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9.23.2007

A travessia para a Colômbia parte II (Panama)

Dia 4
Ilha de Carti para ilha de Playon chico.
A bordo do barco Purtugandi


Hoje foi um dia de viagem na horizontal. Mar calmo, dia cheio de sol e eu deitado na plataforma superior deste barco mercantil Kuna, com uma vista de 360 graus do mar azul turquesa das caraíbas. Passamos por dezenas de pequenas ilhas, muitas delas desertas, com areia branca e fina e alguns coqueiros. Verdadeiras ilhas de fantasia. Outras em contraste, super povoadas, cobertas com casebres de bambu.

O barco foi parando ao longo do dia para descarregar mercadoria, arroz, cerveja, farinha, redes, produtos enlatados, gasolina, tudo o que os habitantes das ilhas possam comprar, até o ocasional frigorífico ou televisor. O Purtugandi é literalmente um armazém flutuante. Compra por catálogo no mar. Digo isso porque grande parte das mercadorias são encomendadas previamente aos capitães dos muitos barcos que frequentam as 37 ilhas habitadas do arquipélago de San Blas. Os produtos são comprados na "zona libre" de Colon, livres de impostos e na sua maioria produtos baratos chineses e americanos.

Nalgumas ilhas mais pobres onde não há electricidade ou água potável e cujo único edifício que não é feito de bambu é a escola construída pelo governo central, a chegada do Purtugandi é um entretenimento assistido por muitos. Mulheres e jovens e crianças aglomeram-se em redor do cais à espera das mercadorias, os homens estão quase todos no mar à pesca nos seus cayocos (canoas feitas de um único tronco de árvore).
As mulheres Kuna parecem tomar conta dos negócios da ilha, verificam a mercadoria, transportam-na às costas, trocam facturas, pagam e fazem novas encomendas. Os jovens carregam o mais pesado, bidons de gasolina ou sacos de farinha.
Cada paragem pode levar algo entre 10 minutos a várias horas.

O barco atracou ao final da tarde em Playon Chico, uma outra ilha cerca da costa e ligada ao continente por uma ponte pedestre. Em terra firme encontrava-se a escola, uma igreja mórmon e a pista de aterragem. Voos diários ligam a cidade de Panamá com Playon Chico e algumas outras ilhas habitadas do arquipélago. Essencialmente para comprar lagostas e mariscos,e para transporte de passageiros, Kunas que decidiram viver no mundo latino e turistas que se alojam em resorts de "luxo" ("luxo" entenda-se como rústico, pois não há resorts tipo Cancun por estas bandas) em ilhas desabitadas.
Saio do barco para dar um passeio e conheço uns jovens Kuna com quem iria passar o resto da noite. Levaram-me a conhecer a ilha e falaram-me com entusiasmo acerca da cultura Kuna. Os Kuna são um povo orgulhoso e tenás. É o grupo indígena mais bem organizado no Panamá e o único (dizem os meus amigos) com representante legislativo. Governam a comarca de Kuna Yala com pouca interferência do governo central.

A maioria dos Kuna vive numa das 37 ilhas habitadas das 365 ilhas que existem ao longo da costa da comarca, entre Provenir e a fronteira da Colômbia.
A falta de estradas sempre os manteve mais isolados que outros grupos indígenas, e o barco é o meio de transporte usado entre as 49 comunidades que existem nas ilhas e ao longo da costa.
Cada comunidade tem um líder (cacique) que elegem como representante para o governo central, e que tem poder de decisão (por vezes arbitrário) na suas comunidades. Como me contou um dos jovens que foi multado em 5 balboas pelo Cacique por ter sido apanhado na cama com uma jovem de outra comunidade.
A noite prolongou-se terminando na casa de um deles. Um casebre em bambu onde algumas mulheres bordavam Molas (panos bordados que fazem parte do traje das mulheres Kuna)à luz de candeeiro a petróleo.






