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2.29.2008

Trocal Amazónica (Equador)



Com mais de 10 mil quilómetros ainda para percorrer e com a janela climática a fechar-se, o inverno austral era algo que já me preocupava há vários meses. Nas últimas semanas tenho viajado a médias de 30/40 km/dia e chegar a Ushuaia antes das primeiras neves e temperaturas negativas estava a tornar-se numa missão quase impossível.

Tinha que tomar uma decisão: ou separar-me da Joana e avançar pedal a fundo pela rota mais curta possível e com poucas paragens, ou adiar a chegada à terra do fogo para depois do inverno austral. Faço vários telefonemas para me assegurar de que seria possível financeiramente viajar por 6 meses adicionais. Telefono também aos meus pais. "Mais uma vez vou adiar a minha chegada. Só chegarei lá para o Outono, ou talvez antes do Natal. Ainda não sei". Ficaram apreensivos.

Numa aventura desta envergadura, não pode haver compromisso com o tempo. A sensação de estar "preso" a ele é um paradoxo que remove os prazeres de cicloturismo. Pela primeira vez em vários meses sentia-me de novo completamente livre. Mas apesar de já não haver pressa, e de estar a gostar da cidade, começava a sentir comichão nos pés. Cuenca oferecia demasiados "confortos" ocidentais e sentia a necessidade de explorar um pouco mais o verdadeiro Equador fora dos roteiros turísticos.

O plano era simples: A Joana tinha que esperar em Cuenca pelos seus novos cartões do banco, que tinha cancelado quando os perdeu num táxi (e voltou a reencontrar) à sua chegada ao Quito, semanas atrás. Eu seguia viagem até à cidade de Loja (200 km para sul), onde me reencontraria com ela mais tarde.


"Vemo-nos dentro de 5 dias", disse-lhe, sentindo o seu corpo num forte abraço. Na noite anterior no quarto do "hogar Cuencano" tinha-lhe mostrado o mapa e dito como iria ser uma etapa fácil. A estrada aparentemente seguia o rio de um vale passando por Paute, Sevilla D`oro e Amaluza antes de descer os Andes orientais e entrar na selva amazónica do Equador.

O mapa indicava uma interrupção de 40 km na estrada entre Amaluza e Mendez, mas a dona do hostal garantiu-me que ela existia. O mapa indicava também uma forte depressão entre a cordilheira oriental e a cordilheira del Condor por onde a estrada seguia para sul até Zamora.Uma vez em Zamora iniciaria a subida de regresso aos Andes e à cidade de Loja.

Um desvio de 360 kms em 5 dias por estradas relativamente planas.Pelo menos era essa a ideia que eu tinha do amazonas. O facto de poder conhecer um pouco do "Oriente", o amazonas equatoriano e a cultura dos indígenas Shuar, atraía-me imenso. Em especial depois de visitar o fantástico museu de Pumapungo em Cuenca, que retrata a fascinante cultura desse povo. O que eu ainda não sabia, era que tinha pela frente não só a etapa mais difícil do Equador, mas sim desde que pisei solo sul-americano com a minha fiel burra.

Saio de Cuenca já tarde. Eram 11 da manha. Sigo pela panamericana 15 km para norte até ao cruzamento para Paute. A estrada alcatroada até Paute era de facto, relativamente plana, o trânsito intenso e a paisagens desinteressante.Paute é a última cidade entre Cuenca e Mendez com uma vasta variedade de mantimentos. Depois de Paute a estrada apesar de boa, começa a alterar entre alcatrão e saibro, em especial junto a linhas de água. As chamadas "zonas geologicamente instáveis" tão comuns nos Andes,onde por vezes depois de fortes chuvadas e pedaços de estrada, simplesmente desaparecem.

Depois de uma semana parado em Cuenca,sentia-me feliz por estar de novo na estrada, sentir a montada. Sentia a burra como um prolongamento do meu corpo. Juntos deslizávamos encosta acima encosta abaixo, por uma estrada que, ao longe, parecia ser uma corda lançada ao acaso sobre a encosta da montanha. O vale assinalado no mapa sempre existia, mas não era mais do que um desfiladeiro escavado na terra durante milhões de anos, desde os cumes da cordilheira até às terras baixas do amazonas com cerca de 100 km de extensão, cada vez mais estreito e profundo com o descer das montanhas.





