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7.01.2007

Lago Atitlan e Antigua (Guatemala)

Dia 334
Km 18392


são Pedro è um daqueles lugares que uma pessoa visita e não apetece partir. Uma pequena aldeia de pequenas casas construídas na encosta de um monte com vista para o lago de Atitlan com os vulcões a reflectir nas suas águas cor de platina. Pescadores lançam as suas redes desde pequenas barcas, e bem alto nas encostas dos vulcões pode se observar as figuras minúsculas de agricultores a plantar milho em campos de cultivo de ângulos impossíveis.
Depois de adiar a minha partida varias vezes, ao sexto dia fiz-me de novo à estrada. Pensei que ao apanhar um barco para Santiago de Atitlan, no outro lado do lago - evitando os 18 km de estrada que circundavam o vulcão de Atitlan e que me foram desaconselhados a fazer por ser considerado uma das "zonas rojas" do mapa de segurança publica do pais - talvez conseguisse chegar a Antigua no mesmo dia, a cerca de 100 km dali. Mas não tomei em conta que estava no fundo da caldeira vulcânica que forma o lago de Atitlan, e que para sair dela teria que subir. E não era pouco. Em apenas 32 km acumulei um desnível em altitude de 1050 metros. Foi uma subida dura, mas as vistas do lago e vulcões circundantes, ofereciam-me uma desculpa para parar cada quilometro para recuperar o folgo. Tinha feio apenas 35 km quando cheguei a pequena aldeia de Godinez e começou a chover. estava exausto. Alojei-me na única hospedagem da aldeia , que por estar ainda em construção, obtive um excelente desconto para passar a noite num quarto tipo cela de cimento sem janelas, e cujo urinol era apenas um buraco no cimento à espera de uma eventual sanita, num compartimento ao fundo do corredor numa secção da casa ainda à espera de um tecto. Mas não me queixei. as fortes chuvadas não penetravam quarto adentro e a cama era confortável, alem de que a lucy,dona da hospedagem, preparou-me um delicioso e reconfortante "caldo de rez", sopa de vaca.

No dia seguinte fiz um atalho por uma estrada secundaria que ligava Godinez a Chimaltenango e à CA1 (pan-Americana na Guatemala) evitando ter que pedalar para norte (e para cima) até ao cruzamento de Los Encontros. tinha sido avisado pelos donos da "semi-hospedagem" que essa rota era um pouco perigosa pela quantidade de bandidos na região, mas o único que encontrei foi um jovem rapaz junto à estrada no mercado de Potzun , que me vendeu um sumo de laranja por 12 quetzais em vez dos habituais 5 ou 6. Ao final da tarde, depois de um "Downhill", acentuado, cheguei à cidade de Antigua Guatemala.
Procurei a praça principal, como já è habitual cada vez que chego a um novo lugar, para obter uma ideia do centro da mesma e obter alojamento central. A cidade tinha uma atmosfera um pouco diferente do que eu estava habituado nas minhas ultimas duas semanas a pedalar por território indígena nas altas montanhas do México e norte de Guatemala. As ruas estavam cheias de turistas maravilhados com o charme colonial da cidade e pareciam observar-me montado na bicicleta como se eu fizesse parte de algum mercado de artesanato ambulante. O único que não estava maravilhado era eu, que tive que pedalar por entre as pedras da calcada aos solavancos à espera do momento em que um raio da roda se partisse. Depois de vários quarteirões aos solavancos, encostei a "burra" junto ao hotel Guatemala.

