4.27.2007

Quem foi o arquitecto desta estrada? (Cuba)

Dia 270
Km 15756


Depois da noite "santeaguera" na cidade de Santiago de Cuba seguimos viagem.
Pedalávamos junto ao mar com a Sierra Maestra ao nosso lado direito numa das províncias mais remotas da ilha, Granma.
Paramos numa cafeteria estatal apenas para comprar água, era meio dia e o calor abrasador não convidava a pedalar. Uns locais convidaram-nos para tomar um rum e depois outro e quando a sua garrafa acabou, sacamos da nossa "Guayabita del Pinar" dos alforjes e já não partimos....
A província de Granma não vê muitos turistas. Uma zona remota da ilha tendo como coração a Sierra Maesta, onde Fidel e os seus camaradas iniciaram a "revolução" e "libertação" da ilha. Esta região parece estar um pouco esquecida, como um local me contou: "nós iniciamos a libertação da ilha do tirano Batista, e agora fomos esquecidos pelo governo central.

Em cuba encontrar uma casa particular para passar a noite ou um local para comer normalmente nunca é um problema, mas nesta parte da ilha, por vezes encontrar as necessidades mais simples para um ciclista viajante podem tornar-se numa pequena aventura.
Paramos na pequena cidade de Niquero para comprar comida para cozinhar,eram 3 da tarde e o mercado agro-pecuário já não tinha quase vegetais nenhuns á venda. Com um pouco de sorte encontrávamos algum local que nos quisesse vender peixe, ou melhor ainda umas lagostas ou camarão, que apesar da sua venda ou consumo por parte dos cubanos ser ilegal, sabíamos que não deveriam ser muito caras. A pesca de crustáceos esta destinada exclusivamente para consumo pelos estrangeiros nas estâncias turísticas e para exportação.

Compramos cebolas pequenas e cheias de terra no mercado agro-pecuário a um senhor que levantou o prato da balança e ficou com ele no ar a olhar para nós. Só passados uns instantes é que me lembrei que em cuba quando vais ás compras tens que levar o teu saco, o que me parece uma forma bastante ecológica. Sem saco á mão , despejou as cebolas para o meu malote da maquina fotográfica, e seguimos pela rua da aldeia levados por um individuo a casa de uma senhora que me vendeu café moído á mão e embrulhado numa folha de jornal. Indicou-nos uma vizinha para comprar-mos 4 cenouras e uma couve, e que nos ofereceu uma cabeça de alho. Como a notícia se espalhou de que andavam 2 turistas á procura de peixe, fomos levados a uma outra parte da cidade onde um individuo nos vendeu 2 peixes frescos por apenas 20 pesos (0.55 euros), ao que viemos a saber mais tarde que tínhamos sido roubados no preço. Compras feitas e já tínhamos conhecido metade da cidade.

O plano do dia era chegar á pequena aldeia de Las Coloradas, local onde Fidel atracou a bordo do famoso barco Granma, visitar o museu alusivo á cena, e passar a noite no parque de campismo local. Parques de campismo em cuba, ao contrario do resto do mundo, não são lugares para acampar. São estância de férias para cubanos, raramente usadas por estrangeiros, com habitações familiares e actividades diversas centradas numa discoteca ao ar livre e com música em alto e bom som pela noite dentro. Disseram-nos que estava cheio (por vezes é a resposta dada quando não aceitam estrangeiros), mas que podíamos montar a tenda do lado de fora do campismo, apesar de haver bués de espaço dentro, na relva, junto a uma das estradas de acesso ao parque, que parecia ser o local onde os garotos da aldeia congregavam e com a discoteca do outro lado do muro o que implicava adormecer ao som de Regaton. Não era bem o que procurávamos depois de um dia duro a pedalar pelas encostas da Sierra Maestra, além de que queríamos fazer uma fogueira para assar o peixe.