Em ambas encostas pequenas fazendas em adobe e telha romana rodeadas de árvores de cacau e bananeiras davam uma atmosfera colonial à paisagem. Animais domésticos passeiam por todo o lado. Obstróem a estrada alheios ao trânsito como se a ela tivessem direito. Cães demarcam o seu território perseguindo a bicicleta, ladrando ferozmente. Algo a que já estou habituado, mas nesta estrada eram particularmente agressivos, o que me obrigava a andar com pedras na mala do guiador.

Ao final da tarde procuro um lugar para acampar. Encontrar 15m2 de terreno para montar a casa, normalmente não é um problema, mas o relevo era tão inclinado que depois de pedalar já pela noite dentro em busca de um lugar, desisto e monto a rede entre duas árvores. A "henessy hammock" tem sido uma das peças de equipamento que mais valorizo, permitindo-me uma noite de sono confortável e abrigo, mesmo nas situacoes mais difíceis.

No dia seguinte dou inicio à descida dos andes para a selva amazónica. Começar o dia a 2470m de altitude e terminar a 590m, poderia-se pensar que seria um dia de downhill fácil. Na verdade foi um dia bastante duro. O relevo era tão "enrugado" que acumulei 1690 metros de altitude, apesar de ter descido mais de 2000m.


A paisagens eram do mais exótico e luxuriante dos últimos tempos. A cordilheira oriental, ao contrário da cordilheira do pacífico, é bastante verde, com florestas húmidas e nublosas e inúmeras cascatas. Na verdade, nesse dia, julgo ter visto mais cascatas por km pedalado do que em qualquer outra parte nesta viagem. Seguramente que se o explorador alemão Alexander Von Humbolot tivesse passado por aqui durante as suas expedições dos andes, teria intitulado esta estrada como a "avenida das cascatas".



Ao final do dia chego a Mendez, uma pequena cidade perdida no meio da selva, quente e húmida, com casas construídas em madeira e habitantes simpáticos de descendência Shuar. Mendes não tem infraestruturas turísticas, é apenas um entroncamento entre os Andes e a selva Amazónica. Esta parte do Equador é das menos visitadas do país, e um turista (em especial em duas rodas) é sempre uma novidade.

Um dos residentes, Samuel, convida-me para um refresco em sua casa e apresenta-me à sua família. "A estrada boa termina aqui", disse continuando, " daqui para sul a estrada está muito má. Há muitas obras e cortes na estrada, mas de bicicleta não vais ter problemas". Se esta era a estrada boa, como seria a má? E cortes na estrada? O que é que ele queria dizer com isso? Na manhã seguinte, aliás, nos 3 dias seguintes, para meu horror, iria presenciar bem de perto ao que o Samuel se estava a referir.



O troncal amazónico, como é conhecida a estrada, bordeia os "pés" dos Andes orientais desde a fronteira colombiana até à cidade de Zamora. Uma artéria exterior do maior pulmão do planeta. Para oeste a quase impenetrável selva amazónica. Depois de Mendes, o troncal do amazonas penetra por dentro da densa vegetação, camuflada no verde intenso, com vários troços de estrada construída de pedra polida pelo tempo recolhida dos rios que a atravessam, sem fazer muito esforço para contornar montes criando inclinações cruéis. Um pesadelo para qualquer cicloturista carregado, mas a única forma económica de manter a estrada transitável o ano todo.

A estrada enlameada e "esbarradiça" obrigava-me a fazer downhills tão lentos como as subidas, em parte devido aos pneus completamente carecas com que viajo. Ambos Shwalbe Marathon plus. O traseiro colocado no Yucatan (México) e já com 12.848km rodados, e o da frente, uma autêntica relíquia de equipamento, já roda nas estradas do continente desde Smithers (Canada) há uns impressionantes 24.253 kms.

Apesar dos pneus aparentarem ser mais adequados 'para "bike-boarding" do que para cicloturismo em estradas molhadas de calhau rolado, nos últimos 12.000 kms tive apenas um furo na estrada (mais 2 de válvula e um de remendo descolado), o que não me deixa dúvidas de que são os melhores pneus no mercado para cicloturismo.

Foram 3 dias duríssimos para percorrer os cerca de 150 kms até à cidade de Gualaquiza onde inicia de novo o alcatrão, com médias de 6 e 7km/h, estradas cortadas por avalanches de terra, árvores caídas, áreas com lama onde tive que empurrar a burra e várias zonas de construção que implicavam horas de espera e que estão lentamente a transformar o troncal amazónico numa "super via" na selva.








