8.28.2008

"Into the wild" parte II. A travessia dos salares de Coipasa e Uyuni (Bolivia)

DIA 9
43.1 km
Altitude máxima 3724m
Altitude de acampamento 3644m
De Sabaya à “ilha” de Coipasa.


Finalmente de novo na estrada e sem grandes obstáculos. Ontem acabámos por conseguir uma boa quantidade de alimentos e 14 litros de agua, que pensamos ser suficiente para a travessia da primeira salina.

Foi um prazer pedalar pelas estradas de lavadouros sem ter que empurrar as burras por dunas de areia. Passamos por varias aldeias abandonadas a caminho da entrada do salar situada pouco depois da aldeia de Villa Vitalina (km 27). Ai pudemos avistar o enorme salar que iremos atravessar amanhã.
Do “Terraplèn”(plataforma de acesso), até a ilha de Coipasa foram 10 km fáceis, por vezes pela estrada ensaibrada outras vezes pedalando pelo sal. Montamos acampamento na ilha de Coipasa com fantásticas vistas para o lago de sal.



A paisagem era surreal, nunca tinha visto nada assim. As salinas de coipasa e Uyuni são parte de um antigo mar atrapado quando as placas tectónicas do pacifico chocaram com as do continente sul-americano criando lagos salgados. Com a consequente criação dos Andes as águas evaporaram criando as salinas. Todos os anos a época das chuvas inunda as salinas criando lagos salgados. A forca da radiação solar nos meses de verão seca quase na totalidade a superfície do lago, criando um vasto manto de um branco tão forte que é difícil observar sem a protecção de óculos de sol.

DIA 10
47.7 km
Altitude máxima 3678m
Altitude de acampamento 3629m
Da ilha de Coipasa ao meio do salar de Coipasa.


Hoje entramos finalmente no salar, noutra dimensão de ciclo-turismo, uma experiência inigualável e difícil de descrever. Foi como pedalar num planeta plano onde as únicas cores que existem é o azul do céu e o branco da terra.

Saímos do acampamento tarde, como já é nosso costume, e na pequena aldeia de Coipasa compramos mais alguns mantimentos e enchemos as garrafas com água do poço da aldeia. A entrada do salar está bem assinalada e marcada com rastos de pneus, mas poucos quilômetros depois os trilhos desaparecem e damos conosco no meio do salar sem vestígios de rodadas. Mas não nos pareceu difícil a orientação, uma vez que para sul podíamos avistar vários picos aos quais fizemos um azimute.




O salar de Coipasa apesar de plano esta longe de ser suave, com crostas de sal a despontar á superfície e que dificultavam bastante a pedalada. Era como uma violenta massagem ao corpo. Cerca de 10 km depois encontramos de novo rodadas de carros as quais decidimos seguir uma vez que iam para sul. A Joana perde o seu casaco algures no percurso, mas decidimos avançar. O nosso progresso para sul foi travado ao final da tarde por algo inesperado: água!

Um senhor na aldeia de Coipasa tinha nos advertido que certas zonas do lago ainda não estavam completamente secas e sugeriu uma rota alternativa junto á fronteira com o Chile. Não lhe tínhamos feito caso por ser uma volta muito maior. E aqui estávamos nós rodeados de água por todos os lados e sem saber o que fazer. A Joana decide tirar as botas disposta a continuar. Fiquei incrédulo com a sua despreocupação. Apesar de as montanhas estarem bem visíveis á nossa frente, era impossível estimar a que distancia estaríamos de terra firme e muito menos a profundidade das águas. O sol não tardaria a esconder-se por detrás deste mundo branco e as águas gélidas e de alto teor salino com certeza que se entranhariam no corpo. Os riscos de uma hipotermia eram elevados, queríamos aventura, mas não por as nossas vidas em risco. Com a ponta do pé apoiada num monte de sal, equilibro a bicicleta e observo a paisagem em meu redor. Era de uma beleza surreal, mas a beleza, por estas bandas pode ser traiçoeira.
-“Joana, vamos regressar”.
-“Eu acho que deveríamos continuar, disse, não deve faltar muito para terra firme”.
-“Não, temos que regressar a sal seco, é demasiado arriscado”.
Não me sentia confortável com a situação. Pedalamos vários quilômetros na direcção oposta até entrarmos de novo em sal seco e montamos as tendas sob um por do sol mágico.


