sorte, espero ver mais ursos em accao.Desta vez a pesca de salmao, que nesta altura do ano fazem a sua viagem rios acima para desovar. Claro que este precurso esta sempre sujeito a grandes alteracoes. No fundo o itenerario e simples:
Sempre para sul ate nao haver mais estradas !!
Nuno Pedrosa, em Whitehorse, Yukon, Canada

8.10.2006

Dempster Highway (Canada)


A Dempster highway,ou mosquito highway como eu prefiro chamar-lhe atravessa a vasta zona selvagem do artico Canadiano.Como etapa inicial desta aventura pela Pan Americana nao foi nada facil,apesar dos numeros nao o indicarem.Fiz 825Kms em 10 dias, sem dia de descanco.Um pouco apressado por as distancias entre postos de abastecimento serem enormes,tive uma etapa com 369 Kms sem nenhum sitio para comprar comida,o ideal seria ter-la feito em 15 dias para poder contemplar melhor a paizagem e a natureza.

Os primeiros 150 Kms de Inuvik ate ao rio mackenzie(travessia de ferry durante o curto verao,ponte de gelo durante o resto do ano)foram os menos interessantes. A Dempster rasgava pelas planicies articas atravessando zonas patanosas que fazem parte do gigantesco delta do rio Mackenzie,o 3* maior do continente americano a seguir ao amazonas e ao mississipi, e o 10* do mundo. Para alem das aves migratorias e dos zelioes de mosquitos nao se via muita vida animal.
Acampei na segunda noite junto ao red artic river, do outro lado do rio avistava-se a pequena aldeia de Tsiigehtchick com os seus cerca de 160 habitantes nativos gwich'in.A partir dessa aldeia a Dempster nunca mais parou de supreender com uma constante mudanca de paizagem cada 40/50 Kms.A paizagem passava de tundra artica com caribus no horizonte a montanhas nuas e rochosas,vales verdejantes lagos rios.A natureza no seu absoluto explendor,sem ser perturbada pelo homem.

Os northwestern territories Canadianos sao uma das partes habitadas do planeta com menos densidade populacional por Kms/2,e ou poucos habitantes que tem sao de descendencia aborigena, esquimos,gwich'in ,inuit,etc.O governo canadiano de uma forma quase ironica proteje esses grupos minoritarios estabelecendo concessoes de territorios a essas minorias,chamadas "first nation people",criando zonas autonomas no norte do canada algumas maiores do que portugal,alegando que sao as suas origens e que devem ser perservadas.Parece-me bem.Mas julgo que na verdade essas zona foram as zonas nao de origem mas as zonas de "refugio" a extreminacao colonalista,onde os colonos nao se aventuravam (a nao ser pelo ouro!) devido ao rigor do clima e do relevo.
Proxima paragem foi fort Mc Pherson a unica aldeia em todo o percurso da Dampster com supermercados(se e que assim se podem chamar),cheguei tarde ao por do sol,era cerca da uma da manha,com tudo fechado acampei junto a entrada da aldeia.No dia seguinte enchi as malas com comida para 6 dias,um pequeno passeio pela aldeia,chicotiei a "burra" e trotei pela estrada saibrenta rumo a sul. Ia carregadissimo e a brita solta da estrada por vezes fazia-me perder o equilibrio,fui ao chao algumas vezes mas sem danos.
O trafico intencificou-se de uma carrinha de caixa aberta(os unicos carros por estas bandas) cada 2/3 horas para uma cada 30/40 minutos,estava a aproximar-me de midway lake ,um descampado onde nesse fim de semana iria tornar-se num acampamento para o festival de music indigena dos "first nation people".Os locais estavam ocupados com os preparativos do evento,montando tendas fazendo fogueiras e construindo "cabins",pequenas casa de madeira com espaco para duas camas e uma lareira,para alugar aos turistas por 20 dolares por noite.Gostava de ter la passado o fim de semana,mas estava com receio de nao ter mantimentos suficientes para todo o percurso.
Os Kms que se seguiram foram dos mais duros da viagem,subia e descia colinas com inclinacoes que chegavam aos 12%,uma apos outra.E cada vez que parava para limpar o suor da cara apareciam os meus fies amigos de viagem:os mosquitos,em exercitos.Coordenados pelos generais,os moscardoes,que apareciam sempre em menor numero,seguidos pelos zelioes de soldados avidos de sangue,das mais variadas especies.Existem cerca de 40 especies de mosquitos no artico canadiano.O mais comun era o que eu chamava de dentes com asas e havia tambem o mosquito invisivel,aquele que pousava, picava, chupava e desaparecia sem deixar rasto,so sentia a comixao quando era tarde de mais.Cheguei a pensar que preferia que se me acabasse a comida do que o repelente para insectos.O meu 2 em 1 (protector solar e repelente) era bastante eficiente mas o suor do corpo escorria o creme da pele,e cada vez que punha um pe no chao tinha que me besuntar de novo antes de ser atacado.
Ate lhes dediquei cantigas durante a viagem numa tentativa em vao de os afastar com a minha voz tremula e aguda.

