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6.04.2008

Machu Picchu, Cusco e o lago Titicaca (Peru)

Machu Picchu

Foi uma curta e árdua subida. O nevoeiro matinal não permitia ter a noção da dimensão da gigantesca paisagem que nos rodeava e limitava a nossa visão a escassos metros. Não havia margem para erros, o trilho outrora calcorreado pelos Incas a caminho dos seus campos de cultivo em terraços na escarpada encosta de Waynapicchu eram agora recalcados por milhares de visitantes anuais que subiam ofegantes ao seu topo para obter as melhores vistas das sumptuosas ruínas Incas de Machu Picchu.

Motivados a fugir as multidões ou talvez pela nossa excelente forma física, fomos dos primeiros a chegar ao topo de Waynapicchu. Esperámos no frio húmido da manha que as cortinas de neblina se dissipassem e observámos o espectáculo da natureza que nos rodeava. Machu Picchu era a ultima das 7 novas maravilhas do mundo que me faltava visitar, e ao contrario de Chichén Itzá no México ou do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, Machu Picchu merece sem hesitação esse titulo honorifico, não só pelas ruínas em si, mas principalmente pela sua localização.




O rio Urubamba ao longo dos milénios esculpiu a terra criando um profundo canyon, ziguezagueando entre escarpadas montanhas. Na encosta solarenga de uma delas os Incas construíram mais uma das suas muitas cidades Andinas: Machu Picchu. Construções em pedra esculpida na perfeição, complicados sistemas de irrigação e uma sociedade com ideologias que se assemelham ao socialismo moderno. Uma harmonia perfeita entre o convívio do homem com a natureza. Este " Shangri-La" Andino estava tão bem localizado na "ceja de la selva" que os espanhóis durante a sua longa colonização nunca a encontraram- apesar de terem conhecimento dessa cidade perdida dos Incas.


Passamos outra noite no que deve ser a cidade menos peruana do Peru, Águas Calientes, construída com a exclusiva função de dormitório e refeitório para os milhares de turistas que visitam as ruínas, e regressamos a Cusco pelo mesmo caminho por onde viemos, isto è, caminhando pelas linhas do caminho de ferro até à central hidroeléctrica (10 km) e depois em varias viagens de autocarro até Cusco, via Santa Teresa e Santa Maria.


A forma mais barata de visitar Machu Picchu (60 Soles ida e volta) e quebrando o arrogante monopólio da Perurail, a companhia Chilena que opera o único contracto de transportes entre Cusco e Águas Calientes e que cobram preços proibitivos pelas passagens de comboio- 73 dólares!

Cusco

Os 8 dias que passei em Cusco foram dias de relaxe e descanso. Não estávamos interessados em coleccionar bilhetes de museus ou outras atracções turísticas. A nossa ultima etapa de ciclismo tinha sido extremamente dura, deixamo-nos apenas ensopar pela atmosfera da cidade e dos confortos ocidentais que ela oferece. Apesar de Cusco ser uma das cidades mais turísticas de toda a América do Sul, ainda consegue reter algum do seu charme. È um prazer divagar pelas estreitas e inclinadas ruas de calcada romana (e Inca) e observar a fusão arquitectónica entre o colonialismo espanhol e as construções Incas, muitas delas fundações para edifícios coloniais.



Joseph, um motard Austriaco a viajar pela America do Sul. Hospedaje Estrellita.


De Cusco a Puno

Estava na altura de partir de novo, desta vez sozinho. A Joana iria ter comigo a Puno de autocarro. Estávamos ansiosos por sair do Peru e a Joana havia decidido que o altiplano e a estrada com tráfego intenso não mereciam o labor das suas pernas. A saída de Cusco pela EN3 foi bastante fácil. Um suave downhill de 35 km até Huacarpay continuando num ligeiro sobe e desce quase sempre junto ao rio Vilcanota. Depois da dura etapa entre Ayacucho e Cusco pedalar nesta estrada, que apesar de estar acima dos 3500 metros tem suaves inclinações, foi como "pisar manteiga".

Termino o dia em Sicuani com 141 km no conta-quilómetros. Na simples hospedagem Sr de Huaca onde me alojei conheço o Kiby e a Dasa, 2 ciclonautas Eslovacos já com largos milhares de quilómetros percorridos em varias viagens de cicloturismo. Desta vez numa viagem de 3meses ao Peru, Bolívia e norte do Chile. Passei uma noite muito agradável na sua companhia, regada com cerveja Cusqueña e alguns "shots" de aguardente caseira (69 graus) que o Kiby tinha trazido da Eslováquia e transportava nos seus alforges. Iria voltar a encontrar-los em Puno dias mais tarde.