Pelo menos é esse o objectivo do governo Equatoriano que pretende criar infraestruturas para a exploração petrolífera. Vastas quantidades de ouro preto foram encontradas recentemente na região, em especial no subsolo do parque nacional de Limoncocha. Depois de 3 dias de "ciclo-tortura", a chegada a Gualaquiza e ao alcatrão foi recebida com forte entusiasmo, foi como se pusera a burra num tapete voador.

Dias depois chego a Zamora onde recebo notícias da Joana que ainda estava em Cuenca à espera dos seus cartões , decido tirar um dia livre para visitar o parque nacional Podocarpus, recem aclamado património da humanidade pela UNESCO. Uma vista interessante em particular pela enorme quantidade de aves e borboletas.




No dia seguinte dou início ao regresso à cordilheira Andina. A estrada sobe sem interrupção até aos 2800m, seguindo-se um downhill de 700m até a cidade de Loja, a última grande cidade no sul da cordilheira. A Joana chegou uma semana depois...e ainda sem cartões,(a saga dos seus cartões do banco perdidos há 3 semanas no labirinto dos correios Reais Ingleses não é digna de ser relatada).

Apesar de ainda estarmos a mais de 200 km da fronteira do Peru, as próximas pedaladas iriam definir todo o nosso itinerário do norte do peru. Ou seguíamos directamente para sul passando por Vilcabanba e Zumba usando a fronteira mais remota entre os dois países e entrando no peru pelos Andes orientais, por estradas em saibro e clima adverso, ou seguíamos para sudoeste usando a calma e tranquila fronteira de Macara entrando no Peru pela seca e plana província de Piura e posteriormente pelo deserto costeiro de Sechura. Optamos pela segunda. A principal razão:o rigor dos elementos.
Os Andes peruanos atravessam de momento o período mais intenso de chuvas do ano, e muitas estradas estão intransitáveis. A costa desértica irá oferecer um ciclismo mais fácil, plano e seco.

Ao final do dia, perto de San Pedro la Bendita, metemo-nos por um caminho de terra batida que desce um estreito vale e termina em frente de uma simples casa de cimento sem electricidade. Pedimos aos donos para que nos permitissem acampar algures nas suas terras. A notar pela quantidade de pintas vermelhas nas caras das crianças, havia uma epidemia de sarampo na família, o que não nos incomodou.
O senhor Torres, corcunda, de sorriso contagiante e com ar de intrigado e surpreendido pela súbita intrusão de 2 ciclonautas na sua vida rotineira, mostra-nos um pedaço de terra junto ao curral do porco.

Não nos queixamos. De facto parecia ser o local mais adequado com terra plana e protegidos pela casa. "Podem dejar las motos ahya, no pasa nada", disse. Apesar de eu insistir de que se tratavam de bicicletas, julgo que no dia seguinte saímos sem que eu o convencesse de que não havia "motor" nas bicicletas. Cozinhamos no quintal à luz de vela sobre um céu escuro e carregado, na companhia das crianças, fascinadas com a nossa presença.

A incerteza do desconhecido deve ser uma das cenas mais fascinantes e motivadoras de cicloturismo. Muitas vezes durante o dia tento imaginar onde irá ser o lugar de eleição para passar essa noite. Num hotel barulhento? Com uma calorosa família? Na tenda à beira da estrada numa noite de frio e chuva? Na rede debaixo de duas árvores? Ou junto a um lago com vista para os andes?
A falta de conforto e da segurança da rotina estimulam outros sentidos e obrigam-me a ver e sentir o que me rodeia numa forma mais lúcida, mais presente.







Acordamos com o som do porco a remexer na lama a poucos metros da tenda. Despedimo-nos da família Torres, pegamos nas nossas "motos" e seguimos viagem. Choveu durante todo o dia. Apesar de estar a adorar pedalar no Equador, já começamos a antecipar a travessia de fronteira para o Peru. O mau tempo que se faz sentir já há varias semanas começa a desmoralizar e começamos a antecipar as próximas pedaladas pelo deserto quente e seco do norte do peru.

Ao meio dia paramos junto à estrada para comer algo e dormir uma sesta. Avistamos um outro cicloturista que se aproxima lentamente. Era o Jeff, que tinha pedalado desde loja até ali (200 kms) em menos de dia e meio,com o objectivo de nos alcançar. Foi um prazer voltar a ver-lo.
O Jeff saiu de Inuvik (Canada) 2 dias depois de mim, conhecemo-nos pela primeira vez no México e voltamos a encontrar-nos meses depois na Guatemala. Viajamos juntos até Granada na Nicarágua. Não o voltei a ver desde então.