Numa dessas colinas avistei a placa que anunciava que estava sobre a linha do circulo polar artico.Esqueci-me dos mosquitos e contemplei o local quase de uma forma reverente.Ha muito que sonhava com a passagem por este local,senti a distancia e a isolacao do espaco.....uma alegria enorme apoderou-se de mim...ganhei energia para enfrentar as ultimas colinas ate chegar a eagle plains.O dito segundo posto de abastecimento que nao passava de um "lodge" com uma oficina,uma gasolineira,um motel , um restaurante,mas nada de merciarias.havia 8 habitantes no que estava assinalado no meu mapa como "aldeia".
Almocei no restaurante e negociei com o cozinheiro a compra de alguns legumes frescos,3 ovos leite, pao ,um pedaco de carne e segui viagem.Nesta parte da Dempster podia observar inumeros animais,caribus,aguias, falcoes,aves migratorias,doninhas mas maiores que as nossas,e e claro:os ursos!
Foi nesse dia que tive o meu primeiro encontro com essas criaturas,tinha acabado de passar o glaciar creek quando deparo com duas crias a brincar junto a estrada ensaibrada e poeirenta,parei a cerca de 80/100 metros a contemplar-los.A pouca distancia metida na tundra estava a mae.Estive cerca de uma hora a observa-los e tambem a espera de uma opoturnidade de poder seguir.
O vento soprava de este para oeste,do meu lado para o lado da mae,sabendo que isso nao era favoravel decidi esperar ate que as crias se afastassem a uma distancia segura.

O meu coracao palpitava de contentamento e exitacao mas tambem de receio e medo,ja tinha tirado o travao de seguranca da botija de gas "anti-ursos" que me foi oferecida por uma ciclista em inuvik( http://www.rideon2006.blogspot.com ) e que nunca esteve a mais de um braco de distancia durante toda a viagem caso as coisas correcem para o torto,quando passa uma carrinha com dois jovens gwinch'in.Ao verem as crias pararam e recuaram a carrinha ate ao pe de mim.Ofereceram-se para me dar boleia dissendo que corria perigo ali tao perto dos ursos.As crias sao muito curiosas e mais tarde ou mais cedo vao aproximarsse de ti,disseram.Tu nao queres ver uma ursa mae chateada,man!.
Nao conseguia julgar se estava mesmo a correr perigo ou se estes jovens nativos estavam apenas a ser cordiais comigo.Mas a sua preserverancia convenceu-me.Ainda nao decidido a por a "burra" num veiculo motorizado decidimos que eu iria pedalar ao lado da carrinha ate uma distancia segura.nao tardou ate que as uma das crias tomasse a minha direcao.Apressadamente pusemos a Kona (Kona fire mountain e a marca da bicicleta) na carrinha e afastamos-se deixando um rasto de poeira a pairar no ar.
Deixaram-me a cerca de um Km depois,despedi-me deles agradecendo e segui viagem.

A Dempster highway comecava a sua subida para a cadeia montanhosa de ogilivie,subindo suavemente ate ao north fork pass,a 1289 metros o meu primeiro da viagem e nao muito alto comparado com o que me espera la mais para sul.no entanto a latitude faz que as temperaturas baixem dramaticamente e no cole estavam 8 graus comparado com os 26 graus que se faziam sentir nas planicies.
Dai ate ai final da dampster foram 82 Kms num suave "downhill".Parei para acampar no recem criado parque territorial de tombstone onde ciclistas nao pagam para acampar!
No ultimo dia fiz a maior etapa ate ao momento:110 Kms em 7 horas ate chegar a dawson city,40 deles ja feitos em alcatrao.Ah...alcatrao...foi como por a "burra" num tapete voador!
Dawson city e uma cidade estranha,parece ter sido tirado de um a maquete de um filme do faroeste.
No inicio do seculo passado a febre do ouro trouxe os garampineiros para esta cidade fazendo-a a segunda maior cidade na costa do pacifico na altura superada apenas por San Francisco.O ouro acabou e a cidade morreu no tempo,agora os descendentes dos garapineiros encontraram um novo tipo de ouro:os turistas.
Para mim e tambem um local para descancar as pernas,tirar a lama das malas e descansar.Afinal de contas a viagem ainda mal comecou.
Mas a Dempster vai ficar como uma das etapas mais duras durante uns tempos bons.Foi um verdadeiro teste de resistencia fisica e para a burra tambem.Ambos passamos o teste.
Entretanto vou peneirar um pouco da areia do rio klondike a ver se encontro alguma pedra relusente.....

Nuno Brilhante Pedrosa
em Dawson City, Canada

7.31.2006

Inuvik 68* 21'N 133* 43'W (Canada)




Tinha acabado de chegar de uma outra viagem ha 4 anos atras quando na minha casa em londres peguei numa caneta de filtro e comecei a tracar suavemente uma linha no mapa do continente americano.Comecei junto ao mar artico e suavemente deslizei a caneta ate chegar a terra do fogo na Argentina.Soltei uma gargalhada.Seguisse um calafrio e um penssamento:Impossivel.No entanto intitulei a viagem "de polo a polo" e guardei o mapa.
E aqui estou eu no Km o no dia 1 deesta grande aventura...Esta tarde com a casa nas malas e a "burra" debaixo de mim parto rumo a sul com um unico objectivo:Percorrer a estrada mais longa do mundo a favor das criancas da Associação Portuguesa de Paralesia Cerebral - Núcleo de Leiria , a pan americana.
A primeira etapa que comeca hoje,e a dempster highway 747 Kms de estrada em saibro com apenas 2 pontos de abastecimento ,forte Mc person e Eagle plains,ate chegar a pequena cidade de dawson.Julgo levar cerca de uma semana.Dai ate whitehorse a primeira cidade de tamanho razoalver,sao mais 500Kms,portanto este blog,mas primeiras semanas vai ser actualizado com pouca frequencia....
Inuvik `e o final das estradas no artico canadiano,local de final ou inicio de viagem para muitos aventureiros.a populacao local uma mistura de inuit's ,gwich'in canadianos das provincias do sul ,entre outros,que nesta altura do ano tentam desfrutar ao maximo os 56 dias do ano sem o sol se por.Ha actividade nesta pequena aldeia construida em permafrost(solo misturado com gelo)durante a "noite" toda.
Eu vou aproveitar a "noite" para iniciar a viagem....
Nuno Brilhante Pedrosa
em Inuvik, artico canadense