Na manha seguinte regresso ao alcatrão decidido a chegar a Puno em dois dias (260 km). A estrada sobe suavemente ao passe Abra la Raya, a 4312 metros de altitude è o ponto mais alto no percuso entre Cusco e Puno e a entrada para o vasto altiplano andino que se estende por varias centenas de quilómetros, para alem da fronteira Peruana terminando apenas no sudoeste da Bolívia. Eu e a Joana iríamos pedalar por esse frio e desolado altiplano, situado entre os 3700 e 4000 metros de altitude, durante as próximas semanas.








Pedalar sozinho pelo fria e árida paisagem, com longas e planas rectas e cenário monótono, os dias tornam-se longos e intermináveis, deixando o rabo dormente e a mente entorpecida.
Passei pela cidade de Juliaca, um gigantesco Lego em tijolos de construções inacabadas, caótica e suja, no meio do desolado altiplano. Juliaca foi provavelmente a cidade Peruana mais caótica, feia e desorganizada que conheci. Parecia uma cidade do pós-holocausto, cheia de vida mas sem carácter, ordem ou sentido, e com um numero invulgar de bicicletas-táxis.




Ao terceiro dia e com 400 km percorridos, chego à cidade de Puno, na margem Oeste do lago Titicaca. Puno è pouco mais agradável do que Juliaca. Mais uma cidade Peruana feia, caótica, suja e desorganizada, onde as construções de casas são feitas como se quer (e se pode), sem qualquer planeamento urbanístico, algo tão característico nas cidades do Peru.



Hotéis Peruanos

Cheguei a Puno já de noite. Tinha pedalado 147 km e estava exausto. Subi as escadas do hotel Jesus, o recepcionista informa-me que não tem quartos disponíveis, mas instantes depois disse que havia um quarto vazio que apenas necessitava de ser limpo e que podia alugar por 15 Soles(3.5 euros). A incrível rapidez com que "limpou" o quarto deixou-me desconfiado. Levantei as mantas e uma mancha molhada no lençol sobressai aos meus olhos perplexos. Parecia a "prova do crime" de algum acto sexual recente. Questiono o empregado porque não trocou os lençóis. "A maquina de lavar esta avariada", respondeu com um ar desinteressado. Pedi-lhe que mudasse os lençóis enquanto eu subia os alforges e a bicicleta. Quando reparei que tinha mudado apenas o lençol de baixo, exigi-lhe que muda-se o outro lençol ou não ficaria no hotel. Resignado muda o segundo lençol. Estava exausto e sem vontade de procurar outro hotel. Dormi no meu saco de cama e na manha seguinte mudo de hotel.

O seguinte hotel, cujo nome não me recordo era uma pensão familiar, limpa e com certo carácter. A simpática dona mostrou-me o quarto cujo chuveiro eléctrico não funcionava. Peço à senhora que resolva a situação enquanto eu ia esperar a Joana ao terminal de autocarros. Regressamos ao hotel pela tarde e para nossa surpresa estava fechado! Batemos à porta, insistindo varias vezes. Passado algum tempo, observamos pela janela de vidro da porta, um homem completamente bêbado cambaleando pelo corredor dirigindo-se à entrada. Não consegue abrir o ferrolho da porta e sem dizer uma palavra desiste e desaparece pelo escuro corredor deixando-nos ali plantados à entrada do hotel. Volto a bater na porta e o homem volta a tentar abrir a porta sem sucesso desaparecendo de novo. Estávamos a desesperar. À terceira tentativa, com a ajuda das minhas instruções, consegue abrir a porta e mais uma vez desaparece sem dizer palavra deambulando entre as paredes do corredor. Recolho a minha bagagem e bicicleta e partimos em busca de outro hotel. Desta vez o hotel Inti, por 25 Soles por noite( 3 euros cada um). Este hotel oferecia um quarto decente e duche de agua quente. O que não fomos informados è que as 24 horas de agua quente garantidas no letreiro e pela recepcionista, estavam sujeitas aos humores solares (funcionava a energia solar) e tendo estado uma tarde de chuva, o tão desejado duche teve que esperar mais um dia.
Estava na hora de sair do Peru!