Macarà é uma cidade fronteiriça feia, com uma atmosfera tipo faroeste, de prostituição, casas de jogo e delinquência. A fronteira do Peru fica apenas a poucos km a sul. Amanhã iremos enfrentar juntos o que é considerado por muitos cicloturistas como o país mais "difícil" da América latina, segundo alguns dos comentários que ouvimos de outros ciclonautas que temos conhecido e que viajam no sentido inverso ao nosso e que tem partilhado as suas experiências connosco. Mas de facto, do outro lado da fronteira, na nossa próxima etapa pelo deserto até Trujillo, esperavam-nos várias surpresas agradáveis.

Nuno Brilhante Pedrosa
Em Trujillo, Peru.

1.23.2008

O ano novo de La Moya. (Equador)

Sem desviar a atenção dos buracos da estrada, observo através da vegetação que servia de vedação a uma casa moderna construída em blocos de cimento por pintar, à matança do porco. Em frente à porta da casa estava um homem feito de palha com uma máscara no rosto. Alguém com uma faca abria o animal deitado numa mesa e extraía-lhe as entranhas. Ouço o gritar de crianças, música, risadas e conversas de palavras soltas.

Procurava uma padaria nesta aldeia de 20 ou 30 casas espalhadas ao acaso pela estrada e encosta da montanha. A Joana tinha ficado à beira do riacho que atravessa a entrada da aldeia, a preparar o picnic na companhia de duas crianças curiosas. Uma senhora afasta-se do grupo e aproxima-se da estrada.
"Para onde va?", perguntou.
"Por ahya, à la iglesia", respondi olhando vagamente para a capela rodeada de algumas casas que se avistava no cimo da subida, e que me parecia ser o centro da aldeia.
"Usted es de Londres?".
"No, de Portugal, pero si vivi en Londres".
"Conoce a Torres?"
"Torres? porsupuesto!" exclamei surpreendido.
"Hey, es elle, es elle, gritou a senhora voltando-se para o grupo de pessoas em redor do porco.
"Lo estavamos esperando. Adelante, siga no mas"

18 meses antes no bar do restaurante "Le Caprice" em Londres, o meu colega de trabalho, depois de muitos copos de champanhe em jeito de despedida, desenhou-me numa folha de papel o mapa do Equador, onde detalhava a Panamericana entre Alausi e Cuenca. "Tens que visitar a minha família no Equador. Serás bem recebido". Esse mapa viajou nos alforges da burra até hoje.
"Quando chegares a La Moya, pergunta pela família Torres. Todos conhecem"
Não foi preciso.

"Chancho", leitão, e peru assado no forno, servido com "Mote" (milho branco cozido a vapor), e pão feito em forno de lenha, eram alguns dos ingredientes principais que Anita Gullien estava a preparar para a noite de final de ano. Família do Quito estava presente e antecipava-se uma grande festa. Todo o casario de La Moya (que nem vinha assinalado no meu mapa) estava também em festa.

E festa por estas bandas não é celebrada sem alguma "herencia" espanhola, a corrida de touros, misturada com influências locais, o consumo de enormes quantidades de "Canela". Aguardente de cana de açúcar misturada com água quente, sumo de lima e açúcar.

Essa tarde na arena da aldeia, algumas vacas magras eram desorientadas pelos muitos "toureiros" que se tornavam mais corajosos com o fluir das "canelas". Num palco a um canto da arena, protegidos pela intensa neblina que acentava na encosta do vale, uma banda "en vivo" de trompetes e guitarras entretinham as multidões com o som (repetitivo) da musica tradicional Equatoriana.




Depois da nossa inóspita noite de natal onde fomos obrigados a acampar à beira de um caminho ao final de um dia frustrante a subir uma árdua montanha em busca do lago idílico de Colta (via Punin e Tselaron) que imaginávamos estar sempre depois da "próxima curva", e onde depois de montar acampamento fomos acusados por um indígena local embriagado, de ladrões e ameaçados de ter a tenda incendeada durante a noite, esta corrida de touros não era como a de Pamplona, era melhor!

Foi uma noite de natal "diferente". Como consolo tivemos uma excelente garrafa de vinho chileno e o conforto de saber que com a humidade do nevoeiro que se fazia sentir, o velho zarolho e bêbado, não só não iria conseguir incendear a tenda, não iria dar com ela!
Mais tarde, no outro lado do enorme vale, por detrás da cordilheira a lua cheia eleva-se iluminando o vale a afastando a neblina.

