9.09.2006

Stewart & Cassiar Highway (Canada)


Dia 41 de viagem Kms 2679
Atravessar o paralelo 60 que passa por "cima" de Watson Lake, por alguma razao, fez-me sentir que ja estou "mais a sul", apesar de ainda estar na zona remota do norte da provincia da British columbia.
Desarma-mos as tendas montadas junto a casa da senhora que trabalhava no posto de imformacao turistica de Watson Lake, que muito cordialmente, nos tinha oferecido o seu jardin, quando no posto de imformacao, lhe pedi-mos a recomendacao de um sitio para pernoitar, e parti-mos pela Cassiar Highway.


A Cassiar Highway e uma estrada remota que liga o centro litoral da provincia da british Columbia com o Yukon. Atravessa vales lindissimos com cadeias de montanhas com cumes cobertos de neve. A primeira parte da viagem foi um pouco...humida!
Comecou a chover logo no segundo dia pela tarde.Estava quase a alcancar o km 2000. Para-mos para por o material impermiavel; casaco gore-tex com o capucho sobre o chapeu e oculos de sol para dar visibilidade, poncho por cima e calcas impremiaveis e um par de protectores de chuva descartaveis para as sapatilhas; 2 sacos do pao de forma.
"country harvest", e uma marca que eu gosto de comprar.Pao de aveia com passas de uva e sabor a canela, que alem de nao ser mau no paladar, tem 70 calorias cada fatia e vem num saco tamanha 43 (c.e.) que encaixa prefeitamente na minha sapatilha. Enfiados pela abertura, dobrados por entre a meia,e a calca impermiavel por cima. Sao leves, descartaveis e de borla.
Outro dia duro e molhado. A meio do dia tive um furo, alias um estouro. O primeiro da viagem depois de 2208 kms pedalados. troquei a camera d'ar e pus 2 remendos no pneu que se tinha descozido lateralmente, e segui viagem.

Choveu todo o dia e o vento forte vindo de sul nao parava de soprar. A humidade entranhava-se nos ossos.. O nosso objectivo nesse dia era alcancar a casa do john no acampamento de trabalhandores de manutencao da estrada , em Bob Quinn. Seria uma etapa de 100 kms.Nao tinha-mos alternativa, pois acampar com aquele tempo era sinonimo de uma noite miseravel.
O vento soprava de frente, com rajadas e a chuva fria impedia-me de observar a linda paizagem da Cassiar highway, os meus olhos estavam focados apenas num triangulo de 5 metros de alcatrao. A minha mente viajava um pouco mais a sul, nas praias quentes de areia fina de um mexico com sol radiante. A casa do john estava apenas a poucos kms de distancia, quando de repente um outro estouro tras o meu pensamento de volta a estrada fria humida e ventosa da British Columbia.
BANG!
Numa fracao de segundo o aro da roda traseira roca no chao. Nem precisei de travar, a velocidade que ia estagnei na berma da estrada. Gritei ao bruno mas o vento devolveu-me o grito.
Que dia! Nao um furo, nem dois, mas sim 2 estouros, vento chuva e frio tudo a mistura como se fosse a reacao de um mau karma duma das minhas vidas anteriores. A primeira coisa que me veio a mente foi acender um cigarro. Tirei as malas virei a bicicleta ao contrario e saquei a roda fora. O pneu tinha descozido num sitio diferente. Ao longe vinha um carro. Fiz-lhe sinal para parar. Alem de nao parar, jorou um jacto de agua lamacenta nas minhas calcas. Pela primeira vez na viagem senti-me sem forcas.
Algum tempo depois apareceu o bruno, passou outro carro, este, parando voluntariamente, ofereceu-nos ajuda. Puse-mos as biclas no jeep e alcanca-mos o acampamento em menos de 5 minutos. A casa do john era uma das 6 ou 7 casas pre fabricadas oferecidas pelo governo canadiano aos trabalhadores da estrada. Alem do alojamento tinham servicos de saude gratuitos ( em caso de emergencia,transporte de helicoptero para a proxima aldeia) e 27 dolares por hora. Nao estava ninguem em casa. O John estava a gozar as suas ferias anuais a trabalhar no seu negocio. Um motel em Iskut, onde a chuva nos obrigou a parar por dois dias. Tinha-o comprado por 150 mil dolares, barato, mas com o pouco trafico mal lhe dava para os gastos, contou-nos. Depois do excelente banho e jantar, observei o pneu com mais atencao.