Nas 108 noites que passamos no pais, 26 foram na nossa tenda em campismo ao acaso sem quaisquer problemas, 22 em casas de famílias que nos acolheram e as restantes 60 em hotéis. "Hotéis" baratos nos mais variados estados de existência, hotéis limpos e hotéis sujos, hotéis com carácter e hotéis barulhentos, hotéis sem electricidade ou agua canalizada, hotéis com chuveiros eléctricos que dão choque, hotéis em que a recepção e os seus sofás ali presentes estavam criativamente forrados com embalagens de papel higiénico "suave", a versão Peruana de Scottex. e uma vez até um quarto de hotel sem porta!
O conceito de hotel (barato) Peruano parece resumir-se a um espaço entre quatro paredes (pintadas ou por pintar), um tecto e uma cama, cuja função è apenas de proteger o hospede dos elementos da natureza.

Em redor do lago Titicaca

Planeávamos entrar na Bolívia pela remota fronteira de Puerto Acosta, contornando o lago Titicaca pelo lado Peruano a Norte e posteriormente a Este passando por Taraco, Huancanè, Moho e Tilali. Uma rota completamente fora do circuito turístico, com muito pouco tráfego e da qual tínhamos pouca informação. Segundo o nosso guia, não existia posto de imigração nessa fronteira, portanto tínhamos que carimbar os passaportes em Puno ( carimbo de saída do Peru) e sabe-se lá onde no lado Boliviano, talvez apenas na capital La Paz, a 420km de Puno.

A jovem rapariga do posto de informação turística de Puno desaconselhou-nos essa fronteira por causa da actividade contrabandista e dos confrontos desses com as forças policiais. No entanto o departamento de emigração em Puno não pôs nenhuma objecção ao nosso itinerário e -a nosso pedido- carimbou os nossos passaportes com o selo de saída com 4 dias de avanço, o tempo que julgamos necessitar para chegar à fronteira.

Saímos de Puno pela manha sob um céu azul e sol forte pedalando pela estrada norte que em partes estava obstruída com vidros e pedras grandes. Havia um "Paro", greve, na cidade e as estradas estavam bloqueadas ao tráfego. A população local reclamava as grandes subidas dos preços dos alimentos básicos. Só o arroz, como nos contou um comerciante, tinha subido cerca de 60% nos últimos 3 meses. Por estas bandas (e em particular na Bolívia) a forma mais comum de protesto è bloquear as vias publicas, algo que cicloturistas acolhem com entusiasmo. Foi um prazer pedalar essa manha sem o ruído dos carros.


Ao final da tarde chegamos à península de Capachica e as margens do lago de Titicaca, onde acampamos com excelentes vistas para o lago sagrado dos Incas. O lago Titicaca a 3812 metros de altitude è o lago navegável mais alto do mundo e local de nascimento, segundo a lenda, da civilização Inca na isla del sol . Com 204 km de comprimento e 65 km de largura, esta massa de azul marinho dá vida ao vasto e seco altiplano. Nas margens do lago ainda se vive segundo as culturas quechua e aymara cujos costumes e tradições pouco mudaram ao longo dos séculos.






Aldeia de Moho

Com o aproximar da fronteira o tráfego ia diminuindo e depois de Moho, de facto, não passou um único veiculo por mim. Ao quarto dia chegamos à pequena aldeia fronteiriça de Tilali, abrigada numa pequena baía onde passamos a nossa ultima noite no Peru.


Fronteira Janko Janko



2 km a sul de Tilali por um caminho de terra batida encontra-se o posto fronteiriço Peruano. Uma pequena casa ocupada por 2 oficiais e um pau de madeira de madeira no caminho para obstruir a passagem. Paramos para mostrar os passaportes e um pouco de conversa com os simpáticos aduaneiros, que nos contam que o único movimento que parece existir naquela fronteira era à quarta-feira e domingo, dias da feira de contrabando no cerro Janko Janko a 2 kms dali onde se situava a verdadeira fronteira. O resto da semana não havia vivalma, contaram. O mercado de contrabando è maioritariamente de mercadorias baratas Bolivianas, incluindo gasolina já que o Peru tem os preços de combustível mais elevados da América do Sul.

2 kms de subida bastante acentuada e chagávamos ao cerro Janko Janko. Um obelisco assinalava a divisão entre os dois países e um aglomerado de casas de pedra vazias confirmavam a existência desse mercado bi-semanal. A Oeste o imenso azul do lago Titicaca. Não havia vivalma nos arredores. Paramos durante bastante tempo a contemplar a beleza da paisagem e o silencio absoluto. Esta era a fronteira (legal) mais calma e tranquila que alguma vez atravessei nas minhas viagens. Tínhamos acabado de dar as ultimas pedaladas no Peru e estávamos ansiosos por desvendar outro pais nesta viagem.




