8.10.2006

Dempster Highway (Canada)


A Dempster highway,ou mosquito highway como eu prefiro chamar-lhe atravessa a vasta zona selvagem do artico Canadiano.Como etapa inicial desta aventura pela Pan Americana nao foi nada facil,apesar dos numeros nao o indicarem.Fiz 825Kms em 10 dias, sem dia de descanco.Um pouco apressado por as distancias entre postos de abastecimento serem enormes,tive uma etapa com 369 Kms sem nenhum sitio para comprar comida,o ideal seria ter-la feito em 15 dias para poder contemplar melhor a paizagem e a natureza.

Os primeiros 150 Kms de Inuvik ate ao rio mackenzie(travessia de ferry durante o curto verao,ponte de gelo durante o resto do ano)foram os menos interessantes. A Dempster rasgava pelas planicies articas atravessando zonas patanosas que fazem parte do gigantesco delta do rio Mackenzie,o 3* maior do continente americano a seguir ao amazonas e ao mississipi, e o 10* do mundo. Para alem das aves migratorias e dos zelioes de mosquitos nao se via muita vida animal.
Acampei na segunda noite junto ao red artic river, do outro lado do rio avistava-se a pequena aldeia de Tsiigehtchick com os seus cerca de 160 habitantes nativos gwich'in.A partir dessa aldeia a Dempster nunca mais parou de supreender com uma constante mudanca de paizagem cada 40/50 Kms.A paizagem passava de tundra artica com caribus no horizonte a montanhas nuas e rochosas,vales verdejantes lagos rios.A natureza no seu absoluto explendor,sem ser perturbada pelo homem.

Os northwestern territories Canadianos sao uma das partes habitadas do planeta com menos densidade populacional por Kms/2,e ou poucos habitantes que tem sao de descendencia aborigena, esquimos,gwich'in ,inuit,etc.O governo canadiano de uma forma quase ironica proteje esses grupos minoritarios estabelecendo concessoes de territorios a essas minorias,chamadas "first nation people",criando zonas autonomas no norte do canada algumas maiores do que portugal,alegando que sao as suas origens e que devem ser perservadas.Parece-me bem.Mas julgo que na verdade essas zona foram as zonas nao de origem mas as zonas de "refugio" a extreminacao colonalista,onde os colonos nao se aventuravam (a nao ser pelo ouro!) devido ao rigor do clima e do relevo.
Proxima paragem foi fort Mc Pherson a unica aldeia em todo o percurso da Dampster com supermercados(se e que assim se podem chamar),cheguei tarde ao por do sol,era cerca da uma da manha,com tudo fechado acampei junto a entrada da aldeia.No dia seguinte enchi as malas com comida para 6 dias,um pequeno passeio pela aldeia,chicotiei a "burra" e trotei pela estrada saibrenta rumo a sul. Ia carregadissimo e a brita solta da estrada por vezes fazia-me perder o equilibrio,fui ao chao algumas vezes mas sem danos.
O trafico intencificou-se de uma carrinha de caixa aberta(os unicos carros por estas bandas) cada 2/3 horas para uma cada 30/40 minutos,estava a aproximar-me de midway lake ,um descampado onde nesse fim de semana iria tornar-se num acampamento para o festival de music indigena dos "first nation people".Os locais estavam ocupados com os preparativos do evento,montando tendas fazendo fogueiras e construindo "cabins",pequenas casa de madeira com espaco para duas camas e uma lareira,para alugar aos turistas por 20 dolares por noite.Gostava de ter la passado o fim de semana,mas estava com receio de nao ter mantimentos suficientes para todo o percurso.
Os Kms que se seguiram foram dos mais duros da viagem,subia e descia colinas com inclinacoes que chegavam aos 12%,uma apos outra.E cada vez que parava para limpar o suor da cara apareciam os meus fies amigos de viagem:os mosquitos,em exercitos.Coordenados pelos generais,os moscardoes,que apareciam sempre em menor numero,seguidos pelos zelioes de soldados avidos de sangue,das mais variadas especies.Existem cerca de 40 especies de mosquitos no artico canadiano.O mais comun era o que eu chamava de dentes com asas e havia tambem o mosquito invisivel,aquele que pousava, picava, chupava e desaparecia sem deixar rasto,so sentia a comixao quando era tarde de mais.Cheguei a pensar que preferia que se me acabasse a comida do que o repelente para insectos.O meu 2 em 1 (protector solar e repelente) era bastante eficiente mas o suor do corpo escorria o creme da pele,e cada vez que punha um pe no chao tinha que me besuntar de novo antes de ser atacado.
Ate lhes dediquei cantigas durante a viagem numa tentativa em vao de os afastar com a minha voz tremula e aguda.

