11.24.2007

Bogotá 2600 metros "mas cerca de las estrellas (Colômbia)


Manuel Marulanda, lider das FARC, também conhecido como "Tiro Fijo".
Caricaturizado pelo artista colombiano Fernando Botero.
Trabalho exposto num museu de Bogotá.


Villa de Leyva

Depois do ritual diário de fazer os alforges e montar a burra, deixo a cidade de Barbosa coberta de neblina matinal e pedalo pela estrada que me ira levar à capital Colombiana. Deixo o hotel Lusitânia, onde na noite anterior tinha tentado, em vão, explicar à dona da simples hospedagem que também eu vinha de um país chamado Lusitânia. "São 5000 pesos", respondeu desinteressada do meu entusiasmo.

Começo o dia com uma subida acentuada, como que para digerir o pequeno almoço de "caldo de pollo" e "bandeja de carne sudada" que tomei num pequeno "comedor" à saída da cidade. As nuvens privavam a terra do calor da manhã e teimavam em esconder o sol. O ar fresco e o verde da paisagens obscurecido pelo cinzento do céu, faziam-me lembrar certas paisagens europeias.
Já há mais de uma semana que pedalava em alta montanha, e apesar das altitudes não ultrapassarem os 3000 metros, já me obrigavam a remexer o fundo dos alforges em busca de roupas mais quentes.

Viajo agora numa Colômbia bem diferente. Cidades e aldeias, colónias povoadas em grande parte por descendentes europeus e com um nível de vida superior ao que encontrei na costa das caraíbas. O tânsito de camiões era bastante acentuado e as bermas quase inexistentes, o que me mantinha em estado de alerta constante. Um preço a pagar por seguir uma das regras de viajar em segurança na Colômbia: pedalar por estradas principais. .



Segundo consta, é mais seguro pedalar em estradas principais cheias de trânsito, sujeito a ser atropelado, do que por estradas secundárias tranquilas e zonas rurais remotas, onde há mais probabilidades de encontros com simpatizantes do "Tiro Fijo". Mas viajo de momento pela província de Santander, o coração colombiano e local onde Simon Bolivar desafiou a coroa espanhola pela independência de uma América unida, e considerada uma zona "segura", onde tais encontros não são uma preocupação.

Saio da estrada principal e do trânsito pesado e sigo por uma estrada "destapada" em direcção à vila colonial de Leyva. A meio da tarde o sol vence a luta com as nuvens e ilumina o (chamado)" valle de los dinossauros", em cuja encosta norte se situa a lindíssima vila de Leyva.

Villa de Leyva é uma aldeia parada no tempo. Declarada como monumento nacional no mesmo ano em que Fidél invadia cuba, esta completamente privada de arquitectura moderna, e o resultado é uma aldeia colonial “par excellence”, de estradas em calcada romana e casas caiadas de branco protegidas por telha ibérica. A sua proximidade a Bogotá também significa que é um lugar de lazer para citadinos ricos, e a atmosfera, apesar de bonita, tem um certo ar artificial.





Procuro alojamento numa hospedagem cujo dono me indica que há outros ciclistas na casa. São colombianos que vieram participar na 4ª prova internacional de ciclismo do Valle de los Dinossauros. Um dos colegas não pode comparecer e convidaram-me a participar no seu lugar.
Na Colômbia, ciclismo é rei. É a segunda modalidade desportiva com mais aficcionados, superada apenas por ( é claro) o futebol. Desde que subi para as montanhas tem sido raro o dia que não passo por "Lycro-ciclistas" em bicicletas bem kitadas e, muitas delas superiores à minha Burra.

O dia seguinte amanhece com céu escuro e chuva. Decido não participar na prova e aproveitar para descansar. Os últimos dias foram muito duros para o meu corpo e não me apetecia fazer figurinha no meio de Tanta "lycra" na minha velha burra.
A meio da manhã o sol despegou as nuvens e dou um pequeno passeio de 40 km pelo vale visitando a Estação Astronómica Muisca, uma espécie de "stone-henge" dos índios Muisca com as suas pedras monolíticas, local onde eles prediziam as colheitas e dos poucos sítios que os espanhóis não destruíram na sua colonização destrutiva. Aí por perto visitei também o fóssil de um kronosaurus encapsulado no local onde foi encontrado.

Dois dias depois sigo viagem com direcção a Tunja. A capital departamental mais alta da Colômbia a 2800 metros de altitude. Na subida faço o meu primeiro passe acima dos 3000 metros em território sul-americano, através de uma bonita paisagem desprovida de vegetação. Passo uma noite fria em Tunja onde aproveito para comprar roupa mais adequada ao clima-terreno que se avizinha. Há que preparar para o clima mais frio dos Andes.


