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5.30.2007

O regresso à Pan-Americana (Guatemala & Mexico)

Dia 304
Km 17521


A passagem da fronteira entre Belize e a Guatemala foi rápida e eficiente. Encostei a bicicleta ao edifício da alfandega e passei o passaporte pela abertura do gradeamento da janela.Segundos depois uma mão devolveu-me o passaporte carimbado.
-Boa viagem, disse alguém. Já que as fronteiras tem que existir que fossem todas como esta. Não houve revisões de malas ou perguntas desnecessárias do tipo para onde vais, que sítios vais visitar ou formulários a preencher.
Os primeiros 25 km de estrada não estão alcatroados. Segundo um local, o governo guatemalteco insiste em não alcatroar a estrada ate á fronteira, como forma de retaliação com o pais vizinho. A Guatemala disputa território Belizenho como seu, e vá-se lá saber porque, o único pais da comunidade internacional que suporta a sua reclamação é Israel.

Passei a primeira noite na aldeia de El Remate, onde aluguei uma cabana sem porta ou janelas por 35 Quetzales (3 Euros), perto das ruínas Maias de Tikal. Uma das cidades Maias mais impressionantes, Tikal foi construído há cerca de 2000 anos atrás. Em parte, é a sua localização escondida no meio da selva tropical e densa, que torna uma visita ás ruínas algo de memorável. Tucanos e papagaios sobrevoam o canapé da selva, macacos saltam de rama em rama, os passeios pela densa selva são preenchidos com sons estranhos. Raios de luz rasgam o canapé iluminando a floresta e enormes pirâmides elevam-se aos céus rompendo pela vegetação. Provavelmente os primeiros aranha-céus do continente, perpetuam a historia de uma civilização que desapareceu misteriosamente.

No dia seguinte contornei a costa norte do lago Petén Itzá até á cidade de Flores. Estava na altura de abrir os mapas, estudar-los e tomar decisões. Por onde iria atacar as montanhas? Ou seguia para sudoeste via Coban e Quetzaltenango, ou para noroeste via Palenque e San Cristobal de las casas no lado Mexicano. Ir pelo México implicava dar uma volta muito maior, mas permitia-me visitar o enigmático estado de Chiapas com as suas fascinantes ruínas Maias e povos indígenas. Além de que poderia regressar ao local onde apanhei o autocarro para Cancun há mais de 3 meses atrás, dando assim continuação a esta aventura 100% em BTT.

Quatro dias depois estava de novo na estrada com direcção á fronteira mexicana. A fronteira de La Tecnica/Corozal, encontrasse numa área desolada e remota do noroeste da Guatemala. Levou-me 3 dias a percorrer os cerca de 190km de Flores á fronteira, por uma estrada que alternava entre saibro e calhau rolado. Vários locais alertaram-me para o facto de que assaltos na estrada, por vezes á mão armada, eram comuns em especial ao entardecer nas proximidades da fronteira, e aconselharam-me a não acampar sozinho junto á mesma. Eu já tinha ouvido falar dessas historias antes, que apesar de verdadeiras eram por vezes exageradas Mas como precaução essa noite pedi a uma família para acampar no seu jardim, na aldeia de Vista Hermosa a 30 km da fronteira.
Á noite cozinhei com uma audiência de certa de 10 garotos fascinados com cada movimento do estrangeiro. Eram todos irmãos e primos. Com o crescimento da família, iam-se construindo mais barracos pegados uns aos outros. Uma teia de pequenas divisões em madeira onde viviam varias geracoes de uma só família. No final do noite, 4 deles não arredaram pé.
-Boa noite, disse eu pela quarta vez, aste mañana!
Entrei na tenda,mas eles permaneceram sentados no chão em frente dela, a observar através da rede mosquiteiro, cada um dos meus movimentos enquanto eu me despia e me preparava para dormir. Pareciam tão excitados que não queriam perder um segundo do "filme". Afinal de contas não era todos os dias que lhes caia um "gringo" no quintal.

O posto fronteiriço ficava á entrada da aldeia de Bethal, no meio da savana, do nada. Dai, ainda eram mais 12 km ate á verdadeira fronteira. A estrada de calhau rolado, apesar de plana, levou-me 2 horas a fazer. Uma pequena travessia de barco e estava do lado mexicano.
Passam pouco estrangeiros por esta fronteira.
O oficial da alfandega estava meio dormitado a ver televisão. Não tenho formulários, disse. Tens que carimbar o passaporte em Palenque.
-Em Palenque? Mas isso para mim são 2 dias de viagem, respondi.
-Não te preocupes, respondeu.
Segui viagem .Estava de volta ao alcatrão!
Pedalava pela "carretera fronteriza", uma estrada que contornava grande parte da fronteira entre estado de Chiapas e a Guatemala. Há varias décadas atrás, isto era uma zona de selva primaria, mas nos últimos anos tem sofrido forte Desflorestação pelos novos colonos ali deslocados pelo governo mexicano numa tentativa de fortalecer a zona fronteiriça (á custas da natureza!).
Atravessei varias zonas de selva destruída e queimada para dar lugar a novas zonas de pastagens com tamanhos completamente desproporcionais ao numero de vacas que as usavam. Aqui e ali, pintadas na paisagem, via-se a ocasional Ceiba ou outra árvore de grande porte, testemunhos solitários da outrora natureza pura.

Maio é o mês das queimas e o fumo não só aumentava as já elevadas temperaturas como desfocava a paisagem. O sol a partir das 5 da tarde, transformava-se numa esfera vermelha de um redondo perfeito. A minha agua estava tão quente que até pensei que dava para fazer chá.
Já há varias semanas que o meu consumo de agua era algo de exagerado. 2 galões por dia. Comprava ao galão porque era a medida exacta das minhas três garrafas e ficava mais barato, mas com o calor apenas as primeiras goladas de agua eram frescas. Parei num tasco para beber algo frio. Deixei a Burra ao sol. Quando voltei, o termómetro marcava 52 graus!

Esta porra tem que estar avariada, pensei. Avariada ou não, estava farto de calor. Há que começar a subir as montanhas em busca de ar mais fresco e puro..