Estava a descozer-se por todo o lado. Nao havia nada a fazer. Arrependido por ter deixado o meu pneu suplente com a Susie, uma canadiana, em Boya Lake dias atraz, dicidi que iria a boleia ate a proxima aldeia Smithers ou terrace a mais de 300 kms dali, comprar outro pneu e regressar. Com sorte levaria 2 dias. Na manha seguinte dei um passeio pelo acampamento numa ultima tentativa de encontrar uma solucao.
Numa das casas estava uma senhora com cerca de 50 anos e com a pela da cara envelhecida dos muitos cigarros e cafes solitarios tomados em frente a televisao. Expliquei o meu problema. Disse-me para tentar a minha sorte no quintal das traseiras da casa. No meio da lixeira de pneus de camiao, pecas de imobiliario e eletrodomesticos ferrugentos encontro um pneu roda 26 !
2 cafes depois e um pouco de conversa, deixei-lhe 15 dolares de agradecimento e segui viagem.
Nada como um dia miseravel para dar valor a luz e calor de um sol radiante.

A minha sorte estava a mudar e a paizagem tambem. Desce-mos de altitude, as temperaturas eram mais amenas e as montanhas com os cumes cobertos com as pimeiras neves da estacao, acompanharam-nos o dia todo. Antes de comecar a descida para os vales ajusto o meu altimetro com um sinal de um cole da estrada. Tinha 120 metros de diferenca. Boas noticias, aproximava-se uma alta pressao atmosferica.
No dia seguinte fui acordado pelo Bruno a chamar-me:
Nuno, vem aqui!, gritou. Quero que conhecas alguem.
Alguem?. Pensei que tinha-mos acampado no meio do nada!
E tinha-mos. So que junto a estrada.
As lindissimas paizagens da Cassiar Highway, o trafico quase inexistente e a isolacao da estrada sao ingredientes com sabor a aventura para ciclistas, nao e de estranhar que seja bastante popular com eles, e nao passou um dia que nao tenha-mos conhecido um. Mas este era especial. Tao especial que ja tinha ouvido falar dele dias atras em jade city ( 10 habitantes) atravez da dona da loja de jade que nos tinha oferecido um cafe e nos contou como por aquelas bandas se extraiam blocos de jade de alta qualidade, que eram exportados para paises como a China Tailandia ou India, onde a mao d'obra barata dos excelentes artesoes locais os transformavam em pequenas obras de arte. Parte para o mercado local, mas a maioria importado de novo para o canada ou para os mercados mundiais.
Quem diria que , secalhar, aquele souvenir de ferias comprado em Phuket veio das montanhas do canada e nao das zonas tribais de Chang Mai?
O Bruno estava a falar com outro ciclista. Randolph e um alemao que ja vai na sua quarta volta ao mundo em bicicleta, creio que me disse serem 14 anos na estrada. Anos atras teve um acidente na Argentina. Foi atropelado por um camiao que o abandonou no meio da valeta inconsciente. Passou 4 anos no hospital, perdeu parte da sua memoria. A policia encontrou o camionista, o processo criminal ja decorre ha mais de 10 anos, e disse-me ja ter gasto mais de 60 mil dolares no processo.
Mas a sua historia nao termina aqui.
Rudolph, recuperado de um cancro e tambem detentor de um titulo no guiness book of records, como o ciclista que pedalou mais dias consecutivos em temperaturas abaixo de 0. Disse-me ter pedalado a -30 graus! Nos iamos rumo a sul para fuguir ao inverno e este maluco ia para norte ao encontro dele. Queria quebrar o seu proprio record, e desta vez tinha o auxilio de 4 skies construidos por ele proprio, e montados lateralmente na bicicleta.Trazia nas malas pneus Schwalbe com bicos, para pedalar no gelo e caso nao tenha forca suficiente transportava consigo um atrelado com 3 caes husky para o puxar.
Tencionava pedalar pelos rios Mckenzie e Yukon quando estes congelarem.
A volta ao mundo dentro do seu proprio e em busca da sua memoria.....
Chegamos a Meziadin junction onde acampamos junto ao lindissimo lago.