Sigo com rumo a Bogotá fazendo uma última paragem em Zipaquirá, conhecida em toda a Colômbia pelas suas minas de sal. Visitei uma delas, em cujos corredores, nas profundesas das montanhas, foi construída uma catedral totalmente feita de sal. Capaz de albergar 4500 pessoas, é considerada pelo departamento de turismo colombiano como uma das 7 maravilhas do país. Foi uma visita interessante que ficou marcada por uma queda no meio da escuridão, sobre uma rocha de sal, ao tentar fotografar um anjo da guarda em certo ângulo e que resultou na quebra da minha máquina fotográfica que ainda hoje não funciona (viajo agora com uma simples máquina digital, daí as fotos de qualidade inferior)




Bogotá

Vistas de longe, as construções desordenadas brotam da terra como uma gigantesca erupção de tijolos vermelhos. São centenas, milhares. Casas construídas ao acaso, no tempo livre, com a ajuda dos vizinhos e familiares. Portas e janelas fora de simetria são cobertas com gradeamentos e os ferros dos alicerces ficam expostos acima das placas de cimento como antenas de televisão. Muitos seguram estendais de roupa que seca ao vento poluído da grande metrópole.

O jeep Willys de 1954 do Herman, um biólogo da universidade nacional de Bogotá, sobe com dificuldade um dos inúmeros montes onde é construída Ciudad Bolivar, o bairro mais pobre da capital Colombiana. A Dayra Galvis, amiga, e minha anfitriã em Bogotá, tinha pedido ao tio para que nos acompanhasse no passeio. Não se atrevia a vir sozinha. É perigoso, disse. Tínhamos vindo a meu pedido. Queria ver onde viviam os cerca de 2 milhões , dos 7 milhões de habitantes da capital Colombiana.

Mas os bairros da Ciudad Bolivar não são os guetos da cidade do Cabo ou as favelas do Rio de Janeiro. Apesar da delinquência e violência, sente-se alguma dignidade neste bairros. Existe comércio, restaurantes e até Internet cafés.
No topo da colina, obtivemos vistas fantásticas do centro de Bogotá, situado a escassos quilómetros para norte. Com a La Cadelaria como coração histórico da cidade, uma zona com inúmeros cafés, igrejas, museus e edifícios coloniais..



Os contrastes com o bairro em meu redor são enormes e tornam-se mais marcantes com desenrolar do passeio para o norte da cidade. Aqui, a norte da carrera 73, os "rolos", residentes da capital, viraram costas à historia e abraçaram o modernismo e os valores capitalistas. Centros comerciais estilo Uncle Sam, gastronomia internacional e bairros com atmosferas sofisticadas que parecem diferir pouco de muitas cidades europeias (incluindo nos preços!) e que contrastam violentamente com a Ciudad Bolivar apenas poucos quilómetros para sul.

Durante os 4 dias que passei na cidade a família, Galvis tratou-me nas "palminhas", com visitas a excelentes restaurantes ( entre eles Mini-Mal, recomenda-se), jantares familiares e visitas guiadas, com o Luís, o taxista da família, à disposição nos dias em que o sistema de "pico y placa" não permitia o uso do carro da família. Uma calorosa hospitalidade, característica deste povo fantástico e muito apreciada, por quem está habituado ao selim (já roto) da burra, ao (des)conforto da tenda e à poeira das estradas.
Mas há que seguir viagem. A pesar de ter vontade de conhecer melhor a capital com a sua atmosfera vibrante, e passar mais tempo com os meus amigos, tenho que continuar viagem, não me vá eu habituar ao conforto. Não foi em busca dele que decidi fazer esta viagem.




A troca de cordilheira

Antes de partir o Herman oferece-me um excelente mapa da Colômbia juntamente com informação detalhada da minha próxima etapa: a troca de cordilheira..
"Bogotá, 2600 metros mas cerca de las estrellas" (uma expresao popular colombiana) situa-se na cordilheira oriental. A minha rota prevista rumo ao equador segue o vale de Cauca entre a cordilheira central e a cordilheira ocidental. Esta troca de cordilheira significa que tenho que descer ao vale do rio Magdalena (350 metros de altitude), subir toda a cordilheira central até perto dos 4000 metros e voltar a descer para Manizales (2100m), uma das cidades do chamado "eixo cafeteiro", e o meu próximo destino.


O Herman indica-me que existe uma alternativa à estrada principal que é segura, e que é (supostamente) sempre a descer até Cambao, junto ao rio Magdalena, onde poderia seguir por uma estrada alcatroada ao longo do rio até Honda, onde daria início à gigantesca subida da cordilheira central através do passe de Las Letras.

Despeço-me da família Galvis (e da Nancy Sanchez) e deixo a capital com a mesma facilidade com que tinha entrado. Para uma metrópole de mais de 7 milhões de habitantes, poder-se-ia pensar que navegar pela cidade em bicicleta seria algo difícil e até mesmo perigoso. Mas na verdade foi muito fácil.
Bogotá é uma das capitais mundiais mais "amigas" dos ciclistas. Existem cerca de 300 km (sim, 300) de ciclovias espalhadas por toda a cidade, incluindo muitas vias principais que aos domingos são fechadas ao trânsito motorizado. A câmara municipal oferece concessões a dezenas de pequenas "tiendas" que vendem comidas e bebidas nas ciclovias, e as ruas da cidade enchem-se de ciclistas. É um prazer ver o trânsito congestionado enquanto que centenas de "rolos" desfrutam da tranquilidade das estradas citadinas nas suas "ciclas".