Cheguei a Palenque no dia seguinte ao entardecer. Procurei um local para acampar num dos muitos parques de campismo que existem na quase legendária zona do "el Pachen". O epicentro da cena alternativa de Palenque no meio da selva densa e perto das ruínas Maias. Um "habitat" para macacos, tucanos, papagaios, "hippies" "trippies", divagadores e turistas.
Na estrada que vai para as ruínas fui abordado por um senhor a vender cogumelos.
-Chanpiñones, Mushrooms!, gritou em tono suspeito e abafado.
-Hey amigo, chanpiñones mágicos, buenos e baratos. Visitas as ruínas e tudo tem vida. Vês os deuses Maias. São mágicos, continuava.
Já tinha ouvido falar deles. Ao longo dos tempos tem atraído pessoas de todo o lado, ate escritores que buscam nas suas experiências alucinogenicas inspiração para escrever os seus livros. Entre outros Carlos Castenadas e Aldous Huxley que escreveram, respectivamente "os ensinamentos de don juan" e "admirável mundo novo", influenciados pelos poderes "mágicos" desses e outros alucinogenicos.
-Ouve lá, eu vou subir as montanhas de bicicleta, também ajuda?, perguntei ironicamente.
-Si si amigo, claro que si.
-E como sei que não me esta a vender erva daninha, perguntei, apontando para o saco cheio do que mais pareciam ervas ressequidas.
- pruebalos, disse, tirando um punhado do saco. Eu ando sempre por aqui...
-Hum...no gracias.
Tinha sido um dia duro e estava com fome, mas de algo que me alimentasse o corpo, não o espírito.

No dia seguinte visitei as ruínas de Palenque, mais umas ruínas Maias situadas na floresta tropical de Chiapas, um enorme complexo de ruínas, templos e pirâmides que imortalizaram a cultura Maia. Passei pela emigração (3 dias depois) para carimbar o passaporte e parti finalmente rumo às montanhas.
Reparti a Ascenção entre Palenque (80m) e San Cristobal de las casas (2165m) em 4 curtos mas duros dias. Nos cerca de 200 km que separam as duas cidades acumulei 5382 metros de desnível.
No primeiro dia de subida, depois de um sobe e desce constante onde eu parecia notar apenas os "sobe" acampei no fundo de um vale quase a mesma altitude do dia anterior, junto ao rio Shumulhá . Um lugar perfeito para acampar. O rio descia das montanhas para abrir o seu caudal de uns tons de cor incríveis, formando uma pequena lagoa rodeada de vegetação verde, para depois continuar o seu percurso.

Toda a floresta desde as ramas das árvores e as suas folhas até ao mais pequeno dos insectos, estavam reproduzidos nestas águas tipo espelho. As imagens permaneciam perfeitamente estagnadas enquanto que as águas do rio moviam-se através delas como se do tempo se trata-se. Tinha descido o vale e estava mais uma noite de calor. O ar quente e pesado da noite obrigava-me a respirar o meu próprio hálito. A noite era escura e o céu parecia ter ancoras.
O segundo dia foi mais duro com 1944 metros de desnível acumulado. Com a passagem de cada montanha os vales iam subindo em altitude e as temperaturas baixando. Um cartaz junto à estrada lembrava-me de que estava em território Zapatista.

Emiliano Zapata, um revolucionário dos tempos do Pancho Villa disse uma vez: " Nos lutamos pela terra e não por ilusões que não nos dão nada de comer. Com ou sem eleição, o povo continua a mastigar a amargura da vida".
Muitos anos depois um carismático professor universitário chamado Rafael Guillen (que viria a ser conhecido por apenas subcomandante Marcos) deu jus as suas palavras e formou a EZLN (exercito Zapatista de libertação nacional).
Melhorar a qualidade de vida da empobrecida população indígena e ver-se livre de um punhado de feudalistas que controlavam a maioria das terras, misturados com alguma retórica de anti-globalização,era o seu lema e em 1994 ocuparam varias cidades do estado de Chiapas e o mundo inteiro pela primeira vez ouviu os seus gritos de descontentamento.


Depois da intervenção militar que deixou centenas de mortos, o governo criou zonas autónomas, mas até hoje está ainda por passar legislação que solidifique os direitos dos indígenas. Apesar de já não recorrerem às armas as relacoes entre EZLN e o governo central mexicano ainda se mantêm tensas.

Estar nas montanhas e respirar o ar puro das montanhas revigorou-me a alma e deu-e energia ao corpo e as inclinacoes de 6% a 8% pareciam-me fáceis. A burra parecia estar contente também, afinal de contas este era o seu tipo de terreno preferido. No terceiro dia o céu escureceu e as nuvens descarregaram as suas iras na terra seca e ansiosa de agua.
À noite, hospedado na simples casa de hospedes na aldeia indígena de Oxchuc, ouvia a chuva a bater sem tréguas nas placas de fibro-cimento do telhado. Quando conseguiu penetrar através delas, a agua caia em jorros dentro do quarto e voltava a desaparecer por entre as tábuas do chão.
Tinha começado finalmente a época das chuvas torrenciais. A partir d`hoje, muitos serão os dias em que a chuva acompanhara as minhas pedaladas. Para mim era um alivio ao calor abrasador das ultimas semanas.

Ao quarto dia cheguei a San Cristobal de las Casas. Uma lindíssima cidade de montanha na encosta de um vale a 2165 metros de altitude.
É um prazer estar aqui, respirar o ar puro e fresco das montanhas, visitar os mercados e aldeias indígenas e a absorver esta atmosfera única e relaxante.
Estou de novo na Pan-Americana (em Chiapas é a EN190), e custa a crer que há 3 meses atrás estava apenas a poucas dezenas de quilómetros para norte na cidade de Tuxtla Gutièrres.
Depois de 3980 km de desvio da pan-americana pelo Yucatan, Cuba e Belize, avancei apenas 60 km para sul!! É-me agora óbvio que não chegarei á patagónia no final do ano. Pascoa de 2008 será uma data mais provável....

Nuno Brilhante Pedrosa
Em San Cristobal de las Casas, México

3.16.2007

Yucatan e o mundo Maia (Mexico)

Dia 228
km 14084

Chegamos a cobá ao final da tarde. Numa pequena loja da aldeia Maia compramos os ingredientes que faltavam para a grande ceia: ovos, cebolas, batatas, e outras cenas a uma senhora que com um certo ar apático, mostrava algumas dificuldades em somar os preços da mercearia, falava numa das línguas Maias com uma jovem rapariga que me mostrou o total na calculadora: 64 pesos. Pagamos e pedalamos pela aldeia em busca de um local para acampar. O local ideal parecia ser junto ao lago perto da entrada das ruínas de cobá, mas como não tínhamos intenções de partilhar o jantar com os crocodilos que o habitavam, optamos pelo relvado do campo de futebol da aldeia.

Durante o dia, enquanto o bacalhau salgado vindo da Europa, de-molhava dentro de um garrafão de água colocado no cesto da "burra Mexicana" da Joana com o sol intenso e os buracos da estrada a acelerarem o processo de demolha, debatia-mos como o iríamos preparar. Bacalhau á Brás. Sim, já não me lembrava a ultima vez que o tinha comido, e a ver pelo estado das postas depois de 40 km de viagem aos solavancos, era a melhor opção.