A floresta inteira observava a sua propria belesa no reflexo das aguas turquesas.
Em meziadin entrei num postal de paizagem paradisiaca, para so sair 65 kms depois na aldeia de stewart, junto a fronteira com o Alaska.
Deus devia estar muito bem disposto quando criou esta parte do planeta. Montanhas verdejantes com glaciares que quase chegavam a estrada, rios furiosos a descer montanhas. Cascatas descendo penhascos, e e claro:ursos. Ja vou em 11 na minha contagem desde Inuvik. Chegamos a Stewart onde acampamos no parque municipal.
As comunidades fronteiricas de Stewart ( 600 habitantes ), e Hyder ( Alaska, 90 habitantes), estao localizadas no final do canal maritimo de 'Portland', um das dezanas de canais maritimos que fazem parte das "misty fjords" do Alaska. As comuniaddes estao tambem rodeadas de magesticas montanhas costeiras e de glaciares, que fazem parte dos " Cambria ice fields". A principal razao por que vim aqui foi para observar de perto a desova do salmao. Uma das muitas maravilhas da natureza. O culminar de um ciclo de vida de 4 a 5 anos, que termina com a morte dos peixes no lugar certo na altura certa.Depois de divagarem pela vastidao dos oceanos durante a sua vida adulta, iniciam a ardua viagem rios acima ate encontrarem o lugar exacto onde nasceram, libertando milhoes de ovos e morrendo de exautão. O salmao rico em gorduras e a base da dieta dos ursos, que nesta altura do ano estao na fase da engorda, entes de entrarem no periodo de ibernacao.
Com certeza que ficara na memoria por uns tempos o cheiro intenso a peixe podre, os milhares de salmoes mortos na agua, aguias e gaivotas a alimentarem-se deles, e os ursos a alimentarem-se dos que ainda vivem. Com tanta abundancia tornao-se selectivos e comem apenas as femeas e os seus ovos.

No dia seguinte seguimos viagem, percorrendo de novo os lindissimos 65 kms ate 'Meziadin junction', onde cortamos para sul pela Cassiar.
Mais um dia de viagem, e o pneu que encontrei na lixeira em Bob Qinn, comeca a dar ares de cansaco; mais um furo e uns remendos no pneu. Desta vez uma luva de plastico cortada e enrrolada na camera d'ar. Passo os livros e outras cenas pesadas para as malas da frente e o Bruno carrega-me a tenda ( em cima da sua, ja enorme carga!), mas a meio do dia o pneu envelhecido decide nao suportar mais o meu peso. Este era o ultimo dia que viajava-mos juntos. No final da cassiar o Bruno iria para oeste, para a costa onde um ferry o levaria a Vancouver numa viagem de 2 dias. Eu seguiria para este, para o interior da British Columbia e em direccao as Rocky mountains. Com a proxima casa a 70 kms de distancia, no acampamento nativo de Kitwanga, nao tinha alternativa senao fazer "batota" e pedir boleia ate a loja de bicicletas mais proxima. Despedimos-se ali no meio da estrada trocando direccoes, o Bruno deu-me algumas pecas de equipamento, uma navalha suica, um impremiavel para a chuva comprimidos de purificacao d'agua entre outras coisas, e prometeu 60 dolares para as criancas da APPC Leiria. O guarda florestal que me deu boleia, deixou-me mesmo em frente a loja de bicicletas em Smithers, onde comprei um pneu Schwalbe marathon plus.O melhor pneu que havia na loja.
Foram duas semanas de excelente camaradagem e amizade.O Bruno foi grande companheiro de viagem e fonte inspiradora para a minha odisseia rumo ao sul....
Nuno Pedrosa em Smithers, B. C. , Canada

1 comment:

Pegadas said...

Força Nuno, tenho seguido com uma atenção cada vez maior esta tua fantastica e longa viagem. Força nessas pernas.
Abraço,
Helder