Dia 5
Playon Chico para Ilha "paraíso" (?)
A bordo do Purtugandi


Partimos lá pelas 8 horas para mais uma sessão de deambulação pelos paraísos perdidos das ilhas de San B las. Com cada ilha que visitava parecia mais fascinado com este povo. Um mundo à parte na América Central.
Hoje troquei de barco.
O barco Kuna onde seguia ia parar por 2 dias em Istupo.
Aqui nesta ilha que ainda não sei o nome, está atracado um outro barco que segue para puerto Obaldia amanhã, junto à fronteira com a Colômbia. Chegarão lá daqui a 2 ou 3 dias. Ainda não sabem. Os capitães dos barcos estavam de acordo, era melhor para mim. Pego na burra e nas malas todas e mudo de barco. O meu novo barco tem uma atmosfera muito diferente. Os tripulantes são todos de raça negra e mestiça, vindos de Colon, e andam nestas bandas no negócio do coco. Compram aos indígenas e vendem aos colombianos. A atmosfera do novo barco é menos simpática mas é compensada pela ilha onde passamos a noite. Um pequeno paraíso.






dia 6
Da ilha "paraíso" para ilha Ballena
A bordo do barco Colon


Amanheço na minha rede montada no porão. O barulho do motor a começar a trabalhar despertou-me. Ainda o sol não tinha nascido sobre a linha infinita do horizonte quando o barco deixou o cais e desliza nas águas escuras e calmas da baía.
Este pessoal era madrugador. Ia ser mais um longo dia de viagem no mar, mais longo do que eu jamais imaginara.
Este novo barco- ao contrário do Purtugandi - fazia poucas paragens. Navegava por entre ilhas, algumas delas autênticos postais paradisíacos, um monte de areia fina a brotar das águas azul turquesa, com alguns coqueiros plantados. Algumas delas eram usadas pelos narcotraficantes e contrabandistas colombianos, como eu iria presenciar bem de perto mais tarde.
Um dos artigos no estatuto autónomo da comarca de Kuna Yala, proíbe a marinha do Panamá e a DEA (drugs enforcement agency) Americana de patrulhar as suas águas, tornando a comarca numa espécie de "free zone" para contrabando. Existem portos policiais mas eles pouco fazem para controlar o contrabando.

A meio da manhã o barco ancorou ao largo da ilha de Ballena ( assim chamada pela sua forma que se parece com uma baleia), pois o cais era pouco profundo para atracar. Uma traineira colombiana encosta ao barco e inicia-se o longo e árduo trabalho de traslado de carga: cocos!
35.000 cocos foram passados e contados um por um do convés de um barco para o outro. Um processo supervisionado por ambos os capitães com um pedaço de cartão e caneta na mão, e que levou todo o dia, até ao entardecer.
Os cocos eram vendidos aos colombianos por 11 cêntimos de dólar. Os indígenas que subiam aos coqueiros recebiam ainda menos por unidade. Cocos de melhor qualidade do que na Colômbia (por terem a parte branca interior mais espessa), eram levados para esse país para fazer os mais diversos produtos.
Um trabalho árduo e pouco lucrativo que, segundo os marinheiros, estava em decadência. Os índios Kuna ja não querem cultivar as terras. Preferem dedicar-se à lucrativa pesca da lagosta ou ao narcotráfico.






Durante o dia iam entrando e saindo de ambas embarcacoes, diversas pessoas que chegavam em cayocos ou em pequenos barcos a motor. Um deles que se dizia "capitão" (e que eu supos ser da traineira colombiana) disse que ia para a Colômbia e que me levava por 50 dólares. Perguntei-lhe para onde, mas deu-me uma resposta vaga. Perto de Cartagena, disse. Se assim fosse ia poupar vários dias de viagem. E apesar de achar cara a viagem, iria ser mais barata do que se fosse via Puerto Obaldia.
Passo a bicicleta e malas para a traineira e pago ao capitão do Colon 5 dólares pelas 24 horas que passei a bordo.

Ao entardecer a traineira colombiana atracou no cais da ilha para passar a noite. Alguém me ofereceu jantar ( durante as viagens anteriores as refeicoes também estavam incluídas, normalmente peixe apanhado no dia com arroz). No cais estavam também outras pequenas embarcações e lanchas - quase todas de contrabando - e havia bastante agitação. Um marinheiro indica-me para colocar a burra e as malas no cais que o barco para a Colômbia ia partir.
Já não percebia nada! Então não ia partir amanhã? E não era na traineira cheia de cocos?!
Pouco depois apareceu o meu "capitão" a bordo de uma lancha com pouco mais de 2 metros de largura e cerca de 15 ou 20 de comprido, com 2 poderosos motores e carregada - nunca cheguei a saber de quê.
-"Passa as tuas coisas, entra. Vamos partir", disse.
Partir para a Colômbia durante a noite nesta coisa? Por mar alto?
Estava petrificado.
-" Sim, vamos. Para a Colômbia. Queres vir ou não?" perguntou em voz agitada como se de repente estivesse cheio de pressa. Não sabia o que fazer. Tinha que tomar uma decisão, e já! Olho para as outras pessoas que estavam a assistir à cena toda em busca de uma resposta. Um olhar afirmativo, alguma indicação de que estava a tomar a decisão certa. Mas nada, alguns riam-se, outros olhavam com ar apático e indiferente.
-"Tu queres vir para a Colômbia, certo? Vamos! I nsistia o capitão.
Ele tinha razão. Eu queria ir para a Colômbia e não podia perder uma semana em barcos que paravam em todas as ilhas ao longo do caminho. Tinha que estar em Cartagena no dia 24 e já me restavam poucos dias.
-Vamos! disse.
Coloquei a burra sobre a carga já coberta com um oleado e as minhas malas consegui de alguma forma colocá-las na parte da frente por debaixo do oleado. Deixamos o cais e o barco desapareceu na escuridão da noite.