Estávamos os dois sós, nós e aquele mundo infinito de branco. Essa noite o frio emanava do manto de branco e atravessava o saco-cama gelando o corpo a mente. Não dormi bem, estava preocupado. E se tivéssemos decidido avançar? O que teria acontecido?

DIA 11
18.4 km
Altitude máxima 3697
Altitude de acampamento 3647m
Do meio do salar de coipasa até depois de três cruces.


Levanto-me pouco depois do nascer do sol, e munido com a maquina fotográfica e binóculos, parto em busca do casaco da Joana. Sentia-me culpado por a ter persuadido a deixar-lo para traz, e na obrigação de o ir procurar. Apesar de ontem termos pedalado quase sempre ao acaso, não foi difícil encontrar um vulto de um azul vivo no meio daquele mar branco. Regresso ao acampamento e já a Joana tinha cozinhado meia dúzia de deliciosas panquecas.


A travessia final do lago de sal que eu tanto temi ontem á tarde foi de apenas 5 km e a profundidade da água nunca ultrapassou os 20 cm a 25 cm, mas foram os cinco quilômetros mais mágicos de todas as minhas experiências de ciclo-turismo.
O céu espelhado nas águas do lago, dava a sensação de estar a pedalar sob as nuvens, no centro de uma pintura tridimensional de Dali.




Sentia-me privilegiado por estar ali e por poder partilhar aqueles momentos com a Joana.
Com o regresso a terra firme regressamos também ao nosso pesadelo do altiplano: areia! Chegamos a Tres Cruces depois de vários quilômetros a empurrar as burras por um caminho arenoso. Perguntamos a varias pessoas qual o melhor caminho para Llica.
- “Mira essa moto”, disse um local apontando para o único veiculo motorizado na aldeia. “vem de Llica, basta seguir os rastos dos pneus”. Levados pelos conselhos dos locais, algum tempo depois estávamos de novo a empurrar as bicicletas pela areia.


Ovos estrelados e... congelados!

Acampamos pouco depois com apenas 18 km percorridos. Mas quilometragens têm pouca importância no altiplano boliviano, as condições das estradas são tão más que por vezes 20 km percorridos podem ser equivalentes a um dia de ciclismo bastante desgastante!

Dia 12
27.9 km
Altitude máxima 3767m
Altitude de acampamento 3753m
De depois de Tres Cruces a depois de Challacollo.


Nada melhor para começar o dia do que a empurrar as bicicletas pela areia! O caminho agora era tão arenoso que fizemos apenas 3 km numa hora.

Era obvio que estávamos perdidos, víamos rodadas de moto na areia, mas já não tínhamos a certeza de que eram da “nossa” moto. Não teria a moto usado um corta-mato pela areia? Talvez existisse outra estrada melhor.
-“não! Outra vez não!” Não queria repetir a etapa das dunas de areia de Sabaya. Tive mais um dos meus ataques de frustração “altiplanicos”. Ao fundo junto às salinas podíamos ver um veiculo a mover-se com certa rapidez.
- “Tem que haver uma estrada melhor”, disse para a Joana, “isto é de loucos! Isto não é ciclo-turismo, é ciclo-masoquismo!”
A Joana, apesar de não o mostrar, partilhava das mesmas emoções. Fazemos um azimute pela areia com direcção ás salinas e uma hora depois estávamos a pedalar por um caminho, que apesar de arenoso, estava em condições aceitáveis. Ao final da tarde chegamos á aldeia de Challacollo, perdida no meio deste ventoso e vasto altiplano semidesértico.




A Joana pergunta a um dos poucos residentes se estávamos no caminho certo para Llica. “Sim, mas a um quilometro há um cruzamento, NÃO vão pela direita”, disse o residente daquela aldeia semi-abandonada. Chegamos ao cruzamento e paramos, abrimos os mapas e a bússola. Nada fazia sentido. Decidimos, mas uma vez, seguir os conselhos dos locais e terminamos o dia noutro caminho arenoso que parecia não ir a nenhum lado.


Decidimos acampar e pensar melhor o que fazer no dia seguinte.
Estávamos exaustos!

