6.17.2007

San Juan Chamula (Mexico e Guatemala)

Dia 312
Km 18042


Desde os tempos pré-hispânicos que os Chamulas são conhecidos como um povo de carácter corajoso e lutador. Descendentes dos Maias Tzotzil tentaram ao longo dos anos resistir a envagelização da cruz dos missionários espanhóis tentando manter os seus costumes pré-hispânicos. O resultado foi uma eventual fusão das duas religiões com praticas religiosas únicas, cujo centro religioso è San Juan Chamula. Uma aldeia a cerca de 15 km a norte de San Cristobal de las Casas, nas montanhas do estado de Chiapas. Na pequena igreja de San Juan Baptista caiada de branco com um colorido arco e portal em pinho maciço, junto à praça principal da aldeia, não è efectuada uma missa desde que os últimos missionários espanhóis abandonaram a igreja no SEC XVIII. Desde então que a igreja è governada por ´curanderos`.

Centenas de velas acesas no chão, nuvens de incenso, devotos fieis com as cabeças reclinadas para o chão coberto de uma carpete de caruma verde e fresca de pinheiros, curandeiros cantam rezas tradicionais Maias, enquanto que santos cristãos emblemados com vestes sagradas e encasulados em compartimentos de vidro, observam imóveis toda esta poderosa atmosfera religiosa. São João Baptista è reverado acima de Jesus Cristo e a sua efige têm um lugar de destaque acima de todos os outros santos sobre o altar. Devotos fieis colocam oferendas juntos aos santos, frutas, comida ou até cigarros e coca-cola, enquanto que curandeiros purificam as suas almas com ovos e ossos de animais. A ocasional galinha pode ser sacrificada em situações mais especiais. Uma versão mais "moderna" do antigo costume Maia de sacrifícios Humanos. "Café com leite" foi a simples descrição de um local quando o questionei acerca destas praticas religiosas únicas. A fusão de dois ingredientes deliciosos que resultou na criação de um sabor novo e único. De facto, nos dias seguintes, ao viajar pelas montanhas da Guatemala iria descobrir que essas praticas religiosas não eram únicas a San Juan Chamula. Em pequenas aldeias Maias nas terras altas guatemaltecas "café com leite" também è ingerido em versões ligeiramente diferentes.

A "vingança de Montezuma" obrigou-me a descansar por uns dias em San Cristobal de las Casas. Montezuma era um Deus Asteca, e a sua "vingança" è uma expressão usada para descrever aquele desarranjo intestinal desgastante que ataca mais tarde ou mais cedo quase todos os visitantes por estas bandas: diarreia!!!

Ao sexto dia já recomposto parti de novo rumo ao sul. Dois dias de viagem com uma descida acentuada em altitude - consequência de uma falha na cadeia de montanhas da sierra madre sur, cujo downhill pareceu terminar apenas com uma travagem para as formalidades da alfândega - e estava de novo em território guatemalteco.
De La Mesilla a Quetzaltenango são uns ineterruptos 80Km numa suave subida a 3% 4%. A estrada acompanha o rio San Juan, no fundo de um estreito vale com verdes e altas montanhas de ambos os lados.