Tinha acabado de entrar num barco de contrabando colombiano a caminho de lugar incerto e iria entrar ilegalmente no pa ís.
As 11 horas que se seguiram foram uma viagem alucinante que jamais irei esquecer.

Segue-se nos próximos dias o relato da terceira e última parte da travessia.

Nuno Brilhante
em Maria la Baja, Colômbia

9.20.2007

A travessia para a Colômbia. Parte I (Panamá)

Dia 1
Panamá City para Chepo, 68 km.

Apesar de ter deixado os alforjes feitos e postos na burra, pronto para partir, não consegui deixar a cidade antes das 10.30 da manha. Acordei com o nascer do sol, mas as indecisões mantinham-me colado à cama.
Ontem à noite, no bar do Hotel Ideal, e em jeito de despedida, bebi umas Balboas a mais na companhia do Lard, Ronald e do Bart. 3 ciclistas holandeses que tinha conhecido na estrada dias antes de chegar à capital. No bar estavam também um grupo de pescadores de atum portugueses. Estavam sempre ali. Há vários dias, à espera de embarcar. Havia também um indiano homem de negócios, um americano negro que passava o tempo a falar sozinho, meio louco, dizia que o governo Americano lhe tinha colocado um chip no corpo e que o perseguiam, e é claro as empregadas do bar, a Zoraida e a Mónica.
Já os conhecia a todos. Nos 5 dias que passei na cidade nos preparativos para a travessia, o bar do hotel Ideal, junto à piscina ( de água verde estagnada e cheia de peixes), era o ponto de encontro depois de qualquer actividade do dia. Era como se buscasse na companhia dos meus novos amigos, respostas às minhas duvidas e incertezas.
- Então Nuno, quando é que vais para a selva?, perguntavam-me os portugueses cada vez que me viam.
- Amanhã, respondia.
No dia seguinte as mesmas perguntas com as mesmas respostas.

Ia-me "enchendo" de confiança com o equipamento que ia comprando aos poucos. Era como se estivesse a preparar-me pela primeira vez para uma viagem de bicicleta.
Comprei mapas cartográficos da região do Darien, no instituto geográfico nacional, que apesar de serem dos melhores mapas disponíveis no país, não mostravam caminhos ou trilhos pala al ém de Yaviza - mas eles existem! Comprei também uma bússola, "zip ties" e fita "duk tape" (o melhor kit de reparação dos ciclistas!), cerca 20 metros de corda, e outras coisas que me pareciam necessárias. Afiei a minha catana ferrugenta que encontrei numa praia deserta semanas atrás, e comprei - pela primeira vez nas minhas viagens - comprimidos para a malária, uma vez que o Darien é das zonas mais infectadas de toda a América central.
Os Holandeses, que terminavam ali as suas 6 semanas de cicloturismo, ofereceram-me refeições em pacote que diziam "adventure food". Trouxeram-nas da Holanda e não as usaram, pareciam suficientes para uma semana. Tinha tudo. Tudo menos a decisão. Valia a pena o risco de tal travessia?

Esta manhã decidi seguir em frente ao mesmo ritmo que sempre pedalei nesta viagem, um dia de cada vez. Apesar de não o querer admitir, ja tinha decidido. Estava a atraiçoar os meus pró prios planos e sentia-me um cobarde. Um Judas em duas rodas.