Antigua situa-se no vale de Panchoy perto da base de 3 vulcões. O vulcão Agua, vulcão Fuego e vulcão Acatenango que adicionam um inquestionável charme à pitoresca cidade colonial. O centro do colonialismo espanhol durante 230 anos. Tem que ser dito que os espanhóis não foram muito afortunados com a escolha da sua capital, pois foi rara a década que a cidade não foi afectada por um tremor de terra, por uma erupção vulcânica, ou por ambos.
De certa forma Antigua è a cidade de Praga da América central. Escapou ao desenvolvimento urbano característico de outras cidades guatemaltecas e ressurgiu dos escombros de terramotos e erupções como a jóia do passado. Tal como Praga. esta cheia de turistas sentados em pátios pitorescos a saborear um capuchinho ou à procura da peca de artesanato perfeita. Alguns divagam pelas ruas de calcada romana onde parece haver a cada esquina uma igreja. Os picos dos vulcões estão sempre em vista assim como as pequenas torres cilíndricas sobre os telhados de velha telha ibérica.
Outros tiram fotos a locais ao mesmo tempo que os seus sapatos são engraxados por algum garoto indígena de 6 ou 7 anos, na praça principal da cidade. Uma bonita praça arborizada e rodeada de edifícios coloniais antigos pintados em cor pastel ou alaranjado e com um "característico" fontanário no seu centro feito com varias estátuas de mulheres nuas a apertar os seios com as mãos e a jorrar agua pelos mamilos - tento imaginar as discussões dos dirigentes camarários quando decidiram fazer tal coisa.

O parque è também um habitat para mulheres maias vestidas com coloridas vestes a vender artesanato aos turistas. Trabalham em grupos de 3 ou 4. Avistam um turista sentado num banco do jardim, dão-lhe algum tempo para relaxar , para depois o atreparem rodeando-o com T-shirts, toalhas de mesa, esculturas de madeira, bordados etc. Os garotos engraxadores de sapatos, sabendo que a sua vitima esta atrepada num monte de "recuerdos", aproveitam a oportunidade para demonstrar as suas habilidades polidoras. Eventualmente o turista abandona a praça de sapato engraxado e com uma camisa Maia que jamais irá vestir, e o garoto polidor de sapatos contente por ter ganho com um único turista o equivalente a engraxar 20 pares de sapatos guatemaltecos.
Apesar do ambiente demasiado turístico a cidade ao deixa de ter o seu charme e fiquei vários dias a relaxar. Tinha combinado com o Jeff que esperava por ele ali, para depois seguir-mos juntos para El Salvador. O Jeff è do Canada e outro ciclista nómada a divagar pelas estradas do continente americano. Curiosamente o Jeff saiu de Inuvik no árctico canadense - o local de partida desta minha aventura - 2 dias depois de mim. Durante vários meses pedalamos por itinerários diferentes. As casualidades do destino juntaram as nossas rotas 5 meses depois na baía de las Angeles, norte do México, por altura do ano novo. Desde então que mantivemos contacto.

6 meses, 8000 km e 3 países depois do nosso breve encontro em Baja Califórnia, os nossos destinos voltaram a encontrar-se na Guatemala. Mas por maior coincidência que pareça, viajar por tempo indeterminado fora dos habituais pacotes turísticos de 2 semanas este tipo de situações não sao incumuns. Recordo-me por exemplo, entre outras situações nesta viagem, do Iarum e do david, dois Israelitas que conheci na Playa del carmen no México e voltei encontrar nas ruas de Trinidad em cuba tempos depois. Divagamos todos de sitio em sitio em busca do mesmo...

Celebramos o reencontro com uma garrafa de "Venado especial", aguardente de cana de açúcar, e com uma longa conversa onde exausta-mos as nossas historias de ciclo- deambulação pelas estradas do continente, sentados no terraço da pousada El Pasaje. Dias depois fizemos-se à estrada rumo a El Salvador.
Depois de muitas semanas solitárias era bom estar a pedalar de novo em companhia. 3 dias depois estávamos às portas do sétimo pais desta aventura pela estrada pan- americana: El Salvador.


Nuno Brilhante Pedrosa
Em Santa Ana, El Salvador.