Conhecemos o Lionel na aldeia que nos ofereceu a sua humilde casa para dormir.
Em cuba numa sociedade supostamente de `igualdades` existem dois grupos económicos distintos, que quase se poderiam separar, se bem que erradamente, pelo sistema monetário de duas moedas. Os Cubanos que tem acesso a pesos convertíveis, são os que trabalham na área do turismo e os que recebem donativos de familiares a viver no estrangeiro. E os que não tem acesso a divisas ou pesos convertíveis, cujo salário de 300 pesos cubanos por mês (10 euros!),não lhes dá para muito, apesar de o estado subsidiar fortemente os produtos essenciais e de oferecer um excelente serviço gratuito de saúde e educação (dos melhores de toda a América latina).
A família do Lionel pertencia ao ultimo grupo. Recebeu-nos na sua humilde casa onde cozinhamos o peixe no carvão envolto em folha de bananeira enquanto nos contava a sua versão de vida na ilha...

Nos dias que se seguiram, a viagem entre Mazanillo e Ciego Avila foi bastante monótona. km apos km de plantações de cana do açúcar, plana e quente. A monotonia da pedalada era quebrada pelas vozes de crianças vindas de um jardim junto à estrada ou da intimidade de um lar, a gritar :
-TU-RIS-TA!!
-TU-RIS-TA!!
Ou pelo ocasional
-Psssss!!
-Pssssssssss!!
de jovens raparigas numa paragem de autocarros a chamar a nossa atenção.
O "Piropo" como è chamado esse costume cubano, aparentemente originário da península Ibérica, e que seria considerado rude ou mesmo assedio sexual em muitos países ocidentais, aqui, è apenas uma forma de chamar a atenção e de elogio para com o sexo oposto. A forma mais vulgar è um simples "Psssss", mas há também formas mais elaboradas que mais parece o chilrear de um rouxinol numa madrugada de inverno.

Outro entretenimento nas estradas cubanas são os próprios cubanos em velhas bicicletas soviéticas, sem travões, sem mudanças e por vezes sem selim. Passavam-me com certa regularidade, orgulhosos e com cara de gozo a olhar para o turista numa bicicleta carregadíssima e com a cara avermelhada e suada do esforço sobre um sol quente. Por vezes seguiam ao meu lado conversando alegremente durante algum tempo, enfiando-se depois por algum campo de cultivo, outras vezes convidavam-me a parar e a tomar algo nas suas casas.
Terminaram as férias em cuba para o Isaac, que iria ter com a sua namorada ao México. Eu segui sozinho para Trinidad. Uma cidade museu na costa sul da ilha, e uma das cidades coloniais mais bem preservadas de toda a ilha.
Dois dias depois estava de novo na estrada. Uma estrada que parecia subir do mar às nuvens em escassos kilometros.
Os 20 km desde Trinidad até Topes de Collantes, para minha surpresa, iriam ser não só dos mais duros em cuba, mas também de todos os 15000 Km que pedalei desde que saí do ártico há 9 meses atrás. As inclinações da estrada que por vezes ultrapassavam os 20% eram simplesmente cruéis.

O arquitecto da estrada foi um burro, disse-me na brincadeira o dono da casa particular onde me tinha hospedado em Trinidad. Há muitos carros que simplesmente não sobem, continuou. -Se foi um burro, então a minha "burra" também subirà, disse-lhe.
Já há muito que pedalava na mudança mais leve possível e as minhas pernas estavam numa actividade ofuscada de desespero, bombeando os pedais para baixo e para cima como pistões. No entanto a bicicleta quase que não se movia. Estava a usar toda a energia possível e imaginária, no entanto a burra subia a estrada entrelaçada na montanha a passo de tartaruga.
A batida do meu coração, sentia-a na cabeça.
Em pé colocando toda a energia do meu corpo numa perna, pressionava um pedal de cada vez. Os meus músculos gritavam por perdão. Mas estava determinado a não me deixar vencer por uma montanha com apenas 700 metros de altura. Se eu desmontasse aqui, como iria subir os Andes com passes acima dos 4000 e 5000 metros, quando chegar à América do sul?

Ao chegar a Topes de Collantes, no final da subida cruel, um grupo de `hombres` locais, notaram os meus esforços por me manter montado na bicicleta e começaram a bater palmas e a dizer palavras de encorajamento. Sentia-me como Armstrong a cruzar uma meta. Alguém deveria ter colocado uma fita na estrada para eu ultrapassar com as lagrimas a cair-me dos olhos e os braços levantados em triunfo. Mas provavelmente teria caído para o chão. Em vez disso agradeci aos meus entusiastas com um sorriso embaraçoso e pedalei as ultimas dezenas de metros para receber o meu premio: um litro de yogurte de soja liquido com sabor a coco que comprei por três pesos cubanos numa loja da aldeia.