Deixo a zona do "casco viejo" onde estava alojado e sigo pela marginal entrando na parte "americana" da cidade. Uma zona de arranha céus (a maioria de bancos internacionais, locais de lavagem de dinheiro, com pouca ou nenhuma interferência pela parte do governo do Panamá), centros comerciais, lojas de roupa de luxo, restaurantes japoneses e italianos, etc. Uma clonagem quase perfeita de uma cidade típica americana sem faltar a Mac Donalds e Burguer King.
Resultado de muitas décadas de "presença" americana durante o período que foram "donos" do canal do Panamá.

Sigo com direcção ao aeroporto internacional e pouco depois estou de novo na Pan-Americana, que segue para oriente no seu percurso final até Yaviza. O final das estradas na parte norte do continente americano. A estrada era plana e relativamente monótona, atravessando zonas de cultivo e o trafego pouco intenso.
Chego a Chepo a meio da tarde. O céu escuro e carregado dá-me a indicação de que não devo continuar mais por hoje. Aproxima-se uma tempestade tropical e há que buscar refúgio para a noite. Alojo-me numa pequena hospedagem em frente ao hospital por 5 dólares.

Chepo apesar de estar apenas a 60km da capital parece estar a um mundo de distância do caos da cidade de Panam á. Uma pequena e pacata cidade de cerca de 5000 habitantes, maioritariamente negros. Todas as portas e janelas parecem ter gradeamentos e a atmosfera geral não é das mais "simpáticas" que tenho encontrado, mas pretendo apenas passar a noite aqui.

Amanhã irei sair da estrada pan americana em El Llano e seguir por um desvio que me irá levar até à aldeia de pescadores de Carti, na costa das caraíbas. O caminho, segundo um polícia com quem falei hoje, "não está tra nsitável" pelas fortes chuvadas dos últimos dias. Esse caminho é a única opção terrestre que tenho de chegar à comarca de Kuna Yala na Costa do atlântico onde espero encontrar alguém que me leve de barco até puerto Obaldia, junto à fronteira com a Colômbia.

A tribo de Kuna Yala vive ao longo da costa das caraíbas entre Provenir e a fronteira da Colômbia.Com governo próprio, leis, e poder de decisão,os Kuna são os indígenas com maior autonomia de toda a América latina e ainda preservam os costumes e tradições dos seus ancestrais. Tinha abandonado a ideia de chegar a Yaviza, mas o caminho escolhido não era menos incerto e duvidoso.


Dia 2
De Chepo para algures na selva (km 22 El Llano-Carti), 42 km.


Deixei a hospedagem Mi Ranchito e fui tomar o pequeno almoço no restaurante chino junto ao hospital. Frango frito com arroz e café. Sigo para o centro da cidade para comprar algumas coisas que me faltavam: passas secas, bolachas, tabaco e 5 litros de água (7 no total, com 2 que já tinha). Antes de partir tomo um segundo pequeno almoço, guisado de carne com arroz e um café. No Panamá parece não há grande diferença entre pequeno almoço e almoço. O dono da farmácia ao lado mete conversa e indica-me que em 2 anos que ali vive, eu era o segundo ciclista que via. O outro tinha sido um japonês tempos atrá s.
Saio de Chepo e pedalo para oriente. A estrada estava vazia. O tráfego era mínimo. Apenas algumas carrinhas pick-up e o ocasional autocarro. Um senhor à beira da estrada tira-me uma foto discretamente com uma máquina fotográfica descartável. Saúdo-o com um sorriso amigável.

Foram 18 km de estrada boa e quase sempre plana até ao cruzamento de El Llano.
Lanço-me à brita com garras. Tinha 40 km pela frente até ao mar das caraíbas. O constante sobe e desce tornou-se mais acentuado com desníveis de 15% e 20%. A estrada parecia não se esforçar por contornar montes subindo desnecessariamente uma colina para voltar a descer de imediato. A paisagem de ambos os lados alternava entre selva e zonas de pastagem de vacas com a ocasional cabana no cimo de um monte. O único tráfego era de alguns (5 ou 6 o dia todo) pick-ups carregados de mercadorias e índios Kuna. Paravam ao meu lado e ofereciam boleia - a um preço é claro.
10 dólares. Recuso, mas era bom saber que caso nao pudesse continuar depois de Carti, poderia regressar de pick-up. Tê -lo-ia feito. A estrada de calhau rolado estava a tornar-se cada vez mais difícil, e parecia-me desnecessário ter que fazer a mesma estrada a uma média de 5 ou 7 km/h, duas vezes.