PS Podem acompanhar quase diariamente as minhas pedaladas durante as próximas semanas através do web site do jeff

6.17.2007

San Juan Chamula (Mexico e Guatemala)

Dia 312
Km 18042


Desde os tempos pré-hispânicos que os Chamulas são conhecidos como um povo de carácter corajoso e lutador. Descendentes dos Maias Tzotzil tentaram ao longo dos anos resistir a envagelização da cruz dos missionários espanhóis tentando manter os seus costumes pré-hispânicos. O resultado foi uma eventual fusão das duas religiões com praticas religiosas únicas, cujo centro religioso è San Juan Chamula. Uma aldeia a cerca de 15 km a norte de San Cristobal de las Casas, nas montanhas do estado de Chiapas. Na pequena igreja de San Juan Baptista caiada de branco com um colorido arco e portal em pinho maciço, junto à praça principal da aldeia, não è efectuada uma missa desde que os últimos missionários espanhóis abandonaram a igreja no SEC XVIII. Desde então que a igreja è governada por ´curanderos`.

Centenas de velas acesas no chão, nuvens de incenso, devotos fieis com as cabeças reclinadas para o chão coberto de uma carpete de caruma verde e fresca de pinheiros, curandeiros cantam rezas tradicionais Maias, enquanto que santos cristãos emblemados com vestes sagradas e encasulados em compartimentos de vidro, observam imóveis toda esta poderosa atmosfera religiosa. São João Baptista è reverado acima de Jesus Cristo e a sua efige têm um lugar de destaque acima de todos os outros santos sobre o altar. Devotos fieis colocam oferendas juntos aos santos, frutas, comida ou até cigarros e coca-cola, enquanto que curandeiros purificam as suas almas com ovos e ossos de animais. A ocasional galinha pode ser sacrificada em situações mais especiais. Uma versão mais "moderna" do antigo costume Maia de sacrifícios Humanos. "Café com leite" foi a simples descrição de um local quando o questionei acerca destas praticas religiosas únicas. A fusão de dois ingredientes deliciosos que resultou na criação de um sabor novo e único. De facto, nos dias seguintes, ao viajar pelas montanhas da Guatemala iria descobrir que essas praticas religiosas não eram únicas a San Juan Chamula. Em pequenas aldeias Maias nas terras altas guatemaltecas "café com leite" também è ingerido em versões ligeiramente diferentes.

A "vingança de Montezuma" obrigou-me a descansar por uns dias em San Cristobal de las Casas. Montezuma era um Deus Asteca, e a sua "vingança" è uma expressão usada para descrever aquele desarranjo intestinal desgastante que ataca mais tarde ou mais cedo quase todos os visitantes por estas bandas: diarreia!!!

Ao sexto dia já recomposto parti de novo rumo ao sul. Dois dias de viagem com uma descida acentuada em altitude - consequência de uma falha na cadeia de montanhas da sierra madre sur, cujo downhill pareceu terminar apenas com uma travagem para as formalidades da alfândega - e estava de novo em território guatemalteco.
De La Mesilla a Quetzaltenango são uns ineterruptos 80Km numa suave subida a 3% 4%. A estrada acompanha o rio San Juan, no fundo de um estreito vale com verdes e altas montanhas de ambos os lados.