Hasta la vista Peru!

O Peru tinha sido o país mais difícil da viagem até ao momento. È um país de fortes contrastes, intenso e de grandes desafios. Ofereceu das paisagens naturais mais bonitas de toda a viagem, em especial dos seus impressionantes canyons, vales profundos e cordilheiras brancas. A cordilheira Andina Peruana proporcionou grandes desafios físicos para cicloturismo. Mas foi o factor humano que maior desafios ofereceu.

As cidades Peruanas -excepto as Plazas de Armas e centros históricos- são caóticas, sujas e autenticas aberrações arquitectónicas, insultos a beleza da paisagem que as rodeia. Os encontros no percurso, principalmente mas zonas rurais, foram intensos e cansativos e a comunicação limitada. Os "buenos dias" na rua ou o "buen provecho" nos restaurantes ficavam, muitas vezes, sem resposta, os jovens eram muitas vezes intrusivos e a sua curiosidade invadia a nossa privacidade mais do que parecia ser aceitável pelo senso comum, e o abusivo piropo à Joana eram uma constante mesmo quando eu pedalava ao seu lado.

Conhecemos também muitas pessoas maravilhosas, algumas delas acolheram-nos em suas casas e partilharam da sua amável e sincera hospitalidade. Momentos que recordamos com muito carinho. Mas não deixo de sentir que a paisagem humana no Peru è como a sua paisagem morfológica com altos que te permitem ver coisas únicas e te fazem sentir privilegiado e os baixos, onde te sentes cansado e onde nada do que observas te agrada. E ao contrario de Cuba ou Colômbia, onde o factor humano foi o impulsionador das minhas pedaladas, no Peru foi o espectáculo paisagístico que compensou toda a dureza física e humana.

Ao escolher a bicicleta como meio de transporte, estou por opção, a expor-me ao meio e a aproximar-me dos seres que povoam a paisagem que vou percorrendo. Mas no Peru os contrastes humanos aos quais estive exposto, lembraram-me o quão altas podem ser as barreiras sociais e culturais e o quanto esses factor influencia como desfrutas do país. Com mais um carimbo de saída no passaporte, resta-me apenas dizer:
Hasta la vista Peru!!!

Nuno Brilhante Pedrosa
La Paz, Bolivia.

5.27.2008

De Ayacucho a Cusco (Peru)

Por la verdad e la justicia

Na esquina da avenida Agustin Gamana com a avenida prolongação Jr Liberdad, na periferia norte da cidade de Ayacucho encontra-se o "Parque de la Memoria" em cujo centro se ergue uma escultura metálica com três faces que representam o passado presente e futuro dos Ayacucheños, ou habitantes do departamento de Ayacucho.

O passado: O rosto vendado de uma pessoa a gritar, uma foice e enxada, uma granada do Sendero Luminoso e a espingarda das forças armadas e policiais.
O presente: a balança judicial reclinada, caveiras e ossos das vitimas da violência e um livro aberto onde se lê:"la verdad se sigue escribiendo".
E o futuro: uma espingarda partida em cujo o centro nasce uma planta, uma pomba a voar e duas mãos unidas em sinal de reconciliação.

O departamento de Ayacucho foi uma das zonas mais afectadas pelo conflito armado interno que se viveu no Peru de 1980 a 2000 entre o grupo guerrilheiro pro-marxista Sendero Luminoso e as forcas de segurança do governo Peruano, este conflito deixou um saldo de cerca de 60.000 mortos e muitos milhares de desaparecidos, violados, torturados, na lista de violacoes dos direitos humanos.

Caminhos Incas

Pedalávamos monte abaixo, monte acima, por uma das regiões mais remotas do pais onde o alcatrão ainda não chegou e a estrada principal é apenas um conjunto de caminhos rurais não assinalados num estado de deterioração tão avançado que me deixava a questionar se não seriam os restos dos verdadeiros caminhos Incas, afinal de contas dirigiamo-nos para Cusco e Machu Picchu, o centro desse grande império sul americano.

Nesta parte do Peru as montanhas andinas são cortadas por inúmeros canyons, criando vales profundos e dificultando a construção de estradas. Dia após dia, durante quase duas semanas rompemos por esses vales profundos e passes frios e desolados, subindo e descendo montanhas impiedosamente, levando quase ao limite os nossos esforços físicos e mentais.