Subo aos 500 metros de altitude onde obtenho uma vista panorâmica da selva coberta de neblina com o mar das caraíbas para norte. Os ruídos da selva são intensos. Reconhecia apenas alguns, um deles, do inconfundível macaco hawley com um ruído semelhante ao de um felino. Bom lugar para acampar, mas decido seguir. 2 kms depois ao lado da estrada avisto uma clareira com uma plataforma em terra elevada. As vistas em redor eram ainda mais fantásticas. Empurro a bicicleta até ao topo com esforço e monto acampamento.
A chuva que tinha estado a cair com ligeireza durante a tarde, intensificou-se. Cozinho uma pasta com queijo e toucinho que os holandeses me tinham oferecido. 1000 calorias por porção, dizia no pacote. Ponho dois. Adormeço exausto com o som da bicharada da selva e dos constantes relâmpagos que iluminavam as águas do atlântico.
O lugar era perfeito para acampar. Tinha feito apenas 42 kms, e foi um dia bem duro, mas estava contente. Esta talvez foi uma escolha com menos aventura, mas mais sensata. O que interessava era que estava de novo na estrada e rumo à Colômbia!













Dia 3
De Algures na selva até á ilha de carti Suitupo, 13 km.


Ontem dormi mal. Os relâmpagos constantes da tempestade algures no mar assombraram (ou iluminaram) a tenda a noite toda. O som de um animal da selva com um cântico irritante e repetitivo entrava-me no ouvido como um sino de igreja desafinado, despertando-me a todo instante. Acordo com os primeiros tons de claridade. O céu estava escuro e cheio de nuvens. Preparo o pequeno almoço e saboreio um café, prolongadamente, observando a paisagem em meu redor. Selva por todos os lados. Não se viam vestígios da presença humana. uma pastagem, uma cabana, ou um poste de electricidade no caminho ao fundo. Para norte, o mar atlântico e as ilhas sob pupuladas dos índios kuna, que aquela dist ância não passavam de meros pontos negros no vasto oceano.

No meio desta paz e tranquilidade aproxima-se um helicóptero. Voa em círculos sobre o acampamento, suficientemente baixo para perceber que não era um helicóptero militar. Haviam Gringos lá dentro, turistas ricos, pensei. Voa mais baixo e vejo o piloto e passageiros a fazer sinais com os dedos e mãos. Não percebi se me queriam dizer que iam aterrar ou cair, ali mesmo. Os gestos eram violentos.
O monte onde estava não tinha mais de 100 metros quadrados. Fizeram sinal para me deitar sobre o barro, iam aterrar quer eu queira quer não!
O vento forte das hélices levanta a minha tenda pelo ar com as minhas coisas lá dentro, e cai no meio da mata, numa pequena ravina, espalhando todo o meu material por todos os lados.
- "Desculpa, foi uma emergência", disseram os tripulantes quando saíram. Eram 4 ingleses a trabalhar para a Discovery C hanel a fazer um "survivor´s show" no meio da selva dos Kuna Yala. Não pareciam muito preocupados com o facto de todo o meu material estar espalhado pela densa vegetação e depois de uma curta conversa, partiram a pé caminho abaixo em busca de um "spot" de trabalho.

Ponho a cafeteira ao lume e preparo um café ao piloto - "É mesmo isto que preciso", disse, com um sorriso.
O piloto, um senhor austríaco a viver no Panamá, contou-me que o "meu" acampamento era o único local em toda aquela vasta área onde podia aterrar, e que em Panamá City lhe tinham dado as coordenadas erradas e que passou demasiado tempo à procura deste lugar, a 8 milhas dali. Estava sem combustível suficiente para regressar.
Agarro na minha catana e começo a abrir caminho pela vegetação em busca do meu material. Levou-me mais de uma hora a recolher tudo, os pólos da tenda partiram com o deslocamento, e ainda agora não sei o que me falta.

Monto a burra e enfrento de novo as subidas cruéis. Pensei que iria ser um dia mais fácil e por estar no ponto mais alto do percurso seria quase sempre a descer dali até ao mar.Estava enganado. A estrada piora, e agora as subidas são tão inclinadas que as subo quase todas a empurrar. Contei 14 subidas, apenas as que tive que desmontar. Nenhuma com menos de 15% 20%, algumas provavelmente a 25% e mais. Faço apenas 13 km até ao rio. Levou-me 4 horas a fazê -lo. Foi duro, mas a partir de agora iria viajar na horizontal.