Junto à estrada, mulheres Maias Mam e kìchè tomam conta de rebanhos de ovelhas ao mesmo tempo que fabricavam artesanalmente coloridas chamaras de la.. È nesta zona de altas e férteis montanhas que vive a maioria da população guatemalteca, grande parte dela indígena Maia. As temperaturas amenas e vistas lindíssimas proporcionavam um excelente dia de ciclismo. O pavimento era relativamente novo mas o trafico acentuado e caótico. Autocarros param bruscamente - ao levantar de um braço - em lugares inesperáveis, camiões ultrapassam em curvas fechadas e motociclistas metem-se por onde houver espaço.Uma das diferenças de maior relevo ao atravessar a fronteira, são os hábitos de condução que parecem decrescer em proporção ao tamanho das viaturas.
Na Europa, afrouxar ou mesmo parar por detrás de um ciclista- caso venha um automóvel de frente- è uma cortesia relativamente comum. Caso o ciclista encoste à berma, seria parte dessa cortesia, levantar o braço assinalando alguma forma de respeito pelo ciclista. Na Guatemala se não encostares à berma és muito provavelmente atropelado. E mesmo que saias do caminho levas nos ouvidos com varias buzinadelas do condutor, como que a dizer que encostaste à berma porque è esse o teu lugar no universo como ciclista. Isto è particularmente verdade com os condutores de autocarros.
A frota de autocarros guatemaltecos - conhecidos pelos turistas como "chicken-buses", ou autocarros de galinhas, pelas espécies avésticas que por vezes são transportadas ao lado de passageiros, no tejadilho, junto à caixa de mudanças, ou em qualquer lugar onde houver espaço- são quase todos clássicos e antigos autocarros escolares americanos pintados de forma colorida, com vários santos "protectores" pendurados em redor do condutor e baptizados com nomes sugestivos tipo: "El volador", " El rapido", "Guianos señor", ou "aguila de la calle".

Musica latina a bom som e 4 ou 5 pessoas sentadas num banco de 2, só ajudam ao ambiente festivo. Toda a experiência desta atmosfera de uma viagem num "autocarro de galinhas" è semelhante a um bom evento social Guatemalteco.
Aos olhos de um ciclista - que por estas bandas, ter um bom espelho retrovisor è tão importante como ter travões- esses kamikazes das estradas guatemaltecas parecem conduzem sobre o efeito de anfetaminas e sofrer do síndroma AEAE: ao som da minha buzina fujam!, pois eu Atropelo Embato Atravesso e Esmago com o meu autocarro.
Regra numero um; fugir não só do caminho mas também do raio de visão do condutor.Qualquer outra regra è puro suicídio.

Passei a noite na caótica cidade de Huehuetenango e no dia seguinte continuei a minha ciclo-deambulacao pela estrada Pan Americana. A CA-1, como è conhecida na Guatemala, sobe aos 2700 metros de altitude para depois iniciar a sua descida para um enorme vale protegido a sudoeste pelo vulcão Santa Maria e a nordeste pelo sumptuoso vulcão Tajumulco, cujo topo eu iria subir dias mais tarde.

Por todo o lado avistavam-se inúmeras plantações de milho, o vegetal com mais importância na agricultura e cultura guatemalteca, considerado como o elo de ligação entre as forcas cósmicas os Deuses e o Homem.
A subida ao ponto mais alto de toda a América central foi bastante dura até para as minhas pernas habituadas a longas horas de exercício. Deixei a Burra no quarto que aluguei numa pousada em Quetzaltenango e embarquei em varias viagens em "autocarros-Galinha" até ao local de inicio de caminhada a 3000 metros de altitude. Num longo dia de caminhada ascendemos aos 4000 metros onde montamos acampamento no final da linha da vegetação e inicio do cone pedregoso e quase perfeito do vulcão inactivo de Tajumulco.

No dia seguinte, às 3.30 da madrugada iniciamos o ataque final até ao cume do vulcão a 4220 metros. A sensação de naquele momento ser-mos as pessoas mais altas de toda a América central, de sermos os primeiros a receber os primeiros raios de sol de um novo dia, juntamente com as deslumbrantes paisagens que se avistavam, foi fascinante. As vistas eram simplesmente incríveis, com um vulcão para o lado norte no lado mexicano, a oeste o vulcão Santa Maria e para sul avistavam-se os picos de vários vulcões que terminavam com o vulcão D`Água a mais de 100 km de distancia.

A descida foi mais suave nos pulmões, mas mais dura nas pernas. Mas o esforço físico era recompensado pelas lindíssimas vistas e também pelo facto de saber que os 40 dólares que paguei à quetzaltrekkers pela organização da caminhada iam todos para a "escuela de la calle", uma organização sem fins lucrativos que dá educação e refugio a crianças sem tecto.