DIA 13
13.6 km
Altitude máxima 3754m
Altitude de acampamento 3711m
De depois de Challacallo até Llica


pela manha passam pelo acampamento uns locais a caminho da suas "choças" que nos indicam que estamos no caminho errado. regressamos ao cruzamento e seguimos pela estrada mais trilhada. Chegamos a Llica antes do meio dia. Llica situada entre os salares de Coipasa e Uyuni é a aldeia com maior importância na região onde existe comércio suficiente para ter lojas bem recheadas de mantimentos e vários alojamentos.
Existe até um internet café, o primeiro que vimos desde que saímos de Oruro há 13 dias. Foi a única oportunidade que tive de contactar o Antonio Queirós e dizer-lhe que estávamos com uma semana de atraso para o nosso encontro em Uyuni. O Antonio é um aventureiro português a percorrer as Américas de moto - mas mais acerca dele no final da crónica. A Joana sentia-se doente e sem energias, e ambos estávamos fartos de empurrar as bicicletas pela areia. Necessitávamos de descanso.
Passamos o resto do dia no quarto do hotel.


DIA 14
59.7 km
Altitude máxima 3711
Altitude de acampamento 3673m
De Llica á ilha do pescado.


Logo depois de sair de Llica podemos avistar o salar de Uyuni, a maior salina do planeta com uma superfície de 10500 km quadrados, equivalente ao dobro da regiao algarvia. Iria levar-nos três dias a atravessa-la. Pedalamos cerca de 10 km bordeando a salina até chegar a um “terraplén”, plataformas de acesso as salinas construídas em pedra, brita e misturadas com sal, que permitem um acesso seguro para veículos. As margens das salinas podem ser arenosas e lamacentas e é possível que um veículo se afunde se não usar as entradas apropriadas, obviamente para as nossas bicicletas isso não seria um problema.


Ao longe no horizonte podíamos ver a ilha do pescado, a maior ilha do salar. “Navegamos” por este infindável mar branco usando os trilhos deixados pelas rodadas dos carros. Ao final da tarde chegamos á ilha do pescado, nome adquirido pela sua forma que lembra a de um peixe.


“Atracamos” na costa Este da ilha e subimos um pequeno morro onde montamos as tendas, obtendo assim fantásticas vistas do por e do nascer do sol.

A ilha é um lugar estanho com rochas fossilizadas de animais marinhos relembrando-nos do tempo em que este imenso deserto de sal estava submerso pelos oceanos, cactos gigantes centenários destacando-se no horizonte como sentinelas da ilha, e fosseis de animais marinhos fazem lembrar que isto em tempos já esteve submerso pelos oceanos. Aqui o tempo parou há milhares de anos.


DIA 15
37.6 km
Altitude máxima 3683
Altitude de acampamento 3671
Da ilha do pescado ao meio do salar de Uyuni.


Continuamos a nossa ciclo-deambulação pelo manto branco da salina, usufruindo da tranquilidade e silencio que nos rodeava quebrado apenas pelo som das rodas a esmagar as crostas hexagonais de sal seco. Um curioso processo criado por fissuras na crosta de sal e pela forte radiação solar. Ao contrario do salar de coipasa, aqui conseguíamos atingir 20 km horários sem grandes esforços físicos. O mundo à nossa volta era todo plano, de facto é a superfície mais plana do planeta e lugar utilizado para a calibração de satélites artificiais. A meio da tarde avistamos no horizonte um ponto negro que julgamos ser mais um jeep cheio de turistas que cruzam incessantemente esta parte do salar. Mas pouco a pouco o ponto negro começou a tomar a forma de uma bicicleta. O Herve é um ciclo-turista suíço que já viaja pela America do sul há vários meses e se encontava na sua fase final de regresso a La Paz. Decidimos acampar juntos ali mesmo.