A Joana usava as bancadas do campo como cozinha enquanto eu montava a casa perto de uma das balizas. Por momentos os meus olhos focaram a floresta densa do outro lado do campo, e o meu pensamento penetrou a selva ate á praça principal de rituais rodeada por varias arvores Ceiba, da outrora grande cidade Maia a menos de um quilometro dali. Os Maias acreditavam que o céu, a superfície da terra e o mundo misterioso por debaixo dela (chamado Xibalbá) eram uma estrutura única universal e unificada. Do centro dela transcendia a "arbole del mundo", a primeira forma de vida a surgir do caos da criação cósmica.

Os Maias frequentemente associavam essa arvore á Ceiba, que é bastante comum por toda a região. Uma característica da Ceiba, é que os ramos crescem perpendiculares ao tronco criando formas tipo crucifixo. Com a chegada dos missionários espanhóis que obrigaram os nativos a venerar a cruz, aos olhos dos Maias o símbolo cristão ficou associado á "arvore do mundo". Essa associação ainda hoje é observada.

O jantar dessa noite seria o primeiro de vários festins de gastronomia portuguesa cozinhados em território Maia. A Joana trouxe nos seus dois alforjes não só uma incrível vontade de viajar em bicicleta, mas também algumas cenas que eu necessitava, como 2 pneus Schwalbe Marathon, mapas e guias para a América central, literatura em português, e também alguns ingredientes para saciar as minhas saudades da gastronomia Lusitânia, como chouriços caseiros, bacalhau, azeite entre outras cenas.

Três dias antes, quando a fui esperar ao aeroporto de Cancun, tinha os pensamentos cheios de duvidas. Como se iria adaptar á bicicleta que lhe comprei, ao calor húmido, ao trafico das estradas Mexicanas, ao campismo ao acaso? E nos como companheiros de viagem? Como iria ser?
Durante a preparação desta aventura, a Joana foi a pessoa que mais suporte me deu e que mais me encorajou fazer-la. O sonho de percorrer todo o continente Americano em bicicleta não era só meu. Era nosso!
Na manha seguinte visitamos as ruínas Maias bem cedo, antes da chegada dos inúmeros autocarros com ar condicionado cheios de turistas vindos dos muitos resorts que se elevam aos céus como gigantescos caixotes de cimento, e que transformam a lindíssima costa do Yucatan, numa gigantesca "Gringolandia" fortificada.
Seguimos viagem.

A burra Mexicana da Joana, uma bicicleta de fabrico nacional, marca Mercúrio, que eu tinha comprado na Playa del Carmen, tinha apenas 18 mudanças de punho, e que nem sempre queriam entrar, pesada, e com suspensão dianteira praticamente inutilizada pelo cesto colocado no guiador, não era a bicicleta de escolha para este tipo de viagem, mas apenas por 1300 pesos (85 Euros) já com extras, não podíamos esperar muito. A Joana jogava com a vantagem de a península do Yucatan ser das únicas partes do México sem montanhas, e com a sua incrível vontade e determinação em pedalar. O resultado foram 500 km em 2 semanas, que para a sua pouca ou nenhuma experiência em ciclismo, foi algo de extraordinário.

Seguimos para o interior da península através de pequenas estradas do campo, afastando-nos da costa dos turistas e do trafico. A península do Yucatan, que incorpora os estados de Quintana Roo, Campeche e Yucatan, esteve isolada do resto do país durante séculos (as estradas começaram a chegar á península apenas no inicio dos anos 60) e toda esta região desenvolveu uma identidade, gastronomia e caráter próprio. Esta região foi o núcleo do mundo Maia e ainda o é!

A maioria das pessoas que por aqui vive é descendente directo dos grandes criadores de impérios do passado, e muitos ainda preservam os costumes dos seus assessores incluindo as línguas, modos de vestir e religião.
Com o aparecimento de um novo império, a "gringolandia" de Cancun e arredores, a paisagem da península tem sofrido fortes alterações. Mas basta afastarmo-nos poucas dezenas de quilometros da costa para encontrar aldeias Maias onde o espanhol ainda é língua secundaria, e as cabanas em madeira com tetos de palha, ainda superam as feitas em cimento. E turistas, em especial em duas rodas, ainda são fonte de curiosidade por parte dos locais, em especial as crianças.

Uma semana depois, já com mais de 350 km pedalados, a Joana não dava sinais de cansaço (antes pelo contrario!) e nem a sua burra mexicana, apesar da sua luta constante com as mudanças que não queriam entrar. De facto, era a minha que me estava a preocupar. Já com cerca de 30 mil quilometros de idade, os traços da velhice estavam a começar a exporem-se e os problemas a acumular, com a cassete e cadeia gastas (10.000 km) algumas mudanças já saltavam, o conta quilometros deixou de funcionar, o pneu de trás rebentou, obrigando-me a usar um dos novos que a Joana me trouxe, e o “Derailleur”, deixou de funcionar depois de passar-mos um dia todo a pedalar á chuva e de atravessar poças d´agua que por vezes submergiam a bicla até ao eixo, já para não mencionar que o suporte da frente se partiu pela terceira vez. E tudo isto num espaço de 72 horas.

Pelo menos há uma peça que não se desgasta: a vontade de continuar a pedalar rumo à terra do fogo....
Com os dias contados para chegar a Cancun, orientamos a nossa rota para Este, iniciando o nosso regresso á costa das caraíbas, passando pela reserva natural da biosfera Sian ka´An (onde o céu começa na língua Maia), 5000 km2 de selva protegida, patrimonio da UNESCO, e habitadas por pumas, jaguares, papa formigas, macacos e muitos outros animais. Entramos na reserva por Chumpón, nos iniciais 50 km de estrada não alcatroada, que mais parecia ter sido construída sobre rocha calcaria cortada, fomos recebidos por chuvões (os primeiros desde que entrei no México), que não pareciam incomodar muito a boa disposição da Joana, mas que nos impossibilitou um contacto mais próximo com a fauna local, excepto o ocasional crocodilo,papagaios, e é claro, os milhares de mosquitos...ou iguanas, que por vezes se proximavam mais do que o desejado

A Seria do Tamisa já regressou ás margens do rio que atravessa a cidade onde vive, e eu fiquei de novo a sós com a minha "burra".
-Já nos vemos, foram as suas ultimas palavras antes de se misturar com os outros turistas na zona de embarque do aeroporto. Entendi bem o que queria dizer e sei que vai estar ao meu lado durante toda a viagem.