As crianças na Guatemala têm uma existência bem diferente das crianças no mundo ocidental. Desde bem pequenas que são introduzidas ao mundo laboral e não è incomum ver um garoto com 7 ou 8 anos a carregar às costas um molho de lenha com o volume de metade do seu tamanho ou uma garota de 6 ou 7 anos a lavar roupa num riacho junto à estrada ou uma jovem de 10 anos a assomar controle de uma loja de mercearias enquanto carrega o seu irmão mais novo às costas suspenso por um pano que mantém o jovem confortavelmente "preso" às costas da irmã.

Uma forma tradicional dos indígenas da região de transportarem os seus filhos e poderem trabalhar ao mesmo tempo.
A Yolanda, uma indígena Kìchè, empregada da simples hospedagem onde me alojei em quetzaltenango- a segunda maior cidade guatemalteca e relativamente moderna- è mãe de 3 filhos e gravida de um quarto aos 26 anos.Considera-se uma indígena moderna. Vem de uma família de uma aldeia perdida nos montes circundantes, e è a mais jovem e única mulher de uma família de 13. Contou-me, como os pais à noite junto à lareira destinavam a cada um dos 13 filhos as tarefas a cumprir no dia seguinte. Contracepção não era aceite pelos homens e estudar - pelo menos para as raparigas - era simplesmente impensável. Foi com a cumplicidade da sua mãe que aprendeu, secretamente, a ler e a escrever numa escola que ficava a uma hora de caminhada para cada lado da simples casa de chão em terra batida onde viveu.
No outro lado do oceano um grupo de gravatas Gucci sentadas em poltronas de uma sala aclimatizada discutem as violações dos direitos humanos na Guatemala. Trabalho infantil è sempre um dos tópicos principais.

Estava na altura de partir de novo. Fiz-me à estrada.
Um "túmulo", nome dado a - por vezes enormes - lombas de cimento colocadas na estrada para controle de velocidade- obrigou-me a travar. Junto a ele num lugar obviamente estratégico, uma jovem rapariga de 8 anos vendia fruta, manga e ananás cortado e enfiado um sacos de plástico.Era o seu negocio. 5 Quetzais por saco(0.50 Euros). Comprei dois e segui viagem.
Dias depois estava a chegar ao lindíssimo lago de Atitlan, promovido, justificavelmente, pelo departamento de turismo guatemalteco como "o lago mais bonito do mundo". Pode não ser o mais bonito do mundo, mas è concerteza doo mais bonitos que os meus olhos alguma vez viram. Os 8 km de ¨downhill`de Sololà a Panajachel são simplesmente lindos. A estrada desce até às margens do lago, uma gigantesca caldeira vulcânica que colapsou milhões de anos atrás, rodeada de montanhas por todos os lados e com 3 "novos" vulcões inactivos na sua margem a oeste. Varias aldeias - todas com nomes de santos, excepto Panajachel - situam-se nas suas encostas, algumas delas apenas acessíveis de barco.

Encontro-me numa delas, San Pedro, na encosta do vulcão com o mesmo nome, e de momento mais uma vez a debater-me em relação ao rumo a tomar. a Próxima fronteira fica apenas a 3/4 dias de pedalada. Honduras ou El Salvador?
O Jeff, um ciclista que conheci meses atrás no deserto da Baja California, vem a caminho das terras altas da Guatemala, talvez deva esperar por eles para decidir nas próximas pedaladas a dar...

Nuno Brilhante Pedrosa
Em San Pedro Atitlan, Guatemala.

5.30.2007

O regresso à Pan-Americana (Guatemala & Mexico)

Dia 304
Km 17521


A passagem da fronteira entre Belize e a Guatemala foi rápida e eficiente. Encostei a bicicleta ao edifício da alfandega e passei o passaporte pela abertura do gradeamento da janela.Segundos depois uma mão devolveu-me o passaporte carimbado.
-Boa viagem, disse alguém. Já que as fronteiras tem que existir que fossem todas como esta. Não houve revisões de malas ou perguntas desnecessárias do tipo para onde vais, que sítios vais visitar ou formulários a preencher.
Os primeiros 25 km de estrada não estão alcatroados. Segundo um local, o governo guatemalteco insiste em não alcatroar a estrada ate á fronteira, como forma de retaliação com o pais vizinho. A Guatemala disputa território Belizenho como seu, e vá-se lá saber porque, o único pais da comunidade internacional que suporta a sua reclamação é Israel.