O Herve(visitem o seu site aqui), experiênciado ciclo-turista, deixou a sua terra natal um dia com rumo à África e nunca mais voltou. Depois de dois anos a pedalar pelo continente Africano, encontrou trabalho como guia de safáris na Namíbia e ai tomou residência, lugar donde financia as suas viagens que faz em bicicleta mundo afora. Sem duvida uma historia interessante e inspiradora de novas aventuras. Quem sabe um projecto para o futuro, a volta a África em bicicleta? Essa noite por descuido deixei a botija de água quente da Joana na parte da frente do seu saco-cama e ela ao entrar na tenda rebentou-a molhando o saco, o colchão e tudo em redor. Era só o que nos faltava!Estávamos no meio deste gigantesco lago de sal onde as temperaturas nesta altura do ano podem chegar aos 25 graus negativos. Não tivemos alternativa senão dormir os dois no meu pequeno saco de cama, um verdadeiro teste á nossa relação!

DIA 16
63.4 km
Altitude máxima 3698m
Altitude de acampamento 3678m
Do meio do salar ao museu de sal em Colchani.


Ontem passamos uma noite muito fria. Não cabíamos os dois dentro do saco de cama e cada movimento, por menor que fosse, tinha que ser coordenado em simultâneo. O Herve antes de partir oferece-nos um chocolate suíço - clássico! Prometemos come-lo apenas no topo do vulcão Uturunco a 6020 metros de altitude, lugar onde esperávamos levar as nossas bicicletas na próxima etapa. A estrada de acesso ao vulcão é considerada (por alguns) como a estrada mais alta do mundo e iria ser o culminar de todos os nossos desafios durante esta longa etapa de 47 dias sem ver o alcatrão.

Os meus calcoes que depois de muitos milhares de quilometros percorridos e reparacoes sem conto e que tiveram que ser substituidos depois desta etapa-:)

A parte final do salar foi a menos interessante da travessia, durante o dia inúmeros jeeps, cheios de turistas passaram por nos a caminho de Inkawasi, uma pequena ilha turística no meio do salar, na qual decidimos não parar. Chegamos a Colchani depois de três dias a pedalar pelo sal, tínhamos feito nos dois salares um total de 240 km a pedalar sobre o sal.
Colchani, uma pequena aldeia poeirenta nas margens das salinas, cuja população vive da extração do sal e do turismo, tem um pequeno museu dedicado ao sal e oferece também alojamento num hotel feito de sal. Éramos os únicos hospedes no hotel e a dona decide entregar-nos as chaves e ir para casa deixando-nos a sós.



DIA 17
23.3 km
Altitude máxima 3712m
Altitude de acampamento 3705m
De Colchani a Uyuni.



Chegamos a Uyuni depois de 23 km desinteressantes por estradas de lavadouro e mais areia. Em Uyuni encontramo-nos com Antonio que já nos esperava há mais de uma semana. O Antonio já viaja em moto há quase um ano pela America do Sul e pretende chegar até ao Alasca não sabe bem quando (visitem o seu site aqui). Funcionário bancário reformado viaja sem tempo limite e sem grandes itinerários definidos. Sem duvida a melhor forma de viajar. Iríamos passar os próximos dias na sua companhia e a descansar de mais uma árdua etapa.


Na próxima crônica a terceira parte da nossa extensa viagem pelo altiplano boliviano entramos numa zona de maior altitude, mais isolada e de paisagens mais inóspitas. O nosso próximo destino: subir a estrada mais alta do mundo. Mais um acidente com a bicicleta, ventos ciclonicos (e mais uma vez) dificuldades em encontrar água e comida iriam dificultar todos os nossos planos de viagem e até mesmo altera-los.

Visitem tambem a pagina pessoal da Joana em movimentos-constantes

Nuno Brilhante Pedrosa

4 comments:

Luís M. said...

Força ai Nuno e Joana, deixo aqui a minha palavra de apoio e admiração, ainda estou arrepiado com as fotos e relatos que aqui vi!

Muito espetacular essa viagem, desejo-vos boa viagem e regresso!

Abração e boa continuação da aventura!

Antonio Rebordao said...

Força Nuno!

Mais uma vez uma descrição e fotografias fantásticas.

Eu estou a preparar a minha pequena incursão à Austrália. Estou limitado pelo tempo mas terei 5 semanas para ver e sentir o que puder.

Abraços e que a saga continue.

Antonio Rebordao said...

Ainda não me refiz destas fotogafias. Estão lindissimas.

Força! Que a saga continue!

JORGE said...

Se as imagens conseguem arrepiar, imagino o que será sentir esta grandiosidade no local. Fenomenal!!! Continuação de boa viagem.