De regresso á Playa Del Carmen, debato-me de momento com a próxima pedalada a dar. Nos planos inicias nunca me ocorreu passar pela península do Yucatan, mas uma vez que aqui estou e com Cuba mesmo aqui ao lado...
Tenho um amigo em havana, talvez o deva visitar. Afinal de contas, uma viagem mede-se com encontros com pessoas e amigos e não em quilômetros....

Nuno Brilhante Pedrosa
em Playa Del Carmen, Yucatan México.

Sereia do Tamisa (Mexico)

Cancun, Aeroporto de …13 de Marco 2007 – o regresso

Dei um beijo e um abraço demorado no meu companheiro de viagem e melhor amigo, disse-lhe até breve e não me voltei para trás, avancei para as portas de embarque com um vórtice esvaziante que me empurrava na direcção do avião embora tudo no meu corpo se tentasse ancorar ao pais e ao amigo que agora deixava. Atravessei a noite e de manhã acordei em Gatwick com um sol frio de um grau.- o sorriso irónico desenhou-se na minha face.

Aeroporto de Cancun 27 de Fevereiro 2007 – o reencontro

Estavam ainda os meus poros a experienciar o êxtase provocado pelo calor tropical Mexicano quando senti, na minha pele branca da ausência de sol, o abraço quente apertado, e a voz suave do Nuno ‘bem-vinda’. As pontes do tempo desapareceram, os meses de ausência desmoronaram-se e a distância de um oceano e muitos mil kilómetros afundaram-se por um ralo que duraria 14 dias antes de voltar a encher.

O destino Cancun foi determinado pelo voo barato. Cancun e quase toda a costa da Península do Yucatan que adquiriu o nome pomposo -cortesia do Marketing Turístico - de Riviera Maia, é para mim igual a qualquer outra estância de resorts em qualquer parte do mundo e nem as águas cristalinas me deixaram muito impressionada.

Vejo tudo isto como um acto de prostituição consentida, as selvas virgens e as praias imaculadas foram vendidas em troca de luxuosos conjuntos de arquitectura cimentosa que escondem dentro das suas paredes milhares de quartos cheios de camas uniformizadas, salas de massagens para corpos de turistas, restaurantes com comidas híbridas mundiais. Fora destas paredes a realidade e feita de casas de palha, que a noite invade com redes onde se descansa o corpo depois do dia de trabalho a limpar o resort, a cortar a relva do resort, a servir comida no resort. Que sentirão estas pessoas quando à noite chegam a casa? Compararão confortos? Questionarão diferenças?
O constante som grave e alto que esvoaça dos rádios que ouvem respondem-me que quaisquer que sejam as suas questões existenciais o calor existente em suas almas aquece tanto ou mais que o sol caribenho, e por mais um dia a vida continuara a ser como sempre foi.

A saga do bacalhau

Ser Português. Quantas e quantas linhas foram escritas sobre o ser Português? Eu acrescentarei mais algumas. De como atravessei cerca de 70 kilometros deste pais húmido cheio de selvas e ruínas Maias com um garrafão de 5 litros de água a demolhar umas postas de bacalhau salgado importadas do Reino Unido, a cavalo na minha ‘burra mexicana’. O esforço resultou num belo Bacalhau à Bráz cozinhado numas bancadas de um campo de futebol com erva a dar pelos joelhos e um delicioso Bacalhau à Espanhola saboreado ao pequeno-almoço no nosso acampamento numa pedreira abandonada. Os locais olhavam estupefactos pensando que carregávamos uma cobra ou um bicho malcheiroso qualquer, seguramente para alguma feitiçaria ou coisa semelhante. Recordo a cara de uma rapariga, empregada num restaurante deserto de beira de estrada em que parámos, quando o Nuno lhe entregou o garrafão e pediu que lhe mudasse a água que com os solavancos da burra e o sol tinha já um cheiro bastante acentuado.

O Nuno conta-me de como cada ciclista tem as suas peculiaridades relativamente a comida. Análise feita, parece-me que como Portugueses o valor que damos à alimentação e a determinados ingredientes è levado a um expoente máximo sobretudo quando se esta longe a viajar sem grandes confortos. A existência durante estas cavalgadas passa a determinar-se tão simples e complexamente pelo menu que se vai preparar para as refeições do dia bem como toda a sua logística, sabendo-se de antemão que o sucesso da jornada depende em parte do quão satisfeito se está com aquilo que se come. Nas malas da burra do Nuno cavalgaram também umas chouriças que perfumaram ‘irresistivelmente’ as suas roupas e foram a base para um arroz de feijão e chouriço, que eu modestamente descreveria como fenomenal acompanhado por umas tequillas com limas, estavamos na cidade colonial de Valladolid onde nos demos ao luxo de pernoitar numa pensão com cozinha para confeccionarmos os nossos últimos ingredientes Portugueses com a devida pompa e circunstância.

Ode ao meu corpo

Decidir ir ao encontro do Nuno e pedalar uma burra foi só a consequência de esta ser a forma de transporte escolhida por ele, mas a cavalo numa burra real ou numa burra puxada com a força das minhas pernas a minha percepção geral è que e o importante è ir. Realmente não me ocorreu que não só havia muitos anos que não andava de bicicleta, e que sou uma pessoa muito pouco dada a extremos físicos de esforço, mas que raio, estava determinada a não sofrer por antecipação e a ver quanto o meu corpo estava preparado a surpreender-me.


A surpresa foi grande. Os Deuses Maias abençoaram a minha viagem com estradas planas, aldeias fora das rotas turísticas onde os descendentes Maias ainda ilustram o quotidiano Mexicano nos seus vestidos coroados de flores, os seus sorrisos pueris, a sua língua exótica que te abraça os ouvidos mesmo quando não os entendes, as grutas misteriosas conhecidas localmente como Cenotes que se presentearam durante a nossa pedalada como turquesas e topázios refrescantes de águas cristalinas – a todo este manjar dos sentidos o meu corpo presenteou-me com uma energia desconhecida e uma vontade imparável de pedalar mais e mais, ver mais e mais. Tinha descoberto uma nova paixão – a paixão pelo ciclismo!

Dos sorrisos aos sabores – uma viagem pela minha infância

Proust tornou cliché a lembrança da infância com o associar do cheiro das madalenas. Para mim o México foi uma ‘madalena’ constante que a cada contacto a cada experiência me transportava à minha infância. Saudosismo? Claro, afinal sou Portuguesa.
Na simplicidade da escolha ao entrar numa mercearia onde tudo o que necessitas para sobreviver se encontra nas prateleiras poeirentas e na curiosidade e amabilidade das pessoas que te servem. A vida assim feita de poucas escolhas de consumo tem um equilíbrio inesperado. Ali longe dos longos corredores de hipermercado que te dão ansiedade só por teres de escolher entre 10 marcas diferentes de arroz, 3 pelo menos com vitaminas adicionadas e outras 5 que demoram menos de 3 minutos a cozer. Ali onde não és ignorado e as pessoas te olham com curiosidade e te perguntam de onde vens e para onde vais. Ali onde os produtos ainda sabem ao que devem saber sem meias calorias ou zero de gorduras insaturadas. As velhas marcas de Nestum, Nescafe, o chocolate Abuelita a versão mexicana do chocolate Todi, umas bolachas de canela que me transportaram aos meus dias de parque de campismo. As contas feitas no canto do papel de embrulho, as batatas pesadas numa balança ferrugenta, uma porta aberta nos fundos onde se antevê a intimidade de um lar.