Passei a primeira noite na aldeia de El Remate, onde aluguei uma cabana sem porta ou janelas por 35 Quetzales (3 Euros), perto das ruínas Maias de Tikal. Uma das cidades Maias mais impressionantes, Tikal foi construído há cerca de 2000 anos atrás. Em parte, é a sua localização escondida no meio da selva tropical e densa, que torna uma visita ás ruínas algo de memorável. Tucanos e papagaios sobrevoam o canapé da selva, macacos saltam de rama em rama, os passeios pela densa selva são preenchidos com sons estranhos. Raios de luz rasgam o canapé iluminando a floresta e enormes pirâmides elevam-se aos céus rompendo pela vegetação. Provavelmente os primeiros aranha-céus do continente, perpetuam a historia de uma civilização que desapareceu misteriosamente.

No dia seguinte contornei a costa norte do lago Petén Itzá até á cidade de Flores. Estava na altura de abrir os mapas, estudar-los e tomar decisões. Por onde iria atacar as montanhas? Ou seguia para sudoeste via Coban e Quetzaltenango, ou para noroeste via Palenque e San Cristobal de las casas no lado Mexicano. Ir pelo México implicava dar uma volta muito maior, mas permitia-me visitar o enigmático estado de Chiapas com as suas fascinantes ruínas Maias e povos indígenas. Além de que poderia regressar ao local onde apanhei o autocarro para Cancun há mais de 3 meses atrás, dando assim continuação a esta aventura 100% em BTT.

Quatro dias depois estava de novo na estrada com direcção á fronteira mexicana. A fronteira de La Tecnica/Corozal, encontrasse numa área desolada e remota do noroeste da Guatemala. Levou-me 3 dias a percorrer os cerca de 190km de Flores á fronteira, por uma estrada que alternava entre saibro e calhau rolado. Vários locais alertaram-me para o facto de que assaltos na estrada, por vezes á mão armada, eram comuns em especial ao entardecer nas proximidades da fronteira, e aconselharam-me a não acampar sozinho junto á mesma. Eu já tinha ouvido falar dessas historias antes, que apesar de verdadeiras eram por vezes exageradas Mas como precaução essa noite pedi a uma família para acampar no seu jardim, na aldeia de Vista Hermosa a 30 km da fronteira.
Á noite cozinhei com uma audiência de certa de 10 garotos fascinados com cada movimento do estrangeiro. Eram todos irmãos e primos. Com o crescimento da família, iam-se construindo mais barracos pegados uns aos outros. Uma teia de pequenas divisões em madeira onde viviam varias geracoes de uma só família. No final do noite, 4 deles não arredaram pé.
-Boa noite, disse eu pela quarta vez, aste mañana!
Entrei na tenda,mas eles permaneceram sentados no chão em frente dela, a observar através da rede mosquiteiro, cada um dos meus movimentos enquanto eu me despia e me preparava para dormir. Pareciam tão excitados que não queriam perder um segundo do "filme". Afinal de contas não era todos os dias que lhes caia um "gringo" no quintal.