Numa dessas colinas avistei a placa que anunciava que estava sobre a linha do circulo polar artico.Esqueci-me dos mosquitos e contemplei o local quase de uma forma reverente.Ha muito que sonhava com a passagem por este local,senti a distancia e a isolacao do espaco.....uma alegria enorme apoderou-se de mim...ganhei energia para enfrentar as ultimas colinas ate chegar a eagle plains.O dito segundo posto de abastecimento que nao passava de um "lodge" com uma oficina,uma gasolineira,um motel , um restaurante,mas nada de merciarias.havia 8 habitantes no que estava assinalado no meu mapa como "aldeia".
Almocei no restaurante e negociei com o cozinheiro a compra de alguns legumes frescos,3 ovos leite, pao ,um pedaco de carne e segui viagem.Nesta parte da Dempster podia observar inumeros animais,caribus,aguias, falcoes,aves migratorias,doninhas mas maiores que as nossas,e e claro:os ursos!
Foi nesse dia que tive o meu primeiro encontro com essas criaturas,tinha acabado de passar o glaciar creek quando deparo com duas crias a brincar junto a estrada ensaibrada e poeirenta,parei a cerca de 80/100 metros a contemplar-los.A pouca distancia metida na tundra estava a mae.Estive cerca de uma hora a observa-los e tambem a espera de uma opoturnidade de poder seguir.
O vento soprava de este para oeste,do meu lado para o lado da mae,sabendo que isso nao era favoravel decidi esperar ate que as crias se afastassem a uma distancia segura.

O meu coracao palpitava de contentamento e exitacao mas tambem de receio e medo,ja tinha tirado o travao de seguranca da botija de gas "anti-ursos" que me foi oferecida por uma ciclista em inuvik( http://www.rideon2006.blogspot.com ) e que nunca esteve a mais de um braco de distancia durante toda a viagem caso as coisas correcem para o torto,quando passa uma carrinha com dois jovens gwinch'in.Ao verem as crias pararam e recuaram a carrinha ate ao pe de mim.Ofereceram-se para me dar boleia dissendo que corria perigo ali tao perto dos ursos.As crias sao muito curiosas e mais tarde ou mais cedo vao aproximarsse de ti,disseram.Tu nao queres ver uma ursa mae chateada,man!.
Nao conseguia julgar se estava mesmo a correr perigo ou se estes jovens nativos estavam apenas a ser cordiais comigo.Mas a sua preserverancia convenceu-me.Ainda nao decidido a por a "burra" num veiculo motorizado decidimos que eu iria pedalar ao lado da carrinha ate uma distancia segura.nao tardou ate que as uma das crias tomasse a minha direcao.Apressadamente pusemos a Kona (Kona fire mountain e a marca da bicicleta) na carrinha e afastamos-se deixando um rasto de poeira a pairar no ar.
Deixaram-me a cerca de um Km depois,despedi-me deles agradecendo e segui viagem.

A Dempster highway comecava a sua subida para a cadeia montanhosa de ogilivie,subindo suavemente ate ao north fork pass,a 1289 metros o meu primeiro da viagem e nao muito alto comparado com o que me espera la mais para sul.no entanto a latitude faz que as temperaturas baixem dramaticamente e no cole estavam 8 graus comparado com os 26 graus que se faziam sentir nas planicies.
Dai ate ai final da dampster foram 82 Kms num suave "downhill".Parei para acampar no recem criado parque territorial de tombstone onde ciclistas nao pagam para acampar!
No ultimo dia fiz a maior etapa ate ao momento:110 Kms em 7 horas ate chegar a dawson city,40 deles ja feitos em alcatrao.Ah...alcatrao...foi como por a "burra" num tapete voador!
Dawson city e uma cidade estranha,parece ter sido tirado de um a maquete de um filme do faroeste.
No inicio do seculo passado a febre do ouro trouxe os garampineiros para esta cidade fazendo-a a segunda maior cidade na costa do pacifico na altura superada apenas por San Francisco.O ouro acabou e a cidade morreu no tempo,agora os descendentes dos garapineiros encontraram um novo tipo de ouro:os turistas.
Para mim e tambem um local para descancar as pernas,tirar a lama das malas e descansar.Afinal de contas a viagem ainda mal comecou.
Mas a Dempster vai ficar como uma das etapas mais duras durante uns tempos bons.Foi um verdadeiro teste de resistencia fisica e para a burra tambem.Ambos passamos o teste.
Entretanto vou peneirar um pouco da areia do rio klondike a ver se encontro alguma pedra relusente.....

Nuno Brilhante Pedrosa
em Dawson City, Canada

1 comment:

Pegadas said...

Força, a tua causa é nobre e o teu objectivo audaz. Cá estaremos para ler as tuas aventuras e para te dar palavras de conforto.
O que vale é que é sempre a descer até à patagónia.
Helder Gonçalves