Vários dias depois estava a pedalar no equivalente cubano à auto-estrada Lisboa- porto, `la autopista`, que liga Havana a Pinar Del Rio.
Por vezes, tudo o que ouvia era o guinchar da corrente a pedir óleo, o ruído das rodas a quebrar as folhas secas ou o cantarolar dos pássaros sentados nos fios telefònicos, como se estivessem a por as fofoquíces em dia. Nesta quase vazia estrada de duas vias onde parece haver mais peões do que veículos e donde os cães dormem a sesta no alcatrão quente, ocasionalmente, alguma relíquia de museu que já não teria passado a inspecção 20 anos atrás, ultrapassa-me a alta velocidade, deixando uma nuvem de fumo preto que me deixava a questionar se aquele monte de lata ambulante funcionava a gasolina ou a charutos cubanos. Chocalhando a carcaça, eu só imaginava o momento em que o carro iria desmontar-se, espalhando peça por peça no alcatrão vazio. mas não!
A maioria dos poucos carros que povoam as estradas cubanas são clássicos americanos dos anos 50, barulhentas e ferrugentas peças de arte que se tem mantido nas estradas cubanas há décadas graças ás fantásticas habilidades mecânicas dos seus donos.

Horas depois sai da autopista e Continuei a pedalar para a parte Este da ilha. Um novo perfume pairava no ar com a minha aproximação às zonas tabaqueiras. De vez em quando passava por uma plantação de folhas verdes e frescas e o seu perfume impugnante atravessava a estrada com a minha passagem.

Subia uma encosta até o seu topo, parei e olhei para a minha frente a observar a beleza do vale, O sol caía por detrás dos "mogotes" (formações de calcário) que se elevavam das terras de cultivo vermelhas e verdes como monstros pré-históricos. Ao fundo um carro atravessava a paisagem deixando um rasto poético de fumo através do seu escape, olhei para a estrada entrelaçada na encosta que tinha acabado de subir e sorri. Estes eram os meus últimos esforços feitos nos meus 1600 km de pedalada pela ilha. Os poucos kilometros de `downhill` até á aldeia de viñales eram as minhas ultimas pedaladas em cuba. Com o voo de regresso ao México dentro de dois dias e impossibilitado de adiar o bilhete, apanhei um autocarro para a cidade pastel de um esplendor decadente que è la habana. De novo a bordo do tupolev russo quando os pés dos passageiros eram submergidos pelo "fumo" da ventilação, o turista ao meu lado pareceu-me irrequieto.
-È o ar condicionado, disse tentando tranquilizá-lo. pedi uma cuba libre (rum com cola), e olhando pela janela brindei com a ilha que pouco a pouco ía sendo engolida pelo mar azul turquesa. Se tivesse que descrever cuba usando uma única palavra, teria mesmo que ser RITMO.

Ritmo cuba tem-no aos montes. Um perpectuado pulso latino influenciado por ritmos africanos que se transmite por todos e cada cidadão cubano como se fora algo genético. Qualquer coisa que façam, por mais mudano que seja, parece ser uma serie de passos cuidadosamente coreografados e que deixam o visitante hipnotizado....

Nuno Brilhante Pedrosa
Em cancun, México.

3 comments:

HaroMan said...

Que inveja!!!! Remeteste todas as minhas aventuras para a sua insignificância. A partir de hoje vou aproveitar todos os teus relatos para "pedalar" ao teu lado. CUMPRIMENTOS

MANHENTE said...

Nuno:

Acompanho as suas crónicas religiosamente. Gostei muito da imagem do carro movido a charuto cubano.

Mais uma vez, que a minha pontinha de inveja pelo seu modo de vida se transforme em energia muscular para o levar a bom porto.

Um abraço

Tanque Silva said...

Fantástica aventura Nuno. Deixas em todos nós uma pontinha de inveja . Aproveita-a bem , pois todos nós olhamos para ela como se fosses nós. Os teus olhos e tudo o que vês,e descreves, acabam por ser para nós também uma "viagem". Enviei-te um mail acerca de um assunto. Um abraço