Atravesso a savana de Bogotá e em Albán abandono a estrada principal e o trânsito pesado iniciando um delicioso downhill. Pouco antes de Viani (1200 metros) a estrada recusa-se a descer mais e inverte a inclinação, começando a subir de novo até quase aos 1800 metros. Um derrube na estrada corta o trânsito por completo entre Albán e Cambao e durante os cerca de 50 km tenho a estrada completamente só para mim.
"Vivam os derrubes!"


Passo uma noite em San Juan de Rioseco e na manhã seguinte faço o downhill final (também sem trânsito) at é Cambao. Estava de volta as "tierras calientes" com temperaturas de novo nos 30 e 35 graus e humidade elevada. Sigo por uma estrada supostamente alcatroada, paralela ao enigmático rio Magdalena. Palco da última viagem de Simon Bolivar, relatada em "O general e o seu labirinto" de Gabriel Garcia Marques, ou Gabo, como é apenas conhecido aqui na Colômbia.

A estrada inicialmente alcatroada deteriora-se rapidamente. Em partes não é mais do que um caminho de lama que me obriga a desmontar e empurrar, parando várias vezes para retirar a lama acumulada nos guarda-lamas e travões.


Chego a Honda pela tarde onde com 87 kms feitos, dou como concluído o dia e procuro alojamento. Tenho uma subida de 3500 metros pela frente e decido reparti-la em 2 dias.
Honda é uma cidade agradável, antigo porto fluvial de Bogotá nos tempos que o rio Magdalena (navegável por 990 kms desde aquela cidade até Barranquilla nas caraíbas), servia como a principal artéria de transportes do país.


Na manhã seguinte dou início à maior subida na viagem , até ao momento. A estrada só começa a subir em Mariquita, cerca de 35 km a Oeste de Honda. Passei todo o dia a subir acumulando 2116 metros em apenas 66 kms. Paro em Padua para passar a noite e na manhã seguinte faço os restantes 1550 metros de subida até ao passo de Las Letras a 3750 metros de altitude. Perto do passe as temperaturas baixam drasticamente obrigando-me a colocar todas as camadas que tinha nos alforges. Já não o fazia desde as Rocky Mountains nos Estados Unidos.
Infelizmente uma neblina constante escondia a paisagem, permitindo-me observar, apenas por breves momentos, as majestosas paisagens dos vales circundantes.




Chego a Manizales já de noite onde me esperava a Andrea Álvares. Uma amiga de longa data e companheira de viagem no norte da Argentina e Uruguai em 2005. Um outro contacto fruto de amizades criadas nos tempos que vivi em Londres.
Manizales tem pouco para oferecer ao visitante, mas irei parar por aqui por tempo indefinido, dias, talvez uma semana, ou mesmo duas. Tenciono fazer uma reconstrução à boca que poderá significar uma cirurgia e a troca de vários dentes (por uma fracção dos preços europeus).

A ùltima etapa que se segue na Colômbia, cerca de 800 kms através do vale de Cauca, infelizmente será feita em pedaladas aceleradas (possivelmente fazendo uma viagem de autocarro) uma vez que terei que chegar a Quito no início de Dezembro, altura em que a Sereia do Tamisa regressa à pan-americana.
Fica encontro marcado para o país 13: Equador...


Nuno Brilhante
Em Manizales, Colômbia.

4 comments:

Antonio Rebordao said...

Olá Nuno,

Tenho um amigo Colombiano e as tuas descrições permitem-me viajar pelo seu pais sem ter de sair do Japão. Realmente a América Latina parece ser um poço de emoções e cor.

Que a viagem continue risonha e sem precalços.

Abraços

Anonymous said...

Adorei o modo como me "teleportou" até à colombia...continue!

Desejo-lhe uma boa viagem, calma e sem problemas de maior!

Ana Fernandes

theassemblagist said...

Olá Nuno,

Acabei de descobrir o teu blog através dum comentário no 'Tempo de Viajar'. E que surpresa agradável!
Parece que tenho muito para lêr para me pôr em dia as tuas aventuras.
Aproveita, que eu vou aproveitando deste lado... até ao dia em que eu voltar a estar na estrada.

Um abraço!

Blog Boa Viagem (Luiz Jr.) said...

Que loucura essa viagem sua! Fiquei impressionado quando aterrisei em seu blog! Realmente além de ótimas dicas sobre a Colômbia, você mostra um outro lado totalmente alternativo com a sua forma de se deslocar em uma viagem. Já faz parte da minha lista de favoritos!