O posto fronteiriço ficava á entrada da aldeia de Bethal, no meio da savana, do nada. Dai, ainda eram mais 12 km ate á verdadeira fronteira. A estrada de calhau rolado, apesar de plana, levou-me 2 horas a fazer. Uma pequena travessia de barco e estava do lado mexicano.
Passam pouco estrangeiros por esta fronteira.
O oficial da alfandega estava meio dormitado a ver televisão. Não tenho formulários, disse. Tens que carimbar o passaporte em Palenque.
-Em Palenque? Mas isso para mim são 2 dias de viagem, respondi.
-Não te preocupes, respondeu.
Segui viagem .Estava de volta ao alcatrão!
Pedalava pela "carretera fronteriza", uma estrada que contornava grande parte da fronteira entre estado de Chiapas e a Guatemala. Há varias décadas atrás, isto era uma zona de selva primaria, mas nos últimos anos tem sofrido forte Desflorestação pelos novos colonos ali deslocados pelo governo mexicano numa tentativa de fortalecer a zona fronteiriça (á custas da natureza!).
Atravessei varias zonas de selva destruída e queimada para dar lugar a novas zonas de pastagens com tamanhos completamente desproporcionais ao numero de vacas que as usavam. Aqui e ali, pintadas na paisagem, via-se a ocasional Ceiba ou outra árvore de grande porte, testemunhos solitários da outrora natureza pura.

Maio é o mês das queimas e o fumo não só aumentava as já elevadas temperaturas como desfocava a paisagem. O sol a partir das 5 da tarde, transformava-se numa esfera vermelha de um redondo perfeito. A minha agua estava tão quente que até pensei que dava para fazer chá.
Já há varias semanas que o meu consumo de agua era algo de exagerado. 2 galões por dia. Comprava ao galão porque era a medida exacta das minhas três garrafas e ficava mais barato, mas com o calor apenas as primeiras goladas de agua eram frescas. Parei num tasco para beber algo frio. Deixei a Burra ao sol. Quando voltei, o termómetro marcava 52 graus!

Esta porra tem que estar avariada, pensei. Avariada ou não, estava farto de calor. Há que começar a subir as montanhas em busca de ar mais fresco e puro..

Cheguei a Palenque no dia seguinte ao entardecer. Procurei um local para acampar num dos muitos parques de campismo que existem na quase legendária zona do "el Pachen". O epicentro da cena alternativa de Palenque no meio da selva densa e perto das ruínas Maias. Um "habitat" para macacos, tucanos, papagaios, "hippies" "trippies", divagadores e turistas.
Na estrada que vai para as ruínas fui abordado por um senhor a vender cogumelos.
-Chanpiñones, Mushrooms!, gritou em tono suspeito e abafado.
-Hey amigo, chanpiñones mágicos, buenos e baratos. Visitas as ruínas e tudo tem vida. Vês os deuses Maias. São mágicos, continuava.
Já tinha ouvido falar deles. Ao longo dos tempos tem atraído pessoas de todo o lado, ate escritores que buscam nas suas experiências alucinogenicas inspiração para escrever os seus livros. Entre outros Carlos Castenadas e Aldous Huxley que escreveram, respectivamente "os ensinamentos de don juan" e "admirável mundo novo", influenciados pelos poderes "mágicos" desses e outros alucinogenicos.
-Ouve lá, eu vou subir as montanhas de bicicleta, também ajuda?, perguntei ironicamente.
-Si si amigo, claro que si.
-E como sei que não me esta a vender erva daninha, perguntei, apontando para o saco cheio do que mais pareciam ervas ressequidas.
- pruebalos, disse, tirando um punhado do saco. Eu ando sempre por aqui...
-Hum...no gracias.
Tinha sido um dia duro e estava com fome, mas de algo que me alimentasse o corpo, não o espírito.

No dia seguinte visitei as ruínas de Palenque, mais umas ruínas Maias situadas na floresta tropical de Chiapas, um enorme complexo de ruínas, templos e pirâmides que imortalizaram a cultura Maia. Passei pela emigração (3 dias depois) para carimbar o passaporte e parti finalmente rumo às montanhas.
Reparti a Ascenção entre Palenque (80m) e San Cristobal de las casas (2165m) em 4 curtos mas duros dias. Nos cerca de 200 km que separam as duas cidades acumulei 5382 metros de desnível.
No primeiro dia de subida, depois de um sobe e desce constante onde eu parecia notar apenas os "sobe" acampei no fundo de um vale quase a mesma altitude do dia anterior, junto ao rio Shumulhá . Um lugar perfeito para acampar. O rio descia das montanhas para abrir o seu caudal de uns tons de cor incríveis, formando uma pequena lagoa rodeada de vegetação verde, para depois continuar o seu percurso.