Quando recordo as grandes pirâmides que visitei, silenciosas de vida real, ou a praias de postal sinto que a beleza se encontra em todo o lado não só nas grandes criações humanas e naturais de milénios como também na beleza do quotidiano e de como cada um se adapta aquilo que a vida lhe vai atirando construindo o arco-irís humano que da cor a este mundo que vou tendo a sorte de calcorrear.

Mensagem na garrafa

Num dos últimos dias paramos para almoçar numa praia deserta com todos os requisitos de paradisíaca não fosse o lixo lhe atapetava as areias aveludadas. Este lixo è uma constante nas praias desertas do México, o mar devolve áquelas aureolas de pureza o lixo que lhe é derramado…No meio de todo este lixo estava uma garrafa vazia com rolha, o Nuno agarrou na garrafa, numa caneta e papel e deu-me para escrever uma mensagem. Pois seja essa mensagem feita desejo, um facto tornado realidade – que carregue essa garrafa a porta para as muitas mais viagens que sei que ainda tenho para fazer e que algumas delas possam ser na companhia do homem que me mostrou que os únicos impossíveis que existem são os que te impões a ti mesmo!

Joana

















2.27.2007

Do pacifico ás caraibas (Mexico)

Dia 221
Km 13541


Um enorme sinal verde sobre a estrada patrocinado pela Coca-Cola, cujas letras vermelhas se destacavam na paisagem verdejante, indicava a entrada no estado de oaxaca. E se eu fosse um ciclista vindo de outro planeta, estaria desculpado por pensar que o sinal dava as boas vindas ao estado da Coca-Cola. O México é o maior consumidor desse liquido escuro e misterioso, com o maior consumo per capita do mundo.
Os 400 e poucos quilómetros de costa entre Acapulco e Puerto Escondido, conhecida por "costa chica" (costa pequena), não foram dos mais interessantes para ciclismo. A costa é bastante quente e húmida, e os montes circundantes, bastante quentes e secos. O mar e o céu, ambos um azul brilhante quase prateado, pareciam convergir numa linha quase imperceptível, o que me fez lembrar a cotação de Carlos Pellicer, "Província azul, donde es azul el cielo, donde es azul el mar". É fácil de romantizar estas paisagens, mas o escritor mexicano provavelmente passava as horas de calor deitado na sua rede á sombra, e não a pedalar...
A Este de Puerto Escondido situam-se as legendárias praias de Puerto Angel, Mazunte e Zipolite. Pequenas baias separadas por braços de terra, que tem vindo a crescer em popularidade com turistas independentes, a quem eu chamo de turistas de pé descalço, e que preferem fugir aos resorts-cimento característicos da costa central do pacifico, e alojarem-se em praias um pouco mais autenticas.

Alojamento é com famílias, em cabanas junto ao mar ou em simples pousadas, mas muitos preferem apenas pendurar as suas redes para dormir. As condições apesar de básicas são acolhedoras. A "mota" circula livremente espalhando o seu aroma pelas praias, e em zipolite ate há a ocasional festa de "punchi punchi", na areia ate ao amanhecer. Punchi punchi, é a designação dada por alguns mexicanos á musica tecno. Eu escolhi a praia de Mazunte para relaxar uns dias da dureza das estradas, por ter uma atmosfera mais familiar. Para alem de um interessante centro de pesquisa sobre tartarugas, que escolhem esta parte da costa para desovar, outras actividades são; juntar-se aos pelicanos nuns mergulhos nas águas do pacifico, dormir uma "siesta" na rede, comer, beber umas coronas, ler um livro, pentear a areia, adorar o sol, beber mais umas coronas. Enfim, há actividades suficientes para manter uma pessoa entretida durante uma semana. Muitos chegam e já não partem, e a pequena comunidade de estrangeiros residentes tem vindo a aumentar.

4 dias depois segui viagem...
Ao chegar a Salina Cruz o vento forte característico desta zona, intensificou-se. Aí iria abandonar o pacifico a caminho de Cancun nas Caraíbas, e tinha duas opções: Ou directamente para norte através do Isthmus de Tehuantepec, a parte mais estreita do México, com cerca de 200 km de mar a mar, através de uma "falha" na cadeia de montanhas que atravessa todo o México de norte a sul, mas que apesar de-segundo os locais- ser relativamente plano o vento por vezes derruba Camiões. Ou seguir para nordeste para as montanhas de Chiapas ate Tuxtla. O vento forte que se fazia sentir nesse dia ajudou-me a decidir e optei pelas montanhas.
Já era noite escura quando entrei no centro da cidade de Cintalapa e procurei o "Zocálo", ou praça principal. Um pouco á semelhança da península ibérica, no México, as aldeias e cidades estão centradas em redor de uma praça cheia de sombra e de uma igreja ou catedral. O Zocalo estava cheio de pessoas e actividade. Dou conta de alguém a correr ao lado da bicicleta e a gritar.
-"habla ingles?".
-I´m a cyclist too!!

O John, do pais de Gales, era o primeiro ciclista, que encontrava no México continental ate ao momento. Alojei-me no mesmo hotel que ele, e no dia seguinte viajamos juntos ate Tuxtla Gutiérrez. Ao jantar, na esplanada de um "comedor" do zocálo, partilhamos impressões das nossas viagens. O John começou a pedalar na cidade do México, e vai ate Lima no Peru. Não tardou muito para fazer-mos a pergunta que ambos ansiávamos fazer:
-E o Darien? Vai tentar atravessar-lo?
O mito do Darien, uma zona fronteiriça entre o Panamá e a Colômbia de selva densa e quase impenetrável, cresceu em redor de historias de contrabando de drogas, guerrilhas, emigração ilegal, Terra de ninguém e sem lei, mas tambem uma barreira natural que separa as duas americas que protege a incrível biodiversidade existente e as comunidades indígenas que por lá vivem. O chamado "darien gap" tem cativado aventureiros em todas as formas de transporte durante décadas, principalmente porque esses escassos cem quilómetros, impossibilitam a estrada pan-americana de ser coroada como a estrada mais longa do planeta.
Decidimos manter o contacto. ainda faltam vários países, mas nunca se sabe...

