7.08.2007

Nossa Senhora de Fatima de Cojutepeque (El Salvador)

El Salvador é um pais pouco visitado. A falta de atracções turísticas, poucas infraestruturas e a fama - um pouco injusta - como um pais violento e um pouco perigoso para viajar, faz com que a maioria das pessoas a viajar pela América central prefiram orientar os seus itinerários pelos países vizinhos, Guatemala e Honduras. No entanto, para ciclo-turismo, apesar de as paisagens não apresentarem as fantásticas vistas das montanhas da vizinha Guatemala, as estradas são geralmente em boas condições, e o trafico fora das rotas principais entre centros urbanos, é pouco acentuado e fácil de manobrar. De certa forma um alivio ao trafico caótico e por vezes perigoso das estradas guatemaltecas.

Quando eu e o Jeff estudamos o mapa do pais e delineamos uma provável rota, ambos concorda-mos num aspecto; iríamos escolher as estradas mais altas do pais entrando por Las Chinasmas a Oeste, pedalando sobre a Sierra Apaneca Ilatepeque, passando pelo lago de Coatepéque e Cerro Verde, antes de descer para a capital, San Salvador, para voltar a subir acima dos 1000 metros através da Cordillera Metapan Alotepeque saído do pais a norte da capital em El Poy.
Apesar do ponto mais alto da viagem ter sido de apenas de 1486 metros a etapa de cerca de 400 km em El Salvador foi a mais dura até ao momento, com uma media de subida vertical de 16 metros por Km pedalado. Mas esta deliberada escolha de itinerário mais duro e montanhoso era simples: A América central atravessa a sua época anual das chuvas e pedalar abaixo dos 1000 metros o calor e a humidade entre as 11 da manha e as 4 da tarde são bastantes desconfortáveis para ciclismo

Ahuachapan foi a nossa primeira cidade no pais e inicio da "ruta de las flores", provavelmente dos circuitos de ciclismo mais bonitos da pequena nação. A CA8 atravessa zonas de cultivo de café passando por aldeias pitorescas com ruas em calçada romana e de pequenas casa coloniais ibéricas. O verde escuro das árvores de café era alternado com as cores vivas das diversas flores junto á estrada. toda aquela paisagem parecia-me familiar, e por vezes tinha a sensação de estar a pedalar na ilha da madeira, não na América central.
Ao contrario da Guatemala onde grande parte da população indígena ainda mantém as suas Tradições religiosas e formas de vestir, aqui os espanhóis foram mais eficientes em dizimar a população e cultura local, e a maioria das pessoas é de descendência mestiça ou europeia , dissipando o apelo de "exotismo cultural" existente nos países vizinhos.

Na Intersecção da estrada CA8 com a CA12 que vem de Sansonate e do mar Pacifico, pedalamos para norte com direcção a los naranjos, outra "zona cafetera" mas com características mais industriais. As aldeias pitorescas deram lugar a casebres em lata junto á estrada camuflados pela densa vegetação das árvores do café revelando um outro El Salvador. A empobrecida população destes "guetos" agrícolas são o gosto amargo do café. O produtivo monopólio do café é controlado por uma pequena minoria de ricos salvadorenhos e estrangeiros ( entre eles o gigante americano Starbucks), mas o trabalho duro do cultivo desse grão magico e feito por pobres famílias a viver em bairros de lata, muitos deles ex-combatentes da sangrenta guerra civil que abalou o pais na década dos anos 80 e inícios de 90.
Num dos "sobe", dos muitos sobe e desce desta zona montanhosa as nuvens escuras e rasteiras começaram a subir os vales ofuscando a visibilidade com a sua passagem. O nevoeiro era tanto que visibilidade não era mais do que escassos metros. O som da trovoada e luzes dos relâmpagos estavam tão próximos que parecíamos estar no epicentro da tempestade tropical. Não tardou para que começasse a chover torrencialmente. Refugiamos-se no edifício da cooperativa de La Mejada, que para minha felicidade tinha um pequeno museu alusivo ao café.
Para um aficionado a essa deliciosa bebida não podíamos ter encontrado melhor lugar para fugir á tempestade tropical. A chuva batia sem tréguas no telhado de zinco e com uma ferocidade incrível, enquanto que nos saboreávamos um "café Mojada" ao mesmo tempo que ouvíamos as explicações da funcionaria da cooperativa que me garantiu que uma pequena parte da sua produção entrava no mercado português.
quando as águas dos céus se esgotaram, seguimos viagem para norte rumo á cidade de santa Ana, a segunda maior cidade do pais.