Junto à estrada, mulheres Maias Mam e kìchè tomam conta de rebanhos de ovelhas ao mesmo tempo que fabricavam artesanalmente coloridas chamaras de la.. È nesta zona de altas e férteis montanhas que vive a maioria da população guatemalteca, grande parte dela indígena Maia. As temperaturas amenas e vistas lindíssimas proporcionavam um excelente dia de ciclismo. O pavimento era relativamente novo mas o trafico acentuado e caótico. Autocarros param bruscamente - ao levantar de um braço - em lugares inesperáveis, camiões ultrapassam em curvas fechadas e motociclistas metem-se por onde houver espaço.Uma das diferenças de maior relevo ao atravessar a fronteira, são os hábitos de condução que parecem decrescer em proporção ao tamanho das viaturas.
Na Europa, afrouxar ou mesmo parar por detrás de um ciclista- caso venha um automóvel de frente- è uma cortesia relativamente comum. Caso o ciclista encoste à berma, seria parte dessa cortesia, levantar o braço assinalando alguma forma de respeito pelo ciclista. Na Guatemala se não encostares à berma és muito provavelmente atropelado. E mesmo que saias do caminho levas nos ouvidos com varias buzinadelas do condutor, como que a dizer que encostaste à berma porque è esse o teu lugar no universo como ciclista. Isto è particularmente verdade com os condutores de autocarros.
A frota de autocarros guatemaltecos - conhecidos pelos turistas como "chicken-buses", ou autocarros de galinhas, pelas espécies avésticas que por vezes são transportadas ao lado de passageiros, no tejadilho, junto à caixa de mudanças, ou em qualquer lugar onde houver espaço- são quase todos clássicos e antigos autocarros escolares americanos pintados de forma colorida, com vários santos "protectores" pendurados em redor do condutor e baptizados com nomes sugestivos tipo: "El volador", " El rapido", "Guianos señor", ou "aguila de la calle".

Musica latina a bom som e 4 ou 5 pessoas sentadas num banco de 2, só ajudam ao ambiente festivo. Toda a experiência desta atmosfera de uma viagem num "autocarro de galinhas" è semelhante a um bom evento social Guatemalteco.
Aos olhos de um ciclista - que por estas bandas, ter um bom espelho retrovisor è tão importante como ter travões- esses kamikazes das estradas guatemaltecas parecem conduzem sobre o efeito de anfetaminas e sofrer do síndroma AEAE: ao som da minha buzina fujam!, pois eu Atropelo Embato Atravesso e Esmago com o meu autocarro.
Regra numero um; fugir não só do caminho mas também do raio de visão do condutor.Qualquer outra regra è puro suicídio.

Passei a noite na caótica cidade de Huehuetenango e no dia seguinte continuei a minha ciclo-deambulacao pela estrada Pan Americana. A CA-1, como è conhecida na Guatemala, sobe aos 2700 metros de altitude para depois iniciar a sua descida para um enorme vale protegido a sudoeste pelo vulcão Santa Maria e a nordeste pelo sumptuoso vulcão Tajumulco, cujo topo eu iria subir dias mais tarde.

Por todo o lado avistavam-se inúmeras plantações de milho, o vegetal com mais importância na agricultura e cultura guatemalteca, considerado como o elo de ligação entre as forcas cósmicas os Deuses e o Homem.
A subida ao ponto mais alto de toda a América central foi bastante dura até para as minhas pernas habituadas a longas horas de exercício. Deixei a Burra no quarto que aluguei numa pousada em Quetzaltenango e embarquei em varias viagens em "autocarros-Galinha" até ao local de inicio de caminhada a 3000 metros de altitude. Num longo dia de caminhada ascendemos aos 4000 metros onde montamos acampamento no final da linha da vegetação e inicio do cone pedregoso e quase perfeito do vulcão inactivo de Tajumulco.

No dia seguinte, às 3.30 da madrugada iniciamos o ataque final até ao cume do vulcão a 4220 metros. A sensação de naquele momento ser-mos as pessoas mais altas de toda a América central, de sermos os primeiros a receber os primeiros raios de sol de um novo dia, juntamente com as deslumbrantes paisagens que se avistavam, foi fascinante. As vistas eram simplesmente incríveis, com um vulcão para o lado norte no lado mexicano, a oeste o vulcão Santa Maria e para sul avistavam-se os picos de vários vulcões que terminavam com o vulcão D`Água a mais de 100 km de distancia.