Impossibilitado de chegar a Cancun em bicicleta antes do dia 27 de Fevereiro, altura em que chega a Joana Oliveira de Leiria, nas suas ferias/ciclismo de 2 semanas, não tive outra alternativa senão quebrar um dos princípios desta viagem, o de não utilizar transportes motorizados,excepto em situações sem alternativa (como foi o caso da travessia em barco do mar de cortes). Foi bastante estranho ver a paisagem a passar com tão rápido, dentro de um compartimento de latão e vidro. Os pássaros e as ramas das arvores nem se conseguiam focar. Desapareciam tão rápido como apareciam. E onde estavam os gritos das crianças ou o cantar dos pássaros ou o ladrar dos cães que muitas vezes me perseguiam? Os únicos sons que ouvia vinham do écran sobre a minha cabeça, a passar filmes de acção, misturados com os sons da musica ranchera, que o condutor ouvia a bom e alto som.

E o cheiro das flores? E as pessoas na berma da estrada? Não via os seu sorrisos na cara, não lhes podia dizer olá, olhar-los nos olhos, ou cumprimentá-los e sentir a dureza das suas mãos firmes. Observava com atenção as subidas e descidas, curvas e contra curvas, mas não as sentia. Sentia era remorsos. E pior fiquei quando vi, através do vidro do autocarro, o John. Eram duas da tarde, estava deitado sobre umas rochas ao lado da estrada, com o chapéu sobre a cara e a tirar uma "siesta" no topo de uma subida. As pessoas em meu redor comentavam:
- Tá loco, ali tirado en el sol, lo Gringo!
Com certeza que eu próprio, já recebi centenas de comentários como este, mas trocava o ar condicionado do autocarro e tudo o que me rodeava, para estar ali ao seu lado. Foi uma viagem agonizante, mas só fortaleceu a minha convicção de que não há outra forma de transporte melhor para viajar do que a bicicleta, aquele animal de tracção onde a besta puxa sentada, como um tio meu uma vez me disse.
Cheguei a Playa del carmen, 70 km a sul de Cancun, com o amanhecer do dia. Playa del carmen, a cidade praia com o maior índice de desenvolvimento turístico no México, é mais uma estância balnear com todas as facilidades para o turista, como tantas outras que existem espalhadas por ambas costas mexicanas. E apesar de ter uma atmosfera mais relaxada do que Cancun, há que sair daqui o mais rápido possível. Já visitei suficientes locais como este, onde a cultura mexicana é ofuscada pelas comodidades exigidas pelos turistas ocidentais, e nao foi para visitar locais destes que eu decidi fazer esta viagem em duas rodas. E assim que a Joana chegar, partiremos para duas semanas de ciclismo de lazer e relaxado pela península do Yucatan.

será apenas depois do Yucatan que irei condimentar a minha passagem pelo México com um pouco mais de aventura, subindo finalmente as montanhas da sierra madre sur, no estado de Chiapas, território zapatista, onde espero sair do circuito turístico e possivelmente fazer algumas etapas "off road". Mas primeiro irei pedalar ate á cidade onde apanhei o autocarro, quanto mais não seja, por descargo de consciência...

Nuno Brilhante Pedrosa
em Playa del Carmen, Qintana Roo, Mexico

2.07.2007

Pela "Carretera costera" do Pacifico (Mexico)

Dia 191
Km 12529


O Sinaloa Star atracou no porto de Mazatlan ao lado de um navio de cruzeiros, pelas 10.30 da manha.
Foi a bordo de um desses navios, o famoso "down princess", que eu tinha chegado a Mazatlan, na primeira das minhas quatro visitas ao mexico.
Mas desta vez iria ser diferente.
Fui um dos primeiros a desembarcar. Montei na burra e galopei para o centro da cidade em busca de um hotel. Em 15 anos a cidade tinha mudado tanto que estava irreconhecível aos meus olhos.

A única parte da cidade que consegui identificar foi o "malecòn", ou passeio junto ao mar, e o "zocàlo" ou praça principal com a catedral espanhola e as suas duas torres amarelas. Estavam 27 graus, apenas 2 ou 3 graus a mais do que em La Paz, mas a humidade era elevada.
Passei 5 dias na cidade, alem de dar uma revisão geral ao meu equipamento e retirar a poeira do deserto pouco mais fiz...
Ao 5 dia sai da cidade pouco depois do amanhecer. A paisagem que me rodeava era completamente diferente da "Baja", parecia outro pais. Os cactos deram lugar a arvores de manga e abacate, e o deserto árido de há poucos dias atrás, transformou-se em florestas húmidas verdes e tropicais. Os ranchos com algumas vacas magras que na "Baja" se avistavam de longe em longe, aqui estão rodeados de plantações de milho, melancias, papaias e outros frutos e vegetais. E há gente, e aldeias e trafico por todo o lado. A água e abundante com rios e lagos.
Tinha entrado "oficialmente" nos trópicos...

Em Escuinapa de Hidalgo a "carretera de cota", designação dada a uma auto-estrada mexicana, que è mais uma via rápida com portagens (não para ciclistas!) e boas bermas, terminou, e durante vários quilòmetros tive que pedalar pela "La federal", cujo trafico intenso e bermas quase inexistentes, era de arrepiar os cabelos atè ao ciclista mais experimentado. Entre Escuinapa e Ruiz, havia um troço de auto-estrada em construção, que segundo alguém com quem falei, era transitável para ciclistas.
Pela primeira vez na viagem tive, não uma estrada, mas sim uma auto-estrada só para mim. Um pavimento liso com cerca de 30 metros de largura, km após km, sem trafico!!. A super-estrada cortava por paisagens tropicais, com lagos cheios de pássaros, incluindo os "spoonbill", um pássaro rosado semelhante ao flamingo, e alguns campos agrícolas e pequenas aldeias ainda não transformadas pelo impacto da nova via rápida.