San Salvador, a capital, apenas veio a confirmar a minha teoria de que ciclo-turismo urbano em metrópoles latinas pode ser equivalente a um final de viagem precoce. O centro da cidade é bastante confuso, caótico e perigoso para ciclistas, e semelhante ao que já tínhamos experimentado na cidade de Santa Ana.

No dia seguinte saímos da cidade com a promessa de não voltar a pedalar por grandes centros urbanos na América central. Levava comigo como "recuerdo" da cidade, o espelho retrovisor partido por um autocarro que me obrigou a enfiar-me na valeta da alameda Juan Pablo II , e não passei para as estatísticas rodoviárias da cidade por pura sorte.

Tinha convencido o Jeff a sair um pouco da rota prevista e visitar a cidade de Cojutepeque. Cojutepeque é apenas mais uma cidade salvadorenha sem qualquer interesse para o turista, a não ser que o turista seja português.

Sobre a cidade no "cerro de las pavas",ou monte dos perus, situasse o santuário de nossa senhora de Fátima de Cojutepeque, com uma estátua da Virgem trazida de Portugal em 1949 e colocada no topo do monte num espaço aberto, verde e pitoresco.
-Esta estátua foi trazida de Espanha e atrai muitos peregrinos no dia 13 de maio, disse-me o Carlos, um jovem local, que na sua bicicleta se ofereceu para nos guiar no caminho para o topo do "cerro de las pavas".

Correcções feitas e comprovadas com a mostra da placa de nossa senhora de Fátima que viaja nas minhas malas há mais de 18000 km, o Carlos levou nos a um ponto do monte onde se avistava na encosta a cidade de Cojutepeque, e para sul o vulcão de San Vicente, apontando para diversos locais na paisagem onde ouve fortes conflitos armados durante a guerra civil.

A adolescência do Carlos coincidiu com o período mais turbulento da historia do pais. O sangrento conflito armado que durante 12 anos matou mais de 75000 pessoas e que ainda esta bem presente na memoria dos salvadorenhos, ate mesmo na do Carlos que com apenas 30 anos, nos contou das dificuldades por que passou quando era mais jovem. A ambição do Carlos - que parece ser igual a toda a população do pais - é emigrar aos estados unidos. A terra das oportunidades. Muitos já o fizeram, e as remessas dos emigrantes nos EUA são actualmente a principal fonte de rendimento do pais.

No dia seguinte seguimos viagem com Direcção a Suchitoto, provavelmente a mais bonita e bem preservada cidade colonial do pais, passando por Islobasco. uma aldeia de oleiros, onde parece que cada um dos seus cidadões tirou um curso de olaria no politécnico local e montou uma loja de artesanato em frente ao jardim da casa ou na sala de estar com as portas abertas para as ruas da aldeia.
Chegamos ontem a La Palma, apenas a 12 km da fronteira com as Honduras e final de percurso neste pequeno pais, que com certeza não irá entrar nos países favoritos da viagem, mas que por ser pouco conhecido e visitado, tiveram as suas recompensas. Os salvadorenhos que conheci foram sem duvida os pontos altos desta etapa com a sua genuína simpatia e hospitalidade ainda não afectadas pelo turismo de massas.

A viagem continua...amanha será outro pais!

Nuno Brilhante Pedrosa
Em La Palma, El Salvador

4 comments:

Rikardo Moreira said...

Ola Nuno, desejo-te a melhor sorte do mundo,li a tua entrevista à Focus, o que me encheu de curiosidade, ao ler isto faz-me lembrar o que fiz à dias, os caminho de Santiago mas foi só 4 dias de Leon a Compostela, tenho um blog fraquinho, mas se quiseres da uma vista de olhos (http://rikybike.blogspot.com)
Abraço

LPE said...

Grande Nuno,
Sempre contigo,

Tiago

Daraopedal said...

Ola. Queria dar-te os parab�ns pela aventura e pela coragem. Tamb�m tenho um blog de BTT dedicado �s minhas modestas aventuras. N�o t�m compara�o com as tuas, mas quem sabe um dia n�o fa�o uma coisa assim. Fazes-me lembrar o Gon�alo Cadilhe na vers�o de BTT. Muitos parab�ns. Podes dar uma vista de olhos ao meu blog em http://daraopedal.blogs.sapo.pt

P.Renato said...

No dia em que a tua bicicleta se cruzar com as palavras "Monte Redondo", inertes na beira da estrada, as ruas deveriam estar cheias de gente radiante. Não pela vitória de um objectivo kilometrado mas pela determinação de um espirito em conhecer o mundo.

Força e boa sorte!

...de um habitante de M.Redondo...