Tínhamos acabado de atingir mais um passe acima dos 4000 metros de altitude. Recordei-me da minha felicidade ao atingir os 2500 metros na encosta de uma cratera no parque nacional de Yellowstone nos Estados Unidos, quase há 2 anos atrás. Agora, já lhe perdi o conto ás vezes que pedalei acima dos 4000 metros.

Antecipávamos o downhill, a recompensa depois de uma árdua subia e do êxtase de atingir o passe. Mas surpreendentemente, o downhill de 50 kms iria levar-nos 2 dias a fazer. O caminho estava tão deteriorado que nos obrigava a descer a velocidades pouco superiores ás da subida. A Joana a certo ponto desmonta e empurra a sua "Marina" na descida para aliviar as dores nas mãos de tanto travar e o desconforto do selim, causado pelo saltitar da burra ao desviar-se das pedras, buracos, calhaus, areia e outros obstáculos, e também para poder retirar os olhos da estrada e contemplar a paisagem andina. Noto o sofrimento físico e mental nas expressões da sua cara.









Estávamos bem longe das planícies e das ferias idílicas de cicloturismo que tínhamos feito juntos o ano passado quando me acompanhou por duas semanas no Yucatan, México por paisagens completamente planas. A sua primeira viagem de cicloturismo foi a fonte de inspiração para viajar nos Andes. Mas aqui no coração das montanhas mais elevadas do continente a realidade era outra. Apetecia-me gritar-lhe e pedir perdão em nome das montanhas e prometer que em breve iria ser mais fácil. Mas sabia que não. A próxima viagem iremos pedalar para as planícies alentejanas, prometo!

Depois da tortuosa descida (sim, descida!), veio outra subida, mais 45 kms de estrada de calhau rolado que nos levou outros 2 dias a fazer. O suor criado pelo esforço físico acrescido ao calor que se sentia no fundo dos vales, escorria o repelente pele abaixo expondo a carne aos minúsculos inimigos que nos perseguiam o tempo todo, os mosquitos.
Cada dia terminado em completa exaustão.



Mira, Gringo...Gringo!!!

Os caminhos de terra e pedra entre Ayacucho e Abancay atravessam uma zona remota do Peru, esquecida pelo governo central, onde poucos estrangeiros se aventuram, como consequência, os poucos que por ali passam são fonte de grande curiosidade por parte da população indígena local. Por vezes os encontros eram tão surrealistas que nos faziam sentir como dois marcianos em bicicletas.

A passagem por uma aldeia cujas casas em adobe pareciam extencoes da "Pachamama", terra mãe, moldadas em forma rectangular onde cujos habitantes , muitos deles, ainda vivem sem electricidade ou agua potável. A mão no travão e pé no chão em frente á única "tienda" da aldeia, implicava o confronto com uma multidão de crianças e adultos curiosos. Antes da nossa chegada, com o aproximar das burras, a palavra "Gringo" percorria o ar vinda de todo o lado, como se fora o chamamento para algum evento social na Plaza de Armas da aldeia. Depois vinha o silencio e o olhar incrédulo das crianças. Comprávamos alimentos e agua para a noite e partíamos em busca de um lugar para acampar. Com o afastar das bicicletas a palavra "gringo" voltava a ouvir-se, cada vez mais forte.

Numa ocasião uma criança que não aparentava mais de 2 anos, ao colo da mãe á beira da estrada, grita de pulmões cheios:"gringo! gringo!". Provavelmente ainda não falava Castelhano, mas já conhecia a palavra "gringo". Noutra ocasião um grupo de agricultores trabalhando a terra gritaram á nossa passagem: Gringo! Gringo! ao mesmo tempo que vários torrões de terra voaram acima da minha cabeça. O som da palavra gringo estava a tornar-se tão difícil de ultrapassar como uma boa subida. Como é que esta palavra se propagou tanto aqui nas montanhas andinas Peruanas tão longe do seu lugar de origem?

Segundo me contou um amigo mexicano em Puerto escondido, a palavra "Gringo" deriva da guerra México-Americana de 1846-1848, quando as tropas americanas chegaram é cidade do México nos seus uniformes verdes e foram confrontados com protestos da comunidade local que gritava: "Green go home", "Green go!". Desde então que a palavra gringo se popularizou entre a América latina como uma forma de identificar os Americanos, mais tarde generalizada a qualquer estrangeiro.