Era bom demais para ser verdade, estava tão feliz que ate fazia malabarismos com a bicicleta, tipo andar sem mãos, etc. Sabia que era um momento único na viagem e estava a usufruir de cada km pedalado. Mas não estava sozinho. Apesar do pavimento estar completo, ainda havia vários grupos de trabalhadores ao longo do caminho a tratar dos acabamentos finais.
A minha sorte estava para mudar radicalmente.
Numa ponte não acabada, não vi uma pequena falha com pouco mais de 30 cm, o impacto da roda e o peso das malas quebraram o suporte dianteiro. primeiro o esquerdo, torcendo a vara que os une por debaixo da roda, obrigando o do lado direito a partir em 2 lados.
ficou feito num oito...literalmente!

foi-me impossível encontrar um suporte em Portugal, como vou encontrar um no México? Ou quem me o vai soldar, uma vez que è feito de alumínio? e como e que eu vou sair daqui?
Nos preparativos desta viagem, um pouco à pressa, tinha passado uma tarde em Lisboa à procura de um suporte dianteiro sem sucesso. Foi já em Seattle nos estados unidos, quando em transito para o Ártico , enquanto esperava pela bicicleta que se tinha "perdido" no vôo vindo de Londres, que encontrei um suporte e umas malas dianteiras,
Caiu a noite, e o Céu enublado transformou a noite num preto quase sólido. Não se via vivalma e o chilrear da passarada era ensurdecedor, como que a protestar a minha intrusão. ao lado da super-estrada estava uma arvore, semi coberta com silvados e plantas trepadeiras, e que me pareceu o lugar ideal para monta a rede. ( a minha rede esta a tornar-se numa das peças de equipamento que mais valorizo) encostei a bicicleta à arvore e não lhe toquei mais nessa noite...estava meio enfuriado pelos acontecimentos do final de dia e nem queria averiguar os estragos feitos. Pelo menos vou fazer um bom jantar, pensei.
Tinha comprado comida em Mazatlan, e comecei a preparar um refogado de cebola alho azeite, folhas de louro e chiles. ao qual esperava adicionar molho de tomate e vegetais, e mais tarde um pacote de pasta.. Monto o fogão e dou umas 10 a 15 bombadas para criar pressão na botija de gasolina. Acendo um cigarro e o fogão ao mesmo tempo como já era ritual. De repente o fogão entra em chamas. Entrei meio em pânico, sem saber bem o que fazer. soltei a patilha de segurança e separei o fogão da garrafa de gasolina dando-lhe um chuto com a bota. enterrei as mãos na terra e comecei a combater as chamas.
Boa! sem suporte e agora sem jantar.
Tudo o que tinha comprado não era comestível sem ser cozinhado. Tinha feito 150 km e essa noite o meu jantar foi uma banana e um pacote de bolachas com muita água. Só falta cair-me uma tarântula durante a noite, pensei. não dormi bem essa noite.

Mas que raio estou eu a fazer aqui, a dormir nesta rede, debaixo desta arvore estranha, no meio dos trópicos, do nada, e com uma bicicleta como meio de transporte?? Porque não faço como toda a gente, e viajo de carro? Ou de avião? A minha mãe sempre me disse que eu era do contra. Talvez tenha razão!
Mas julgo que seis meses depois, estou mais receptivo a dificuldades, estou mais aberto, mais eu próprio. È essa a cena de viajar em bicicleta, è como retirar uma camada de pele a mim mesmo, expondo a carne e expondo-me a mim próprio ao mundo, para que ele se exponha a mim. Na manha seguinte desmonto a rede, retiro os painéis do suporte danificado e coloco as malas dianteiras, uma em cada lado do guiador. A auto-estrada não estava assinalada no meu mapa e não tinha a certeza de onde estava. pensei que, se cortasse para a esquerda no próximo caminho que encontra-se, mais tarde ou mais cedo iria ter à estrada principal, que deveria ser mais ou menos paralela. tinha feito apenas 2 km quando tive um furo. uma das muitas pedras do caminho tinha feito um pequeno corte no pneu. ainda devia trazer comigo alguma energia ou Zen só favorável aos desertos e era necessário adaptar-me com rapidez aos trópicos. A continuar com este azar não ia conseguir chegar a Cancun a tempo de receber a Sereia do Tamisa.

30 km depois, esfomeado, fiz a minha entrada triunfante na cidade de Acaponeta. E o primeiro restaurante que vi, entrei, esperando ansioso que a dona me servisse. Tirei a barriga de misérias com um jantar/pequeno almoço avantajado. comecei com uns ovos mexidos com chouriço picado e chilles e um cesto de tortilhas e um café. Seguido de um bisteck a la rancheira (uma espécie de guisado de carne) e mais um cesto de tortilhas. muitos pratos mexicanos, especialmente nos restaurantes de rua, são servidos apenas com uma colher e acompanhados por um cesto de tortilhas. Com a tortilha na palma da mão, usando a colher, põe-se um pouco de tudo, cerrando primeiro a metade, depois com o dedo indicador, numa das pontas, deixando escorrer o molho primeiro, e volta-se a dobrar mais uma vez. o resultado è uma refeição de consecutivas sandes de tortilha, que requer certa pratica e tempo de aperfeiçoamento. Essa manha não havia tempo! Comi o bisteck à colherada e com a outra mão ia molhando as tortilhas no molho. Pedi mais um cesto de tortillas e pouco depois mais um bisteck e outro café, acompanhado por um "pay queso" (torta de queijo).
A baguete, para desapontamento dos franceses, não è o pão mais comido no mundo. De facto è a tortilha, cujo nome vai mudando com o girar do globo, chapati na índia, pita no médio oriente, etc, etc. Na sociedade mexicana a tortilha tem tanta importância que chega a ser objecto de campanha política. De momento Filipe calderon esta em apuros com a promessa de manter o preço da tortilha abaixo dos 8.5 pesos o kilo.(€0.60/kg)

Depois de muitas voltas pela cidade, encontrei uma oficina que garantiu-me Juarez, o dono, era a única oficina nas redondezas que soldava alumínio. Bueno, faz o que puderes, disse-lhe, mostrando as varias partes do suporte partido e explicando como era a forma original. 7 horas depois mostrou-me a reconstrução, que de facto parecia ser mais forte do que a anterior. Passei a noite na cidade e no dia seguinte voltei à "minha" auto-estrada, para pedalar mais 80 km em paz. Ate que um grupo de trabalhadores me mandou parar. um deles disse: no hay paso! um outro jovem aproxima-se e pergunta se eu sou o ciclista que vem do ártico. A ultima vez que tinha dito a alguem o local de origem desta viagem foi em Mazatlan, a 250 km atrás. As noticias espalham-se como fogo selvagem.
Fiz no total 130 km na "minha" auto-estrada privada.
De regresso a EN200 (ou pan americana), conhecida apenas por "la federal",a realidade foi outra.