Uns índios kuna levam-me na sua canoa esculpida de um único tronco de madeira até a ilha de Suitupo numa viagem de 45 minutos. Esta viagem transportou-me para um mundo diferente. O mundo dos Kuna Yala. Um povo fascinante que ainda vive nas terras dos seus antepassados e que preservam grande parte dos seus costumes e tradições.

Procuro um lugar para dormir. O senhor Juan leva-me à casa da família Poras onde me alojo na sala dormindo na rede. A família dormiu essa noite na cozinha, deixaram-me a sós. A casa dos Poras era como quase todas as casas na ilha, construída em cana de bambu e tecto de colmo. A ilha era tão povoada que mal sobrava espaço para vegetação e caminhos. Dou um passeio pela ilha que não tinha mais de 800 metros de comprido por 600 de largura. Neste espaço diminuto vivem cerca de 2000 mil pessoas. Encontro de novo o senhor Juan que me leva a conhecer o cais. Tinha atracado um barco mercantil Kuna que partia amanhã para I stupo, lá longe pela costa leste da comarca de Kuna Yala, a meio caminho de Puerto Obaldia junto à fronteira colombiana, e o meu eventual próximo destino. Disseram-me que partiam pelas 8 da manhã. Estava com sorte.
2 dias de viagem por um preço irrisório de 9 dólares.
Em Istupo tinha que arranjar um novo barco que me levasse a Puerto Obaldia e daí outro para a Acandi, já na Colômbia e da í outro para Turbo, onde iniciavam as estradas de novo. Esse era o plano. Uma viagem de vários dias de barco com vários dias de espera em lugares incertos para fazer ligacões. Poderia levar uma semana, ou mais. O meu único receio era de não conseguir estar em Cartagena a tempo de receber a Verónica que vem pedalar comigo nas suas 3 semanas de cicloturismo na Colômbia.

Regresso à casa dos P oras. A ilha estava às escuras ( o gerador eléctrico que fornece electricidade à ilha já estava avariado há uns tempos), e a atmosfera parecia ter sido tirada de um filme do tempo dos descobrimentos. Deito-me na rede com luz de vela e adormeço a ouvir as vozes de uma língua estranha vindas das casas vizinhas. Os barracos estavam construídos tão próximos uns dos outros que se ouvia tudo o que os vizinhos falavam. Era como se toda a ilha fizesse parte de uma gigantesca família.



















Segue-se nos próximos dias a segunda parte da travessia.

Nuno Brilhante
Em Lorica, Colômbia.

9.14.2007

Momentos de decisão...(Panama)

Os relatos da minha passagem pela Costa rica e Panamá virão numa fase posterior da viagem. Não è pela falta de histórias ou bons momentos para contar, mas pela falta de tempo, pela preguiça mental que se apoderou de mim nos últimos dias e também por estar a ponto de tomar decisões importantes em relação à viagem.

Encontro-me de momento na cidade de Panamá e ainda sem uma decisão concreta em relação às próximas pedaladas a dar. Existem várias hipóteses de travessia para a Colômbia. Não existem estradas nem transportes terrestres ou marítimos regulares entre os dois países.

Opção A: a opção mais rápida e eficiente, mas também a mais fácil, será voar para Cartagena.
Opção B: a mais turística, seria viajar em barco à vela através das ilhas de San Blas numa espécie de "mini-cruzeiro" de 4 a 5 dias.
Opção C: será viajar à "boleia" de barcos de carga, ou de pescadores ao longo da costa das Caraíbas via San Blas, Albadia e Turbo (Colômbia). De turbo seguiria de bicla até Cartagena.
Opção D: será um percurso idêntico mas pelo lado do pac ífico, via La Palma e sabe-se lá por onde no lado colombiano.
Opção E: será atravessar o "Darien Gap".

A estrada Pan-Americana não atravessa do Panamá para a Colômbia. Termina no meio da selva numa cidade chamada Yaviza, no meio da vasta zona selvagem do Darien, iniciando 80km depois já em território colombiano. Esta "falha" de transporte terrestre entre a América do norte e a América do sul, é conhecida como o " Tampon del Darien", ou "Darien Gap".
Yaviza é , literalmente, o final das estradas.

Nos próximos blogs segue-se um relato diário da minha travessia (seja ela por onde for), entre a cidade do Panamá e a cidade de Cartagena (Colômbia).


Nuno Brilhante
Em Panamá City.