A descida foi mais suave nos pulmões, mas mais dura nas pernas. Mas o esforço físico era recompensado pelas lindíssimas vistas e também pelo facto de saber que os 40 dólares que paguei à quetzaltrekkers pela organização da caminhada iam todos para a "escuela de la calle", uma organização sem fins lucrativos que dá educação e refugio a crianças sem tecto.

As crianças na Guatemala têm uma existência bem diferente das crianças no mundo ocidental. Desde bem pequenas que são introduzidas ao mundo laboral e não è incomum ver um garoto com 7 ou 8 anos a carregar às costas um molho de lenha com o volume de metade do seu tamanho ou uma garota de 6 ou 7 anos a lavar roupa num riacho junto à estrada ou uma jovem de 10 anos a assomar controle de uma loja de mercearias enquanto carrega o seu irmão mais novo às costas suspenso por um pano que mantém o jovem confortavelmente "preso" às costas da irmã.

Uma forma tradicional dos indígenas da região de transportarem os seus filhos e poderem trabalhar ao mesmo tempo.
A Yolanda, uma indígena Kìchè, empregada da simples hospedagem onde me alojei em quetzaltenango- a segunda maior cidade guatemalteca e relativamente moderna- è mãe de 3 filhos e gravida de um quarto aos 26 anos.Considera-se uma indígena moderna. Vem de uma família de uma aldeia perdida nos montes circundantes, e è a mais jovem e única mulher de uma família de 13. Contou-me, como os pais à noite junto à lareira destinavam a cada um dos 13 filhos as tarefas a cumprir no dia seguinte. Contracepção não era aceite pelos homens e estudar - pelo menos para as raparigas - era simplesmente impensável. Foi com a cumplicidade da sua mãe que aprendeu, secretamente, a ler e a escrever numa escola que ficava a uma hora de caminhada para cada lado da simples casa de chão em terra batida onde viveu.
No outro lado do oceano um grupo de gravatas Gucci sentadas em poltronas de uma sala aclimatizada discutem as violações dos direitos humanos na Guatemala. Trabalho infantil è sempre um dos tópicos principais.

Estava na altura de partir de novo. Fiz-me à estrada.
Um "túmulo", nome dado a - por vezes enormes - lombas de cimento colocadas na estrada para controle de velocidade- obrigou-me a travar. Junto a ele num lugar obviamente estratégico, uma jovem rapariga de 8 anos vendia fruta, manga e ananás cortado e enfiado um sacos de plástico.Era o seu negocio. 5 Quetzais por saco(0.50 Euros). Comprei dois e segui viagem.
Dias depois estava a chegar ao lindíssimo lago de Atitlan, promovido, justificavelmente, pelo departamento de turismo guatemalteco como "o lago mais bonito do mundo". Pode não ser o mais bonito do mundo, mas è concerteza doo mais bonitos que os meus olhos alguma vez viram. Os 8 km de ¨downhill`de Sololà a Panajachel são simplesmente lindos. A estrada desce até às margens do lago, uma gigantesca caldeira vulcânica que colapsou milhões de anos atrás, rodeada de montanhas por todos os lados e com 3 "novos" vulcões inactivos na sua margem a oeste. Varias aldeias - todas com nomes de santos, excepto Panajachel - situam-se nas suas encostas, algumas delas apenas acessíveis de barco.

Encontro-me numa delas, San Pedro, na encosta do vulcão com o mesmo nome, e de momento mais uma vez a debater-me em relação ao rumo a tomar. a Próxima fronteira fica apenas a 3/4 dias de pedalada. Honduras ou El Salvador?
O Jeff, um ciclista que conheci meses atrás no deserto da Baja California, vem a caminho das terras altas da Guatemala, talvez deva esperar por eles para decidir nas próximas pedaladas a dar...

Nuno Brilhante Pedrosa
Em San Pedro Atitlan, Guatemala.

1 comment:

HaroMan said...

A julgar por este vídeo que encontrei, deve dar vontade de ficar por aí uns dias. http://www.youtube.com/watch?v=DSygSWEyji4