Natal não se resume a presentes e luxúrias. Como alguém uma vez me disse, "o importante é lembramo-nos uns dos outros". E ali estava a lua cheia, algo que podemos partilhar com o mundo inteiro.


Na manhã seguinte seguimos viagem terminando o dia em Palmira.

Uma pequena aldeia 20 km a norte de Alausi. O sacristão da aldeia ofereceu-nos uma divisão vazia do convento de San Juan evangelista, onde introduzimos as bicicletas e dormimos no chão. Partilhamos o edifício em desuso com uma extensa família Equatoriana que nos acolheu com o verdadeiro espírito de natal.
Foi o nosso presente.


A tourada termina e regressamos a casa. Pelo caminho viam-se algumas casas modernas em cimento que contrastavam fortemente com as simples casas de madeira com telhado em telha ibérica.
"Pertencem a emigrantes em Londres", conta-nos o Júlio.
O Equador, assim com o México, El Salvador e muitos outros países da América latina, é um país de fortes tradições migratórias. A maioria para os Estados Unidos e Espanha, mas em La Moya parecem ter ido todos para Londres. O Júlio tem lá 3 irmãos e a sua irmã Anita, 5 filhos.

O Henrique ( que iríamos conhecer dias depois) conta-nos como o Luís Torres foi a primeira pessoa da aldeia a chegar a Londres, depois de muitas peripécias. Depois foram os irmãos, sobrinhos e amigos. Hoje em dia, não há um residente de La Moya, que não tenha um familiar ou um vizinho a viver em Londres. A família torres é uma historia de sucesso. Mas nem todos têm a mesma sorte.

Enquanto eu vou pedalando Andes acima, ou tu a ler estas linhas em frente ao computador em Portugal, Brasil, ou noutra parte da "aldeia global", não há uma semana que não passe sem a notícia de uma trágica história de um barco cheio de emigrantes clandestinos naufragado no mar pacífico ou o camião-cisterna de algum coyotero (traficante humano) cheio de pessoas a viajar em condições sub-humanas a ser apanhado no deserto do Arizona ou no norte do México.

Muitos estavam na fase final da sua árdua e longa viagem pelo continente americano em busca da "land of freedom". Na lista: sempre um ou outro equatoriano. Histórias que me tem acompanhado ao longo da viagem no continente americano.

É noite de ano novo e o leitão que esteve a marinar durante a noite passou várias horas a assar no forno a lenha e está pronto para ser consumido. Nesta atmosfera simples e saudável do campo equatoriano, um turista da Europa do norte poderia estar a ter uma forte experiência, mesmo um choque cultural. Para mim e a Joana foi como uma viagem à nossa infância. Era tudo muito familiar. O leitão assado, o forno a lenha a um canto e a lareira a outro, pão quente com manteiga, e uma calorosa família onde os traços familiares são preservados a rigor.

Dançávamos em frente à casa junto à estrada. Todos participavam. O som alto da música típica andina atraía alguma vizinhança que se juntava à festa. A Anita mantinha os ânimos altos com as suas inúmeras rodadas de "canela" servidas de um jarro de plástico para um único copo que circulava entre todos. A contagem decrescente era anunciada por mim através do computador da bicicleta.





À meia noite pára a música, trocam-se abraços solidários e le-se o "testamento" deixado pelo "año viejo". O ano velho era o fantoche de palha que vi à minha chegada em frente à casa e que iria ser queimado a seguir, símbolo de todos os acontecimentos do ano que termina. O seu testamento, uma paródia acerca da vida de cada membro da família, que não excluiu os ciclistas visitantes. O fantoche é queimado no meio da estrada alheio ao trânsito que se tem que desviar. Apenas mais um dos milhares de fantoches queimados nas estradas equatorianas essa noite. Às 2 da manhã fomos todos na carrinha do Júlio,ao bailarico da aldeia. Uma atmosfera surreal onde não faltou muita "canela" e dança até as 5 da manhã.

No dia seguinte, meio ressacados, despedimo-nos das famílias Torres e Gullien e seguimos viagem.


Tínhamos um plano bastante ambicioso de fazer um dia "normal" de ciclismo, mas havia mais surpresas pelo caminho. Tínhamos feito apenas 4.5 km quando passamos pelo casario de Zunar. Uma jovem rapariga aproxima-se e diz:" La patrona los esta invitando a parar". Troco olhares com a Joana. Ser convidado a parar e entrar na casa de alguém é algum relativamente comum em cicloturismo na América Latina, mas tínhamos feito apenas 4.5 km e queríamos continuar. "No gracias, que nos desculpe pero tenemos que seguir viajen".