Essa expressão tem me acompanhado ao longo dos meses, mas em nenhuma outra parte da América latina a ouvi com tanta frequência e forte entoação como nesta etapa. Apesar de normalmente não haver aparente maldade no contexto da palavra, por estas bandas, reflecte um pouco o ressentimento que existe pela continua exploração dos recursos naturais (ouro e afins) pelas multinacionais estrangeiras. Ciclonautas são os viajantes mais expostos á realidade local e como consequência os mais vulneráveis a irritação que a palavra pode provocar. Tenho conhecido mochileiros a viajar no pais que por viajarem de autocarro de cidade em cidade e ficarem apenas em hotéis recomendados pelo Lonely Planet, quase que não ouvem a palavra Gringo, sorte a deles!

A "vingança de Atahualpa"- versão Peruana inventada pela Joana para a sua diarreia e febre, obriga-nos a parar por um dia na aldeia de Chincheros, a primeira aldeia com alojamento depois de 6 dias de viagem. Altura também para descansar das árduas subidas e para trocar os toalhetes de bebe por um duche de verdade! Foram ainda mais 5 dias de sobe e desce e 180kms ate alcançar o alcatrão 18 kms a sul de Abancay, cidade onde chegamos já pela noite dentro.

Regressar ao alcatrão foi um grande alivio para a mente, mas não o final das subidas. Depois de Abancay a estrada sobe 1500 metros impiedosamente durante 35 kms num ziguezague constante que termina apenas no passe de abra Sorllaca a 4000m de altitude, onde acampamos com excelentes vistas para os nevados de Salcantay. E com mais uma descida ao canyon Apurimac e uma outra subida, chegamos finalmente á muito antecipada cidade de Cusco. Esta etapa de 600 kms com mais de 10.000 metros de desnível acumulado, com 7 passes, 4 deles acima dos 4000m, foi sem duvida a mais dura da viagem até ao momento.

Casa Hogar los Gorriones

Tinha ainda fresca na memoria o sorriso das crianças especiais da casa Hogar los Gorriones. Do Ebersom do Fermin do Luís e de tantas outra crianças do orfanato de Ayacucho onde a Joana trabalhou como voluntária durante 3 semanas. A tristeza e dor nos olhos do Gil, responsável pelo orfanato, na hora da nossa despedida causada pelo sofrimento em saber que em breve a sua esposa, "mãe" das 35 crianças do orfanato, iria deixa-los por um cancro no fígado. Viemos a saber do seu falecimento dias depois através de um e-mail.

O Gil e a Chantal são um casal Franco-Belga que dedicam as suas vidas ás 35 crianças do orfanato Hogar los Gorriones criado por eles em 2002. Uma historia heróica cujos protagonistas transformaram a vida a essas crianças dando-lhes um lar, uma família e uma razão para viver. Muitas das crianças são crianças especiais com paralisia cerebral e outras deficiências neurológicas, rejeitadas pelos pais, algumas foram encontradas em caixotes do lixo, na rua ou em casa de famílias a viver com os cães, como foi o caso do Fermin. São historias tristes e reais de muitas crianças Peruanas e historias de esperança que marcaram a minha passagem por Ayacucho. A ajudar-los, uma equipa de voluntários de todo o mundo na qual a Joana participou sentindo bem mais de perto a realidade dessas crianças. Poderão saber mais detalhes dessas realidades na sua próxima cronica em movimentos constantes.

Na hora da despedida a Joana organizou um pequeno lanche e uma mostra de slides da nossa viagem, na qual eu participo mostrando pecas do nosso equipamento ás fascinadas crianças. Uma realidade diferente da deles que quisemos partilhar. Os breves momentos que por ali passei refrescaram-me o espírito e enriqueceram-me a alma. Viajar em bicicleta não é só subir montanhas, desbravar estradas incógnitas ou observar paisagens idílicas, é também sentir de uma forma mais intima a realidade da vida das pessoas com quem nos cruzamos.

Amanha iremos visitar as ruínas da citadel de Machu Picchu, uma das maiores atraccoes turísticas não só do Peru, mas também de toda a América Latina e o ponto alto da viagem para muita gente. Para mim um dos pontos altos desta árdua etapa foi o sorriso estampado na cara dessas crianças.





Relembro que esta viagem não é só minha, mas também das crianças especiais em particular as da APPC de Leiria com as quais dou pedaladas solidarias. Se deseja participar nesta viagem e ajudar as crianças especiais pode fazer-lo contactando a APPC-Leiria ou através deste site, detalhes no link da caridade.

Nuno Brilhante Pedrosa.
Cusco, Peru.