Toda a floresta desde as ramas das árvores e as suas folhas até ao mais pequeno dos insectos, estavam reproduzidos nestas águas tipo espelho. As imagens permaneciam perfeitamente estagnadas enquanto que as águas do rio moviam-se através delas como se do tempo se trata-se. Tinha descido o vale e estava mais uma noite de calor. O ar quente e pesado da noite obrigava-me a respirar o meu próprio hálito. A noite era escura e o céu parecia ter ancoras.
O segundo dia foi mais duro com 1944 metros de desnível acumulado. Com a passagem de cada montanha os vales iam subindo em altitude e as temperaturas baixando. Um cartaz junto à estrada lembrava-me de que estava em território Zapatista.

Emiliano Zapata, um revolucionário dos tempos do Pancho Villa disse uma vez: " Nos lutamos pela terra e não por ilusões que não nos dão nada de comer. Com ou sem eleição, o povo continua a mastigar a amargura da vida".
Muitos anos depois um carismático professor universitário chamado Rafael Guillen (que viria a ser conhecido por apenas subcomandante Marcos) deu jus as suas palavras e formou a EZLN (exercito Zapatista de libertação nacional).
Melhorar a qualidade de vida da empobrecida população indígena e ver-se livre de um punhado de feudalistas que controlavam a maioria das terras, misturados com alguma retórica de anti-globalização,era o seu lema e em 1994 ocuparam varias cidades do estado de Chiapas e o mundo inteiro pela primeira vez ouviu os seus gritos de descontentamento.


Depois da intervenção militar que deixou centenas de mortos, o governo criou zonas autónomas, mas até hoje está ainda por passar legislação que solidifique os direitos dos indígenas. Apesar de já não recorrerem às armas as relacoes entre EZLN e o governo central mexicano ainda se mantêm tensas.

Estar nas montanhas e respirar o ar puro das montanhas revigorou-me a alma e deu-e energia ao corpo e as inclinacoes de 6% a 8% pareciam-me fáceis. A burra parecia estar contente também, afinal de contas este era o seu tipo de terreno preferido. No terceiro dia o céu escureceu e as nuvens descarregaram as suas iras na terra seca e ansiosa de agua.
À noite, hospedado na simples casa de hospedes na aldeia indígena de Oxchuc, ouvia a chuva a bater sem tréguas nas placas de fibro-cimento do telhado. Quando conseguiu penetrar através delas, a agua caia em jorros dentro do quarto e voltava a desaparecer por entre as tábuas do chão.
Tinha começado finalmente a época das chuvas torrenciais. A partir d`hoje, muitos serão os dias em que a chuva acompanhara as minhas pedaladas. Para mim era um alivio ao calor abrasador das ultimas semanas.

Ao quarto dia cheguei a San Cristobal de las Casas. Uma lindíssima cidade de montanha na encosta de um vale a 2165 metros de altitude.
É um prazer estar aqui, respirar o ar puro e fresco das montanhas, visitar os mercados e aldeias indígenas e a absorver esta atmosfera única e relaxante.
Estou de novo na Pan-Americana (em Chiapas é a EN190), e custa a crer que há 3 meses atrás estava apenas a poucas dezenas de quilómetros para norte na cidade de Tuxtla Gutièrres.
Depois de 3980 km de desvio da pan-americana pelo Yucatan, Cuba e Belize, avancei apenas 60 km para sul!! É-me agora óbvio que não chegarei á patagónia no final do ano. Pascoa de 2008 será uma data mais provável....

Nuno Brilhante Pedrosa
Em San Cristobal de las Casas, México