Momentos depois uma senhora de meia idade corre ao nosso lado gritando ofegante:"Pare por favor, soy hermana do Torres" Irmã do Torres, pensei, quantos familiares terá ele espalhados por este vale? Paramos para um pouco de conversa e um copo de cerveja. Era apenas meio dia. Já não partimos.

Tinha acabado de fazer o dia mais curto de toda a viagem. A este ritmo quando irei chegar à Patagónia? Natal de 2008?
O Henrique indica-nos o local onde deveríamos guardar as bicicletas, no galinheiro da casa. Mas não era um galinheiro qualquer, como viríamos a saber mais tarde. Mais de 20 galos de raça em compartimentos separados, protestavam a intrusão das bicicletas, alguns com marcas de lutas recentes. Mais tarde o Henrique mostrou-nos orgulhoso a sua colecção de troféus ganhos nesse desporto cruel ainda comum no equador. Mais uma vez fomos tratados nas "palminhas" pela família torres.

Na manhã seguinte partimos finalmente dispostos a fazer algum ciclismo. Chuvas e fortes neblinas que se prolongavam por várias horas do dia juntam-se às dificuldades do relevo das montanhas e desníveis constantes das estradas.


Foram ainda mais 5 dias de viagem para percorrer os 160 km até Cuenca, com uma paragem em Cañar, cidade com um número invulgar de escritórios de advogados onde visitamos as ruínas Incas de Ingapirca situada 15 km a Este da cidade.


Chegamos finalmente à cidade de Santa Ana dos 4 rios de Cuenca, um dos maiores centros urbanos do sul do país e parte do património mundial da UNESCO, mesmo a tempo de assistir às celebrações do "dia de los inocentes". Desfiles de rua com muita música e cor. Uma espécie de festival híbrido entre Carnaval e o "halloween" Americano.

Cuenca apresenta um vasto mosaico humano onde se pode presenciar a alquimia da mestiçagem, e é (por boas razoes) também uma cidade turística. Alguns deles vêm e já não partem. Um reflexo dessa comunidade estrangeira residente são os muitos restaurantes de gastronomia internacional. É um bom lugar para uma pessoa se distrair das realidades do campo Equatoriano e se deixar ensopar por certos confortos ocidentais.






Alojamo-nos num bairro com alguma presença da comunidade estrangeira, onde conhece-mos alguns deles. Entre eles um ciclista coreano a pedalar há 2 anos e a metade da sua ambiciosa volta ao mundo em bicicleta. Conhecemos também o Guilermo . Um francês da Normandia a fazer trabalho voluntário em Cuenca. Uma tendência cada vez mais comum. São os viajantes que viajam menos e conhecem mais, através do voluntariado. Em vez de viajar extensamente com a mochila às costas, radicam-se num lugar e usam as suas habilidades profissionais com as comunidades locais. Férias, portanto, a trabalhar sem vencimentos. Uma das melhores formas de inter-ligação com as comunidades locais.

O Guilermo é voluntário num projecto da Ordem de Malta Francesa, que ajuda entre outras coisas, a integração de crianças especiais na plataforma da educação. Convida-me a visitar o centro onde me mostra o seu trabalho: Fazer apoios para próteses articuladas para crianças especiais. Uma prótese comprada a uma empresa estrangeira custa cerca de 2.500 dólares. O Guilermo fá-la por apenas 20 a 30 dólares, o custo do material. Apresenta-me ao Dr Francisco Ochoa, responsável pelo projecto, que me mostra as instalações do dispensário e com quem troco impressões, deixando alguma informação da APPC-Leiria.


Uma semana em Cuenca e já estava a começar a sentir comichão nos pés. Apesar de ser uma cidade interessante, tinha vontade de sentir a montada de novo. Os cartões do banco da Joana (perdidos no Quito) nunca mais chegavam (a razão da nossa prolongada estadia na cidade), então, decidimos optar pelo "plano B".

Eu seguia na minha burra até à cidade de Loja, via Mendes e Zamora, aproveitando para conhecer um pouco do oriente do país. O amazonas Equatoriano. A Joana iria ter comigo a Loja de autocarro dentro de 4 ou 5 dias. Simples. O que eu ainda não sabia é que pela frente iria ter a etapa mais difícil desde que pisei solo sul-americano. Os relatos dessa etapa seguir-se-ão em breve.

Nuno Brilhante
Em Loja, Equador.