A EN200 è a única estrada que bordeia o pacifico, e o trafico varia entre, perigosamente intenso,atè quase inexistente, como è o caso do troço de 250 km no lindíssimo estado de Michoacan, onde a EN200 mais parece uma estrada rural, sem trafico e cheia de buracos... Nesta segunda etapa no México, nos 1500 km que separam Mazatlan de Acapulco, a "carretera costera" levou-me pelos extremos da "cultura de praia", desde mega-resorts, onde os hospedes pagam atè 1000 euros por noite e transitam entre o aeroporto e o hotel em helicóptero, a zonas de turismo mais convencional, e a pequenas praias de surfistas ou a praias com ambiente de viajantes "hippies" ao bom estilo de goa, kopangan ou dahab.
Por entre praias de mega resorts e gettos de surfistas, existem aldeias Mexicanas cujo estilo de vida se enquadra com o clima quente e hùmido da costa do pacifico. A siesta ainda è respeitada pela maioria, e atè das casas mais pobres, o som ensurdecedor da "musica ranchera" preenche o ar com uma alegria quase nostálgica. Sendo uma zona tropical hùmida, os encontros com a fauna local são inevitáveis.

Foi o que aconteceu no dia 183. Tinha montado a rede, mais uma vez, debaixo de uma arvore. Depois do pequeno almoço inicio o meu ritual diário de empacotamento, quando deparo com um escorpião aninhado no lado de fora de uma das malas. Não o matei, pois era eu que me estava a intrometer no seu território e não o reves. Como encontros com aracnídeos não è algo que uma pessoa nutra com facilidade, durante a manha o tema central dos meus pensamentos pedalantes foi o escorpião. E se houvesse outro? Se calhar andam aos pares. Sei lá! Os seus hábitos são-me completamente alheios. Talvez tenha entrado para dentro de uma das malas, ou por debaixo do selim!
Essa idéia pôs inrequieto, pedalava com tal desconforto, que parei a bicicleta. Inspecionei as malas, rasguei uma folha do meu guia pus-lhe fogo e passei-a por debaixo do selim. A burra era minha, e desta vez, era o escorpião que invadia o meu território. Tinha que matar-lo. Afastar-lo dos meus pensamentos.
Segui a minha migração em duas rodas rumo ao sul.

Nssa mesma tarde vejo uma tarântula a atravessar a estrada.
E para quem nao tem a noçao do tamanho do bicho, tirem como referencia a tampa da coca-cola

Dias depois dos meus varios encontros com a fauna local, chego a praia de Ixtapa. Ixpata è uma daquelas praias resort, onde existem todas as facilidades para o turista. Praias idílicas, hotéis 5 estrelas, restaurantes italianos ou de sushi japonês, e para os gringos que tenham saudades de casa, Mac Donalds, starbucks e subways...È o que eu gosto de chamar; turismo em prisões no estrangeiro, e que tento evitar a todo o custo.
Ate ao inicio da década de 70, Ixtapa não era mais do que uma plantação de coqueiros, e Zihuatanejo uma aldeia de pescadores adormecida. Tudo mudou quando a Fonatour (o departamento governamental para o desenvolvimento do turismo) decidiu que a costa do Pacifico necessitava de uma estância turística moderna e mais dinâmica que competisse os complexos turísticos de Acapulco e puerto vallarta. Comprou a plantação de coqueiros, criou as infranstruturas e estendeu a carpete vermelha às cadeias de hotéis de luxos e construtores de condomínios, com casas que passam dos 4 e 5 milhões de dólares.

Mas como tinha lá um contacto, articulado através da Lynn Pilgrim dos EUA, uma forte entusiasta e colaboradora desta aventura, resolvi dar um passeio por là.
A Lourdes era uma mexicana dona de um restaurante italiano, e recebeu-me cordialmente. O que se passou a seguir, foi um pouco surrealista para um ciclista habituado a poeira das estradas. O restaurante/esplanada estava cheio, obviamente de "gringos" milionários. A Lourdes fez questão em me apresentar a todas as mesas, como o ciclista que estava a unir os pòlos em bicicleta. Durante a noite entretive a clientela com as minhas historias de viagem, aproveitando para promover a minha causa: As crianças especiais da APPC Leira. Um casal de gringos, a dar o seu passeio noturno por este oásis de riqueza, parou por momentos escutando-me com entusiasmo. Aceitas donativos, perguntou, assando-me uma nota verde e encrespada para a mão, e seguiu o seu passeio. No final da noite no meu hotel de 100 pesos (7 euros)na praia de Zihuatenajo, 10 km a sul, ponho a mao no bolso e retiro as varias notas que a minha audiência me tinha dado. Uma delas, a encrespada, era de 100 dólares. Nem queria acreditar!!

No dia seguinte, segui viagem. Pedalei todo o dia sobre um sol abrasador que ao meio dia passou a marca dos 40 graus. A t-shirt ensopada colava-se ao corpo, e não a podia tirar porque, nos dias anteriores ao pedalar em tronco nu, queimei o corpo ao ponto de ficar com os ombros cheios de bolhas dágua. Ao final da tarde a "carretera costera" desceu os montes e aproximou-se da costa. De uma das colinas, com o sol a pôr-se sobre a linha que divide o mar do pacifico de um céu avermelhado, avisto uma pequena aldeia de pescadores com meia dúzia de casas feitas em madeira e construídas debaixo da sombra de um coqueiral. Sai da EN200 e entrei pela aldeia, empurrado a bicicleta pelo caminho arenoso ate a praia. Perguntei ao Juan, um pescador, se podia acampar na praia. No hay problema, amigo, respondeu.
Montei a tenda e comecei a cozinhar. Mais tarde vejo o vulto de varias pessoas a aproximarem-se. Era Juan, a sua esposa e os seus 4 filhos. Sentaram-se todos na areia em redor do meu fogão. Partilhei o meu jantar com os filhos uma vez que os pais não aceitaram. Hoje não precisava contar historias para cativar a minha audiência. Bastava que eles me observassem, e para mim, bastava-me a sua presença.

Na manha seguinte acordei com o amanhecer e decidido a chegar a Acapulco. Bati um novo Recorde nesta viagem, com 154 km pedalados em 9.04h, subindo uma das varias encostas que rodeiam a baia de Acapulco, já depois do por do sol.
Acapulco tem uma vibração quase palpável. Trafico caótico, poluição, uma baia lindíssima, turística, violenta, mas com praças cheias de sombra, calmas e serenas. E uma vida noturna, que dizem ser das melhores de toda a costa do Pacifico.
Restam-me apenas maís 400 km pela "carretera costera" atè porto Escondido, o ponto mais a sul, desta minha passagem pelo México. Ai abandonarei o Pacifico, para não o voltar a ver, provavelmente ate El Salvador, e começarei a árdua subida para nordeste, pela cordilheira Sierra Madre Sur, através dos estados de Oxaca e Chiapas, habitados por grupos indígenas, descendentes dos Maias e Astecas.
Nos próximos meses, ate chegar a Colômbia, o meu itinerário será um "zig-zag" por entre as costas do mar das caraíbas e o pacifico, e esta todo ele ainda por definir...


Nuno Brilhante Pedrosa
em Acapulco, México